
O Banco Mundial prevê que a economia angolana crescerá em média 2,9% ao ano entre 2025 e 2027, com base sobretudo na contribuição do sector não petrolífero.
Esse dado, ainda que positivo, traz consigo uma inquietação: crescer abaixo de 3% num país com mais de 36 milhões de habitantes significa manter o destino de milhões de angolanos preso a um desenvolvimento insuficiente, sem capacidade real de transformar os padrões de vida e de reduzir a pobreza de forma significativa.
Este desafio torna-se ainda mais claro quando se compara a actual taxa de crescimento económico com o ritmo de crescimento da população angolana.
Enquanto o Banco Mundial prevê uma expansão do PIB em torno de 2,9% ao ano até 2027, a população cresce a uma taxa superior, estimada em 3,1% anuais.
Na prática, isso significa que a economia não está a crescer no mesmo compasso que a população, gerando uma percepção de estagnação social: mais pessoas a disputar os mesmos recursos, empregos e serviços, sem que o rendimento per capita avance de forma significativa. É por isso que, para Angola, crescer abaixo de 3% não é apenas insuficiente — é regressivo.
O próprio Banco Mundial tem alertado que, para que Angola consiga mudar estruturalmente a sua realidade social e económica, será necessário sustentar um crescimento acima de 5% ao ano.
Só assim será possível gerar empregos em larga escala, melhorar os rendimentos das famílias e criar bases sólidas para uma economia diversificada e competitiva.
O dilema é que, ao longo dos últimos anos, a economia nacional tem permanecido presa a um ciclo de crescimento moderado, incapaz de romper barreiras históricas que impedem avanços mais consistentes.
Entre os factores que travam o progresso, destaca-se o peso da infraestrutura deficiente, que coloca Angola entre os países com custos logísticos mais elevados da região.
Transportar mercadorias dentro do território nacional ou escoar produtos para exportação ainda é caro e demorado, o que desestimula a produção e retira competitividade às empresas nacionais.
Não menos importante é o desafio do financiamento: taxas de juro elevadas, escassez de crédito acessível e rigidez institucional dificultam o crescimento das pequenas e médias empresas, que são justamente as grandes geradoras de emprego em qualquer economia.
A burocracia continua a ser outro entrave marcante. Apesar dos progressos registados na facilidade de abertura de empresas, manter uma empresa em Angola continua a ser um processo difícil, alimentando a informalidade e afastando potenciais investidores.
A isso soma-se a instabilidade macroeconómica: mesmo com sinais de melhoria, como a queda da inflação de 26,5% em janeiro para 18,9% em agosto de 2025, os preços internos ainda se mantêm muito acima da média dos principais parceiros comerciais, comprometendo a competitividade das exportações e encarecendo o custo de vida das famílias.
Diante deste cenário, torna-se evidente que romper o limite de 3% exige um esforço coordenado e ousado. Angola precisa de acelerar os investimentos em corredores logísticos estratégicos, modernizar portos, ferrovias e estradas, e recorrer a parcerias público-privadas bem estruturadas, sobretudo nos sectores de transporte e energia.
É igualmente urgente desburocratizar e digitalizar os processos administrativos, reduzindo prazos e custos para o sector privado, o que poderá estimular a formalização de empresas e atrair novos investimentos.
Outro caminho fundamental está no acesso ao crédito. Linhas de financiamento acessíveis e mecanismos de garantia parcial do Estado podem impulsionar as PME, enquanto programas de microcrédito direcionados à agricultura e à agroindústria permitiriam fortalecer cadeias produtivas locais.
Recorde-se que Angola importa mais de 2 mil milhões de dólares em alimentos por ano: reduzir essa dependência por meio da dinamização da produção interna significaria não apenas poupança de divisas, mas também criação massiva de empregos e aumento directo do PIB.
A diversificação económica, por sua vez, precisa ir além do discurso e passar a ser um compromisso prático. Agricultura, pescas, minerais não petrolíferos, indústria transformadora e turismo são sectores capazes de gerar riqueza e emprego de forma sustentada.
Para que isso aconteça, é essencial criar um ambiente económico previsível, com inflação controlada, disciplina fiscal e estabilidade cambial, oferecendo confiança aos investidores e aos cidadãos.
Romper o teto de 3% não é apenas uma questão de estatística; é uma necessidade vital para garantir futuro às novas gerações. Angola possui recursos abundantes, capital humano jovem e dinâmico, e uma posição geoestratégica privilegiada em África.
O que falta é transformar esse potencial em crescimento real e inclusivo, capaz de dar respostas concretas às aspirações da sociedade.
As escolhas que o país fizer nos próximos dois anos serão determinantes. Sem reformas estruturais profundas, Angola corre o risco de permanecer numa trajetória de crescimento insuficiente e desigual.
Mas com coragem política, visão estratégica e implementação rigorosa das medidas adequadas, será possível transformar o actual crescimento moderado num ciclo de desenvolvimento sustentável e de impacto social positivo.
O desafio está lançado: é tempo de acelerar, de romper barreiras e de levar Angola para além do limite de 3%.
*Economista