As vozes que jurámos libertar – Rossana Miranda
As vozes que jurámos libertar - Rossana Miranda
Rosana Miranda

Há uma fúria no ar… há um sentimento de desprezo puro, pela raça humana revestido na insensibilidade deste tempo que vivemos. Em miúda quando cantava o hino à entrada da escola, parecia que éramos parte de um mundo que, em meio a uma revolução geopolítica, se preocupava com os povos e os seus intentos.

Era aqui onde a minha e outras vozes se ouviam mais alto: Levantemos nossas vozes libertadas | Para a glória dos Povos Africanos | Marchemos Combatentes angolanos | Solidários com os Povos oprimidos | Orgulhosos lutaremos pela paz | Com as forças progressistas do mundo.

Na minha visão infantil, algum dia as palavras encontrariam o seu porto e o perfil idealizado pelo poeta. Jamais me ocorreria que o egoísmo pudesse resultar na fome, na pobreza, no ódio, no racismo e em outros tantos fenómenos e fobias a que os tecnocratas viram a cara para edificar a incúria, o descaso e a firmeza de um posicionamento que obrigue a submissão e a anulação de qualquer acto de sobrevivência, respeito ou resistência.

A minha filha lê em voz alta um trabalho da escola sobre Israel, a propósito dos últimos acontecimentos, diz-me ela com um desinteresse próprio da geração Tiktoker, mas com um tom para que eu entenda: Os Judeus são um povo com génese bíblica, perseguido ao longo da história.

Espalhados pela europa e com poder financeiro, se unem e lançam o seu clamor através do movimento sionista, surgido no final do Séc. XIX, que defendia a formação de um Estado Nacional próprio para os judeus na Palestina, por ser lá a sua origem.

Um conjunto de interesses levam o mundo e em particular os ingleses a saírem do território para a criação de um estado judeu e de um estado palestino. O judeu criado sob o nome de Israel emerge a 14 de Maio de 1948, o outro nunca se consolidou.

Vejo-me tentada a dar-lhe a minha perspectiva e a dizer-lhe que o tal outro é uma região pequena com um grande número de habitantes, um grande número de refugiados e mais de 70% da população a viver abaixo da linha da pobreza.

O outro já la estava, quando os judeus se foram acostando e após a formação do Estado de Israel, que surgiu em decorrência de décadas de lobby e de campanhas migratórias promovidas pelos defensores do sionismo, ondas de violência irromperam entre palestinianos e israelitas, dando início a inúmeros conflitos entre os dois povos.

O mundo assiste desde então, um regime de apartheid e ao tratamento dos palestinianos como cidadãos de segunda categoria, pois não possuem um Estado nacional nem um território estabelecido.

Ela arregala os olhos e eu continuo contando-lhe que cresci a ver o Yasser Arafat, então líder da Organização da Libertação da Palestina (OLP), como um amigo de Angola. Sabia que havia afinidades entre a OLP e o MPLA desde o início das revoluções africanas.

A luta era sobre os mesmos valores e pelas mesmas causas: a liberdade, a justiça, a dignidade e a soberania das nações.
Pelas circunstâncias óbvias, Arafat revia-se na luta do nosso continente. Em Julho de 1975, declarou numa importante reunião da então Organização de Unidade Africana, OUA, em Kampala: “A África é um símbolo de futuro e permanece ao nosso lado”.

Para a OUA, o denominador comum era a opressão e o imperialismo. De um modo geral, ao longo dos anos, a União Africana não fracassou com o povo palestiniano e manteve-se como um dos mais importantes e mais leais aliados da causa Palestina, apesar de alguns interesses e agendas próprias que levaram alguns lideres a condenarem os ataques terroristas do Hamas, enquanto outros, reiteraram os apelos a uma solução baseada no diálogo.

Ela mostra-se um tanto emocionada e pergunta se é possível salvar pelo menos as crianças que estão no conflito. Respondo-lhe que tudo isso faz parte de uma estratégia concertada, que já foi inclusive condenada pelas Nações Unidas e que levou Israel a pedir a demissão de António Guterres. É uma birra encenada com o beneplácito dos americanos, os tais que encantam meio mundo e amordaçam a boca de quem não lhes faça vénia. Sendo que nós por cá, apenas assistimos e ouvimos de longe as vozes que um dia jurámos fazer ouvir e ajudar a libertar!

in Novo Jornal

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