
Exmo. Senhor Presidente João Lourenço,
Escrevo-lhe esta carta como um jovem angolano, natural de Lumeje Kameia, no Moxico, uma região que carrega consigo histórias de resistência, sacrifício e esperança.
Sou um simples cidadão, mas, como muitos angolanos, tenho uma profunda ligação com este país e uma vontade de ver Angola crescer de forma justa, unida e reconciliada.
Senhor Presidente, tenho ouvido dizer que o senhor é historiador. Mesmo com as minhas dúvidas, decidi considerar essa informação e trazer à tona algumas reflexões sobre o nosso passado colectivo.
É do conhecimento de muitos que a história de Angola, especialmente a luta contra o colonizador português, foi marcada por diversos movimentos e organizações.
Embora o MPLA tenha desempenhado um papel crucial, não foi o único movimento a iniciar essa luta. Vários livros e registos históricos apontam para o envolvimento de outras organizações, como a UNITA e a FNLA, que também contribuíram para a libertação do nosso país.
A independência de Angola, conquistada em 1975, foi e sempre será um ganho nacional. Pertence ao povo angolano, que sacrificou vidas, sonhos e recursos para alcançá-la.
O mérito não é de um único partido ou movimento, mas de todos os angolanos que, de diferentes formas, lutaram por um país livre.
Reconhecemos que três movimentos principais – MPLA, UNITA e FNLA – estiveram envolvidos nesse processo, e que os seus líderes, Agostinho Neto, Jonas Savimbi e Holden Roberto, foram figuras centrais nessa jornada.
Eles não são donos da nossa história, mas foram líderes que orientaram o povo na busca pela independência.
Senhor Presidente, é importante lembrar que os nossos problemas pessoais ou políticos não devem afectar os interesses nacionais. A reconciliação nacional é um processo que exige humildade, perdão e um olhar para o futuro.
Quando o senhor assumiu a presidência, muitos angolanos depositaram esperanças no seu governo, acreditando que poderia trazer mudanças significativas para o país. No entanto, há ainda quem duvide, incluindo eu, da capacidade de certos actores políticos de superarem divisões do passado.
A questão que levanto é simples: por que não honrar todos os que contribuíram para a independência, mesmo aqueles que já não estão entre nós?
Jonas Savimbi e Holden Roberto são parte indissociável da nossa história. Reconhecer o seu papel não é um acto de fraqueza, mas de grandeza.
A verdadeira reconciliação passa por reconhecer que, independentemente das divergências, todos fizeram parte de um mesmo objectivo: a liberdade de Angola.
Senhor Presidente, a guerra civil foi um período sombrio da nossa história, marcado por perdas irreparáveis. Muitos angolanos, incluindo familiares meus, perderam a vida no Leste do país, vítimas de um conflito que dividiu irmãos.
No entanto, entendemos que foi uma guerra, e como tal, trouxe sofrimento para todos os lados. Avançamos, mas não podemos esquecer. A paz que tanto celebramos só será completa quando conseguirmos olhar para o passado sem ódio ou rancor.
Por isso, pergunto: por que tanto ressentimento contra aqueles que já partiram?
Por que não conceder o perdão e o reconhecimento que merecem, mesmo após a morte?
A verdadeira reconciliação exige que sejamos capazes de superar as mágoas e honrar a memória de todos os que contribuíram para a construção da nossa nação.
Senhor Presidente, acredito que o senhor, como ser humano, pai e líder, compreende a importância de deixar um legado de união e justiça.
A história de Angola não será completa sem o reconhecimento dos três movimentos e dos seus líderes. Quando falarmos da independência, estes três estarão sempre juntos, independentemente do tempo que passe.
Peço-lhe, portanto, que reflita sobre estas palavras e considere a possibilidade de promover uma reconciliação verdadeira e inclusiva.
Acredito que, com gestos concretos, como o reconhecimento público de todas as figuras históricas, podemos avançar como nação e construir um futuro onde todos os angolanos se sintam representados e valorizados.
Com os melhores cumprimentos,
Nelson Mucazo Euclides