As fardas choram de raiva – Jorge Eurico
As fardas choram de raiva – Jorge Eurico
generais angolanos

As lágrimas de um ancião africano são sinónimo de maldição. Mito. Símbolo ancestral. As lágrimas de oficiais-generais e de oficiais superiores são um sinal claro e contundente na navegação nacional. Facto. Realpolitik. O contrato entre a tropa e o poder político pode estar em causa.

A atenção e a preocupação imediata do Comandante-em-Chefe deve ser convocada. Se não merecer a devida e a competente atenção, tal manifestação poder ser interpretada como um símbolo de traição e desprezo ao pilar principal da estabilidade política do Estado angolano. Uma machadada na paz e na ordem constitucional. Um rompimento do pacto de lealdade entre as FAA e o poder político.

O tenente-general Emanuel Vasconcelos (Nelo Russo) comoveu o País ao afirmar, em declarações à TV Girassol, que a situação social e económica de Angola “nunca esteve tão mal como agora”. Concluiu, de forma contundente e com lágrimas à mistura:“Não foi para isso que nós lutámos.” A lágrima de um soldado evoca dor. Honra. Sacrifício. Sugere algo grave. Anormal.

Quando um soldado chora, o Estado estala. A lágrima de um fardado não cai em vão. É sinónimo de denúncia. De clamor. De profecia. O desabafo de Nelo Russo é um sinal de ruptura. Um alerta. Um aviso revelador do desprestígio e da degradação do bem-estar da classe castrense outrora privilegiada. A caserna está sem ração.

Nelo Russo foi o porta-voz involuntário do descontentamento latente das vítimas do esquecimento e do desprezo estratégico a que o generalato está hoje sujeito.

O episódio ocorreu no ano passado. A entrevista de Nelo Russo nunca chegou a ser emitida. Sucede que os generais falam mesmo quando censurados. Mesmo em silêncio. O silêncio dos generais é ensurdecedor.

Presume-se que o entrevistado tenha sido alvo de censura dentro da Força Aérea, onde ocupa um cargo de grande responsabilidade. Poucos dias depois, circulou nas redes sociais um documento assinado por si, informando a sua saída do País para gozo de férias.

Até os meninos mais inocentes sabem qual foi a verdadeira razão dessas “férias”. Desde então, nunca mais se falou dele.

O grito abafado de Nelo Russo, a degradação das FAA e o silêncio pesado dos generais compõem hoje um cenário que ameaça estremecer o pacto militar-político angolano. Um sinal de alarme que, se ignorado, poderá ter consequências imprevisíveis no equilíbrio institucional do País.

O desabafo censurado de Nelo Russo é o retrato da degradação institucional das FAA. É o barómetro do desconforto actual no seio do baluarte do Estado angolano.

Privilegiados em quase todos os aspectos antes de 2017, hoje muitos generais vivem na miséria, nivelados com o “Zé Povinho”. Não há, na prática, diferença entre um desempregado e um general. Estão como em Cuba: Igualados nas privações sociais e económicas.

Os oficiais superiores e oficiais-generais estão a ser empurrados, com desdém, para o esquecimento e o desprezo. Terminada a guerra, os generais foram descartados como trapos de uma vitória que o País se recusa a valorizar. Era suposto, possível e desejável que fosse diferente. Mas há exclusão. Há descaso.

Desengane-se quem pensa que José Eduardo dos Santos se afastou da liderança do MPLA por pressão dos militantes de base. A verdade é outra: O seu afastamento foi forçado por um pronunciamento discreto de um respeitável segmento de generais das Forças Armadas Angolanas (FAA), que encorajou alguns “senadores” do partido a secundar o grito do Ipiranga vindo do interior da caserna. O predecessor de João Lourenço foi posto no poder por políticos. Mas foi empurrado dele pelos militares. Ironia do destino.

O então Comandante-em-Chefe foi realista. Percebeu que o seu poder já não contava com o amparo dos militares. A única alternativa sensata e coerente era esta: delegar a direcção do partido ao neófito Presidente da República. Foi uma decisão avisada. Prudente.

Ao guerreiro, depois de quase quatro décadas de administração política, restava apenas uma saída: Descansar! Mas não lhe deram sossego. Foi acossado. Vilipendiado. Ele e a sua prole.

Muitos dos seus colaboradores foram proscritos. Afastados como se fossem cães tinhosos. Excluídos como se o País tivesse excesso de quadros, ao ponto de dispensar aqueles que, durante anos, acumularam capital técnico e político sob a sua liderança de Jose Eduardo dos Santos.

Já o disse. Volto a alertar: Há descontentamento real e profundo no seio das FAA. Sobretudo entre oficiais superiores e oficiais-generais. Vivem na miséria. Sentem-se abandalhados. Perderam a dignidade desde 2017.

As queixas chegam a quem quer ouvir ou a quem não tem cera nos ouvidos. Há oficiais superiores e generais a contar espingardas para um eventual pronunciamento. Se tal acontecer, é possível que João Lourenço não chegue sequer ao congresso do próximo ano como presidente do MPLA.

As coisas podem complicar-se. E aí, Mara Quiosa vai ver-se grega para lidar com um eventual pronunciamento político-castrense. Atenção à jogada. Quando o soldado chora, o poder político treme. Ou vai tremer. A qualquer momento.

Nota: No meu último artigo, intitulado “O País dos Compadres”, disse erradamente que Lobo do Nascimento tinha destruído a empresa Cabotagem. O correcto seria dizer que a figura em causa destruiu a Angonave. Pelo lapso, aqui deixo a minha penitência.

*Jornalista

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