
Mais palavra, menos palavra, o grupo autodenominado Movimento de Resgate da UNITA defende o regresso de Isaías Samakuva à liderança do partido.
É um desejo contraproducente. Embora considere o “Velho Samas” o político mais bem “temperado” da oposição — afinal, dialogou inúmeras vezes com o velho Zeca —, a verdade é que, em eleições diretas, perderia para Adalberto Costa Júnior (ACJ).
O actual contexto político angolano está alinhado com o perfil de ACJ, tanto pela sua linguagem reformista quanto pelo apelo junto às novas gerações.
Num documento amplamente difundido nas redes sociais, os subscritores do movimento acusam a atual liderança da UNITA de trair o legado do Dr. Jonas Savimbi.
Alegam que os dirigentes se dividem entre os que, por cobardia, se mantêm cúmplices do desvio de princípios, e os que, embora silenciosos, incentivam as novas gerações a resgatar o partido das mãos de uma elite “oportunista”, liderada por ACJ e, segundo eles, sustentada por interesses externos.
O texto vai mais longe, ao identificar como cúmplices ativos na “subversão dos princípios fundadores da UNITA” nomes como Mvulashe Mulato, Joaquim Gato, General Numa e outros. Também acusa jovens outrora promissores — como Rafael Massanga, Álvaro Chikuamanga, Navita Ngolo, Nelito Ekuikui — de terem sucumbido à mediocridade, por falta de coragem e maturidade política.
Diante desse quadro considerado “degradante”, os proponentes do manifesto defendem três caminhos:
1 – Cumprimento rigoroso dos Estatutos da UNITA, sobretudo no que toca à preparação e condução do XIV Congresso;
2 – Garantia de um congresso verdadeiramente democrático, com múltiplas candidaturas, à semelhança dos Congressos IX, X, XI e XII;
3 – Trabalho político para o regresso de Samakuva, não por nostalgia, mas por “imperiosa necessidade da UNITA e da nação angolana”.
Os defensores dessa via veem em Samakuva o único capaz de restituir estabilidade, dignidade e a essência política da organização.
Importa recordar que Samakuva liderou a UNITA durante 16 anos, tendo concorrido nos pleitos de 2008, 2012 e 2017. Mesmo reconhecendo nele um perfil conciliador, não me parece recomendável que regresse à liderança do partido.
Não apenas pelo desgaste natural de uma longa carreira política, mas também porque a conjuntura actual exige novos quadros e novas estratégias.
E sejamos francos: tampouco me parece que haja paciência institucional — e muito menos popular — para continuar a gerir as velhas intrigas que dividem o partido.
Tentei, por intermédio do diligente Emanuel Bianco, conseguir alguns minutos com o Velho Samas, pois interessava-me perceber o seu pensamento atual. Infelizmente, não obtive sucesso.
Enquanto isso, as makas da UNITA continuam. A disputa entre a memória do passado e a necessidade de projectar o futuro permanece aberta.
Resta saber se o partido conseguirá reinventar-se sem se fragmentar — ou se a sombra de Savimbi continuará a dividir os que se dizem seus herdeiros.
*Jornalista