
Nasceu em Luanda, onde também fez estudos primários e secundários, mas muito cedo foi a Portugal, onde repetiu o secundário e se licenciou. Vicente Lopes é especialista em tecnologia de informação e comunicação, docente da Universidade Agostinho Neto (UAN) e consultor de ciber segurança, mas também age na área de inteligência artificial, no domínio da gestão de projectos.
“A área de ciber segurança é uma das maiores preocupações porque Angola tem um bom nome, já granjeou grande prestigio, a nível internacional, mas o nosso receio é de que de tantos riscos e ameaças saia nas grandes manchetes como uma casa onde no portão, qualquer um entra e sai como quiser”, alertou o especialista.
E disse mais: “Temos que ser claros: as autoridades angolanas têm vontade para a resolução dessas questões, mas na prática não há nada de concreto quanto a centralização dos serviços de ciber segurança. Cá estamos para ajudar o país no que for necessário”.
Defende a necessidade de uma agência de comando central que ajude a prevenir todos os incidentes possíveis de acontecer no país. Que ajude a localizar imediatamente alguma situação de evasão e a partir dai ditar diretrizes a grupos específicos para actuar, atacar e repor a situação. “Precisamos de uma estratégia nacional centralizada, concertada de ciber ataques”, insiste o engenheiro Vicente Lopes, receando que de tantos riscos e ameaças Angola saia na boca do mundo como um portão onde qualquer um entra e sai como quiser.
Ataques cibernéticos representam um termo novo no nosso vocabulário?
São um fenómeno novo, porque o Executivo angolano investiu bastante, nomeadamente, em infraestruturas tecnológicas, particularmente, de comunicação. Temos por toda Angola estendida a fibra óptica que permite as comunicações de dados e voz e por conseguinte temos adicionalmente também o Angosat II, portanto, é uma série de investimentos que o Governo angolano vem fazendo de algum tempo a esta parte para permitir a comunicação das empresas, das organizações e dos angolanos no geral.
Um investimento que também acarreta riscos, certo?
Exactamente! Como poderá compreender, esses avanços tecnológicos têm benefícios, mas também, têm as suas desvantagens. Trazem consigo riscos, ameaças e vulnerabilidades. Por via dessas ameaças, vulnerabilidades e riscos, alguns malfeitores aproveitam para fazer mal ou às organizações, a pessoas individuais, ou colectivas.
Qual é o móbil desse aproveitamento maléfico?
As razões são várias. Desde já, por razões políticas, mas também por razões económicas e por razões de espionagem.
Espionagem?
Sim, aqui espionagem podemos falar da industrial, da informacional e do segredos de Estado. Portanto, costuma ser já uma prática bem conceituada no nosso país.
Um dos exemplos de empresa que sofreu recentemente ataque cibernético é da transportadora aérea angolana (TAAG), pode citar outros, e como nos devemos acautelar desses ataques?
Os exemplos são vários. Podemos citar nomes de organizações como a TAAG. As organizações nomeadamente, financeiras, como os bancos, evitam publicar que sofreram determinado ataque para evitar desconfiança por parte dos seus clientes. Querem manter a confiança. A TAAG foi a única que veio a público dizer que sofreu ataque com consequências graves.
Como o cidadão e as organizações se devem defender desses ataques cibernéticos?
Há várias formas de mitigar esses ataques, começando pela consciencialização dos funcionários do topo à base, ou seja, desde os corpos decisores das organizações até ao último funcionário da instituição, investindo na própria tecnologia, formando quadros capazes de usar ferramentas para poderem defenderem as suas organizações.
Há capacidades internas em termos de formação de quadros a esse nível?
Em Angola temos já algumas empresas doptadas de grande capacidade de trabalhar na prevenção dos ciber ataques. Mas que eles (ataques) são uma realidade, são.
Portanto, temos quadros que podem intervir a esse nível ou temos de depender de terceiros, ou seja, de estrangeiros?
Em bom rigor temos quadros. Se Angola quiser usá-los pode. Os números estão muito aquém de responder as necessidades reais do país, mas temos quadros sim capazes de fazer um bom trabalho em prol de Angola. Podem defender o país dos ciber ataques.
Mas Angola não é autossuficiente. Se tem quadros, não tem tecnologia. Quem vende essa tecnologia não é capaz de provocar esses problemas?
Essa é uma realidade. Quem vende a tecnologia sabe dos segredos do que está a vender. Angola não é autossuficiente, mas tem quadros capazes de ajudar o país a se defender dos ataques cibernéticos. Além disso, algumas instituições estão a participar da formação massiva de quadros a nível interno e externo. Vamos precisar sempre de ajuda externa, mas para responder de forma clara à sua pergunta, digo que já temos sim quadros capazes.
Quadros de qualidade?
Posso dar um exemplo concreto: apesar de serem empresas estrangeiras que estão a detectar graves falhas, como a da UNITEL, posso-lhe dizer que foi um quadro angolano que detectou a grave vulnerabilidade e fraude nesta empresa.
O Angosat II diz-lhe alguma coisa?
Diz muita coisa. Apesar de uma grande percentagem, cerca de 90 por cento da comunicação em Angola ser feita por via cabo, o Angosat II vem ajudar a colmatar muitas falhas e vem também no sentido de captar divisas para os cofres do Estado através da venda de serviços do nosso satélite a outros países.
Mas há quem não identifica melhorias nas comunicações telefónicas, só para citar esse exemplo?
