As contas ocultas da Carrinho
As contas ocultas da Carrinho
Grupo Carrinho

O Grupo Carrinho tornou-se famoso. Tem uma história enternecedora assente na Mãe Leonor Carrinho, que, no seu quintal em Benguela, em 1993, criou um bar que deu origem a um dos maiores grupos económicos de Angola.

Recentemente, o grupo comemorou o 30.º aniversário de forma esfuziante, numa larga operação de relações públicas em que não faltaram estrelas internacionais como Durão Barroso e Graça Machel (esta última, a dada altura, pareceu confusa sobre o seu papel no evento e terá feito declarações contraditórias), acompanhadas de declarações tonitruantes dos administradores do grupo, aparentemente dirigidas ao poder político e aos seus críticos.

O grupo tem largas ambições e visões, e declara-se empenhado “em desenvolver a primeira estrutura organizacional verticalmente integrada do sector alimentar, gerindo todas as etapas do processo: a originação, o transporte, o armazenamento, a transformação e a comercialização”.

Há uns tempos, comprou o banco falido BCI por uma ninharia, e assumiu-se como concorrente à compra da posição do espanhol BPI no BFA. A verdade é que o Grupo Carrinho se tornou uma das referências empresariais de Angola durante o mandato de João Lourenço.

Se não há dúvida sobre o papel central que o grupo pretende ocupar na economia angolana, existem outras dúvidas. Uma refere-se à origem e propulsão da empresa, cujo historial genético se associa a contratos com a Sonangol e a Odebrecht, duas referências tristemente paradigmáticas do modo de fazer negócios em Angola durante as décadas de 1990 e 2000. Mas não é sobre essa questão que nos vamos debruçar hoje.

O tema deste texto é algo factual e surpreendente. O Grupo Carrinho não tem contas públicas, nem relatórios de gestão. Percorrendo o seu website, não se encontra uma única referência financeira, um balanço, uma demonstração de resultados. Nada.

Aparentemente, a única vez em que o grupo se referiu publicamente às suas contas foi na referida festa, para anunciar um lucro em 2022 de 322,4 milhões de dólares, vaticinando simultaneamente que esse valor triplicaria em 2023.

Contudo, este número não vem acompanhado de nenhuma documentação acessível ao público ou relatório de gestão. Não se sabe absolutamente nada sobre as contas, a evolução financeira, os encargos ou o património do Grupo Carrinho.

Se as pessoas existem e os edifícios também, o resto, para o público em geral, é um completo mistério. Legalmente, estará tudo certo assim.

O grupo parece ter uma forma jurídica que permite a privacidade, sendo detida pela Mãe Leonor e os seus filhos, e por isso não tendo de prestar contas a accionistas ou ao público em geral.

No entanto, a questão que se coloca é de transparência de mercado. Não tem sentido algum que uma das empresas que mais se destacam na actualidade não disponibilizar nenhuma informação financeira.

Voltando ao website, verificamos que a informação aí apresentada é quase nula, limitando-se a aspectos propagandísticos. Tirando a menção a alguns membros da administração, somos informados sobre nada referente à estrutura de gestão, política de governação, activos, passivos, cash flow, rendimentos, etc. A opacidade do negócio é total.

Neste momento, sobretudo tendo em conta anúncios, eles próprios estranhos, de que o grupo se vai estrear na Bolsa, mas sem dispersar acções – deixando a dúvida sobre o que vai fazer na Bolsa, onde a actividade natural é vender e comprar acções –, e também tendo em conta o seu interesse em comprar bancos, como o BFA, além da sua polémica participação na Reserva Estratégica Alimentar, que será em breve esclarecida, torna-se óbvio que esta situação de obscuridade contabilística pública não se poderá manter. Não adianta dizer que as contas são certificadas pela Deloitte, pois tal não aduz nenhuma credibilidade acrescida.

Há que não confundir as exibições de Durão Barroso, Graça Machel e outros festivais com a necessidade de apresentar ao público angolano um quadro claro e verdadeiro das contas da empresa, com um mínimo razoável de dados.

O país não pode ter um dos seus maiores grupos, que recebe fundos e contratos públicos, sem uma sindicância normal das suas contas e proveitos financeiros. Se a empresa continuasse a ser uma pequena ou média empresa sem impacto na economia nacional – e, sobretudo, sem ligações ao Estado –, essa opacidade seria admissível.

Não é admissível em relação a um grupo que recebe garantias soberanas do Estado, isto é, de toda a comunidade de angolanas e angolanos.

A emissão de garantias obedece a um processo de análise jurídica e financeira em que uma das condicionantes é a saúde financeira e capacidade de reembolso por parte da entidade beneficiária.

A questão que se coloca é se a Presidência da República e o Ministério das Finanças, ao emitirem a garantia, tiveram conhecimento dos relatórios e contas do Grupo Carrinho, e aferirem o seu grau de solvabilidade, rentabilidade e capacidade de pagamento.

O público angolano, último garante das responsabilidades do Estado, devia ter conhecimento da situação da empresa a que presta a sua credibilidade republicana.

Em troca da garantia soberana, o mínimo que em nome do Estado Democrático e de Direito o grupo deveria ser obrigado a fazer era apresentar pública e documentalmente o seu relatório e contas.

Caso contrário, corremos o sério risco de ver a história repetir-se.

in Maka Angola

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