As festas religiosas e a sociedade de consumo – Pedro de Castro Maria
As festas religiosas e a sociedade de consumo - Pedro de Castro Maria
Pedro de Castro Maria

O calendário litúrgico das Igrejas Católica Romana, Evangélicas ou Protestantes, herdeiras da Reforma Protestante do Século XVI, bem como as chamadas igrejas pentecostais e as neo-pentecostais, sendo de matriz religiosa-cristã, assinala esta como a Semana Santa, evento de capital importância e simbolismo.

A Páscoa, que é o derradeiro e o mais significativo dia da semana, que inicia com o Domingo de Ramos, marca a ressurreição de Cristo e, no dizer dos cristãos, a vitória da vida sobre a morte. Por alegoria, a certeza numa vida depois da morte, para todos(a) aqueles(a) cuja crença em Deus e em Jesus Cristo e consequente prática de boas acções,se constituem em modo de vida.

O sociólogo clássico francês David Émile Durkheim, na sua obra “As Formas Elementares da Vida Religiosa”, ao fazer a distinção entre o sagrado e o profano, considera que o sagrado tem que ver com o mundo religioso, voltado para a prática do bem, portanto, com forte pendor de moral positiva, apelando mesmo a que as pessoas adiram ao sagrado e se afastem do profano, ligado à prática do mal.

O teórico francês defende, igualmente, que a igreja é a institucionalização do fenómeno religioso. Assim, por extensão, posso considerar que a igreja é, por excelência, uma instituição voltada para a prática do bem.

O que dizer então, dos dias de hoje, em que as festividades religiosas, mormente a Páscoa e o Natal, só esta supera aquela em termos de mediatização, mercantilização e adesão, fazem encher templos cristãos, mas a realidade nos remete a um mundo marcado pela prática do mal, com regularidade dramática e apocalíptica, onde os comportamentos tidos como desviantes ao longo dos tempos, por sociólogos, estão cada vez mais presentes?

O uso dos termos “mediatização”, “mercantilização” e “adesão” feito no parágrafo precedente convoca a minha atenção e, presumivelmente, a do leitor, para a “sociedade de consumo” e seus encantos.

E, ir à igreja, principalmente nos dias das festividades religiosas apontadas acima, tornou-se uma necessidade quase que existencial de adaptação a já referida sociedade de consumo.

Esta sociedade de consumo, assim tipificada pelo sociólogo francês Jean Baudrillard, é cognominada pelo também sociólogo francês Guy Debord, numa obra publicada em 1967, como “Sociedade do Espectáculo”, onde todos os aspectos do quotidiano são invadidos pelo capitalismo moderno.

Para o sociólogo polaco Zygmunt Bauman a sociedade actual é uma sociedade líquida e a modernidade líquida, em contraste com a modernidade sólida (esta tem a ver com a era industrial, ao passo que aquela tem a ver com a era pós-industrial), experimenta mudanças rápidas e radicais, pois nada é sólido, tudo se dilui, até valores que se supunham perenes no tempo, perecem com certa facilidade.

O consumo conspícuo, aquele que é ostentatório, que visa chamar atenção, que anuncia presença arrogante e espectaculosa, classificada como dos complexados, muito ligado ao novo-riquismo (qualidade de quem enriqueceu muito rapidamente e, por vezes, de forma ilícita), é um traço de carácter muito presente na sociedade de consumo.

É consumir mais do que o necessário. Gastar para satisfazer os prazeres mundanos. Ter sempre o prazer de comprar, nem que depois o produto comprado seja descartado em horas, minutos ou segundos, passe o exagero.

Feuerbach, no prefácio à segunda edição da obra “A Essência do Cristianismo”, diz que o nosso tempo, sem dúvida, prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representanção à realidade, a aparência ao ser… Para ele, o que é sagrado não passa de ilusão, pois a verdade está no profano.

Destas palavras, afiro e infiro que o real está em contra-senso com o ideal, onde a aparência é mais importante que a essência, o mais do que ser e, o importante é parecer.

Na Páscoa e no Natal, mais importante do que assimilar a ideia de igreja como instituição vocacionada para a prática do bem, é participar do espectáculo, consumir a mensagem do sacerdote, não para pô-la em prática, mas para estar na onda.

É dar e receber presentes (vou ouvindo falar que há padrinhos da Páscoa), é ser visto e ver, ser homem e mulher dos novos tempos, ter boa imagem, independentemente da prática ou não de boas acções nas diversas arenas de actuação, desde as familiares às profissionais, ou mesmo simplesmente no espaço público das multidões.

O governante que delapida os recursos do erário, que na hermenêutica da ciência económica são sempe escassos, vai à igreja na Páscoa, toma a Santa Ceia; o árbitro desportivo que beneficia uma das equipas em detrimento da outra com a qual compete, porque foi corrompido, vai à igreja na Páscoa; o professor que troca notas por dinheiro ou favores sexuais, comemora a Páscoa; o líder religioso que está mais preocupado com a contribuição financeira do fiel do que com sua sincera conversão ao evangelho, lidera as actividades ligadas à Semana Santa.

Assim, as festas religiosas, nos dias de hoje, apesar de toda a diligência na explicação do seu verdadeiro sentido, a que muitos dirigentes cristãos e seus coadjuvantes se empenham com assinalável afinco, tornam-se em ocasiões para práticas e representações sociais adaptadas e adapatáveis à sociedade de consumo.

Há os fiéis que vivenciam essas festividades com um teor de vida condizente com o seu real sentido. Oxalá esses sejam, em grande número e contribuam para a mudança de que o mundo precisa e, em particular, a nossa Angola.

*Sociólogo e docente do ISCED/Luanda

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