O Angosat II veio fornecer um serviço de comunicação que está disponível. O que deve estar a faltar podem ser das empresas que vão buscar e fornecer esse serviço. O Angosat II traz de fora. Vamos estabelecer um paralelo: imagine que a EPAL traz a um bairro uma conduta grande de água potável, mas os moradores dizem que as casas não têm água. Assim se pensarmos que a EPAL trouxe água a grosso ao bairro, significa que fez o seu trabalho. Agora carecerá às administrações municipais e às empresas ir buscar essa água da fonte para distribuir aos consumidores dos bairros. O mesmo acontece com o Angosat II: traz-nos o serviço por satélite. Já está cá em Angola, está disponível. Sabemos que a televisão que vamos assistir é por satélite. Talvez reitero, faltarão algumas empresas de serviços para fazer chegar ao cidadão consumidor o serviço do Angosat II.
Para um país que projecta o desenvolvimento, a formação e investimento nas novas tecnologias deve ser uma prioridade…
É uma prioridade. Como disse no princípio, Angola investiu bastante no domínio das infraestruturas tecnológicas. Esse investimento traz grandes benefícios, mas também riscos, vulnerabilidades e ameaças. Nós não vamos andar a construir tudo de bom sem sabermos defender as nossas infraestruturas principalmente criticas.
Infraestruturas criticas?
Estamos a falar dos serviços de energia eléctrica da distribuição de água, transportes no geral, como marítimos e aéreos, mesmo terrestres, comunicações, serviços de inteligência, o conjunto dos órgãos de defesa e segurança, portanto, infraestruturas criticas que requerem da nossa parte formar quadros que possam defender a nossa Ciber Angola.
Porquê?
Sabemos que hoje a guerra já não é só a convencional. É também cibernética. Como sabemos, muitas vezes nas duas grandes guerras que o mundo está a assistir quer na Palestina quer na Ucrânia, o trabalho cibernético foi usado em grande escala quer para a recolha de dados quer para fragilizar o oponente e também para a tomada de decisão.
Voltando às infraestruturas críticas, a nossa ENDE também em tempos sofreu um desses ataques, inviabilizando em larga escala o seu funcionamento. Quer comentar?
Essas organizações podem formar quadros ou recorrer a organizações já existentes para se defenderem e prevenirem-se desses ciber ataques. Não devemos pensar que os malfeitores são apenas do exterior. Muitos deles estão mesmo dentro de Angola, outros ainda são interempresas, ou interorganizações. É complicado, não? Por isso é que falamos da conscientização. Por vezes o facto de alguém (um gestor ou responsável) se esquecer do password escrito num papel, e ditar a um subordinado para executar uma operação qualquer, no sentido de adiantar algum trabalho essa senha pode inadvertidamente parar em outras mãos não aconselháveis e daí desencadear esses ataques. Portanto, os ataques são de vária ordem.
Está satisfeito com o rumo do país nos seus mais diversos domínios incluindo este da nossa abordagem?
Alguma coisa está sendo feita. Relativamente a alguma documentação e legislação está a ser feita, mas na prática, sectorialmente, algumas grandes empresas por sua conta vão tendo algumas ferramentas para se defenderem, estamos satisfeitos. Mas as pequenas e médias empresas não. No conjunto das empresas públicas estão vulneráveis. Se me perguntar ao nível de Angola não estou satisfeito.
Qual o motivo dessa insatisfação?
Precisamos de ter uma agência nacional de comando central que ajude a prevenir todos os incidentes possíveis de acontecer no país. Que ajude a localizar imediatamente alguma situação de evasão que aconteça e a partir dai dar diretrizes a grupos específicos para actuar, atacar e repor a situação. Portanto, precisamos de uma estratégia nacional centralizada e concertada de cibersegurança.
Não existe essa entidade?
Tanto quanto sei, esta entidade ainda não existe. Eu quero apelar que os quadros, como disse, estão ai, então devem ser consultados, incluindo as universidades, as associações e entidades singulares, no sentido de consubstanciarmos numa só voz esse desiderato, que Angola tanto precisa, ou seja, de uma estratégia para defendermos as nossas fronteiras, a nossa soberania.
Com esta entidade o combate será melhor?
Seria mais fácil a identificação e ataque a esses fenómenos. Em tempo record dar resposta de forma conjunta. Os hackers gostam muito de dinheiro. Muitas vezes como aconteceu com a TAAG, eles açambarcam, atacam a base de dados e depois querem o resgate por avultadas somas de dinheiro para devolverem aquilo que eles bloqueiam. Mas atenção, eles não gostam só de dinheiro, gostam de documentação, de registos financeiros das empresas, dos órgãos de defesa e segurança, das estratégias militares, do plano da acção policial e gostam bastante das estratégias dos nossos serviços de segurança, portanto, é a nossa soberania que fica em jogo.
Logo, o cidadão comum também deve estar em alerta?
O cidadão comum também tem os seus problemas de ‘fake news’, contas nos bancos, com as suas aplicações e familiares. Hoje em dia, a maior parte dos meninos têm o seu tablet. Por vezes eles pensam que estão a falar com um menino igual, mas estão a falar com um bandido a pedir por exemplo, quando é que os país estão em casa. É preciso alertar as crianças para não terem contacto com desconhecidos, e nunca anunciar o roteiro de férias. As crianças devem ter essas ferramentas para acompanhar a dinâmica e a evolução, mas devem ser alertadas para os cuidados a ter. Devemos trocar regularmente as senhas, porque hoje está fácil a clonagem de perfis e um bandido pode passar por uma pessoa que não é e molestar o nosso familiar.
in Pungo a Ndongo