As redes sociais como instrumento de agressão e de violação de direitos – Simão Vembo
As redes sociais como instrumento de agressão e de violação de direitos - Simão Vembo
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Diariamente, chuvas de vídeos e demais publicações inundam as redes sociais revestidos de completos vazios axiológicos, do mínimo ético e de humanismo. Movidos pela apetência infinita por gostos, comentários, partilhas e visualizações, os usuários das redes sociais, imbuídos de uma ferocidade sem precedentes, não medem esforços para expor tudo, até o que não deviam, nem que isto passe por humilhar os outros.

A apetência é tanta em ser o primeiro a filmar, comentar e postar que não são poupadas as vítimas de situações desastrosas, sofrendo na agonia e sangrando até à morte sem uma pontual prestação de ajuda. E todos presos nos telefones a assistirem a desgraça alheia.

A situação é tão grave que até professores, académicos, figuras públicas e sociedade em geral caíram na febre dos memes e da memetização de tudo, cujo único mote é quanto mais estúpido melhor.

Não importa a ética, a moral pública, a privacidade alheia, os direitos de personalidade, a presunção de inocência, o bom nome e outros direitos constitucionalmente consagrados. Não, não há limites, quanto mais lerdaço melhor!

Neste exercício, ninguém é poupado, nem crianças, nem jovens, nem adultos, nem idosos. Ninguém! Zomba-se de tudo e de todos: da pobreza dos pobres, da aparência física, do credo religioso, da origem étnica, de tudo.

Tudo é meme, tudo é normal, mesmo quando são violados direitos; mesmo quando se atinge a dignidade das pessoas. E a mídia, onde os reais problemas do país e tudo aquilo que nos edifica não tem tempo de antena, apoia e a mídia mediatiza esta boçalidade.

Num mundo em fragmentação, onde reina o fundamentalismo, o etnocentrismo, o nacionalismo exacerbado, com essa estupidificação da sociedade, não se tem noção da dimensão do perigo de uma brincadeira de muito mau gosto que, aos poucos, ganha espaço nas redes sociais, opondo o povo bakongo ao do sul.

Semeia-se a discórdia, a divisão social com resultados catastróficos para a consolidação da unidade nacional e da angolanidade.

É isto que acontece quando a uma criança primeiro se dá telefones antes de livros. “Ninguém devia chegar à internet sem passar pelos livros”.

Estando a racionalidade completamente hibernada, todos se esqueceram de que, nesta roda da vida, se hoje somos nós a filmar, amanhã podemos ser os filmados.

A maior câmara de vigilância do ser humano é a sua própria consciência. Se vires o outro em aflição e a tua consciência mantiver-se tranquila sem que te cobre a prestar-lhe ajuda, perdeste a tua humanidade e não serves para o convívio social.

Se o meu próximo estiver com um calçado comum/simples e eu, zombando, classificá-lo como bolo/pão, estou a demonstrar o quanto sou podre por dentro, pobre em valores e em humanidade.

O problema não está nos calçados do meu próximo, mas na minha incapacidade de ver cada pessoa com os seus olhos e não com os meus, ou seja, aceitar cada pessoa do jeito que ela é – com as suas particularidades, limitações, potencialidades, virtudes e defeitos – e não como eu gostaria que fosse.

O convívio social exige solidariedade, luta pelo bem da colectividade e não apenas individual, daí que a exposição da desgraça do outro é um sinal claro de que precisamos amadurecer socialmente.

Não foi o medo do isolamento e a necessidade de cooperação para a satisfação de necessidades colectivas que, segundo os contratualistas, fizeram com que o homem se aliasse aos outros para a formação da sociedade e do Estado?

Como é que, depois deste ganho colectivo, o homem persegue e destrói o próprio homem, ao invés de se unirem para resolverem problemas comuns?

Precisamos construir a noção do outro assente na ideia de Emmanuel Lévinas de que “o outro é aquele sem o qual o eu não existe”.

No âmbito da filosofia do outro, in rectius, “sociologia do outro”, o interacionismo simbólico constrói a ideia de que cada um de nós só existe porque “o outro” existe.

Cada um de nós só é e só se realiza como pessoa humana por intermédio dos outros. Até porque, para existirmos, “muitos outros” têm/tiveram de existir. O outro é, para nós, um espelho e a fonte de influências múltiplas que alimentam o nosso ser.

Para a Psicanálise, o fenómeno da projecção, que ocorre a nível do inconsciente, o indivíduo vê no outro algo que consigo acontece, ou seja, a “projecção actua como um mecanismo de defesa, no qual tudo aquilo que não aceitamos em nós mesmos, como sentimentos, crenças e pensamentos resvalamos para outrem.”

Com base nisto, está claro que o defeito que apontamos nos outros está em nós mesmos. A filosofia africana Ubuntu traz a ideia de que “eu sou porque o outro existe e a minha existência só terá sentido se proteger o outro.”

Com base nesta filosofia, como vai a nossa africanidade? Se há milhares de anos evoluímos do macaco, com esta ferocidade e apetência em destruir os outros num claro “homo homni lopus,” ainda somos pessoas humanas ou já evoluímos para outra espécie?

*Professor e revisor

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