“Até o Mantorras se zangou comigo”, Mendonça recorda o seu tempo de gloria em Portugal
"Até o Mantorras se zangou comigo", Mendonça recorda o seu tempo de gloria em Portugal
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As camisolas listadas a preto e branco metem respeito. Se o jogo é ali ao lado do Atlântico, a cheirar a maresia, então nem se fala. O Varzim Sport Club é de primeira, mas anda há demasiado tempo perdido nas páginas secundárias. Valha-nos a Taça de Portugal para falar dos feitos dos Lobos do Mar.

Terça-feira volta a haver jogo grande na Póvoa. Oitavos de final, e logo contra o Benfica. Benfica, outra vez? Pois é, o jogo de 2007 é o último no registo histórico de confrontos e ainda está bem presente. Herói da batalha? António Manuel Viana Mendonça, um angolano de sorriso fácil e palavras adocicadas.

O mais difícil é localizá-lo. Onde anda Mendonça? Mensagem para a frente, mensagem para trás, um treinador português facilita o contacto – João Reis, ex-colega no 1º de Agosto – e a voz de Mendonça responde prontamente. «Falar para Portugal sobre o meu Varzim? Claro!»

Claro, Mendonça.

16 anos depois da noite de todas as glórias, com o Benfica a cair na Póvoa e Mendonça a vestir de alvinegro para ser o carrasco das águias, aí está a entrevista ao zerozero.

Um Varzim-Benfica contado por quem sabe ganhá-lo.

Já não temos notícias suas há muitos anos. Está a viver em Angola?
São muitas saudades, é verdade. Tenho de voltar à Póvoa este ano. Eu estou a trabalhar na formação do 1º de Agosto, sou um dos treinadores das camadas jovens já há alguns anos. Gosto de estar cá, mas claro que tenho sempre o meu Varzim no coração.

Há muitos ‘Mendonças’ a aparecer aí no 1º de Agosto?
Isso é mais difícil (risos). Há meninos com talento, isso há sempre, mas o clube está a atravessar uma fase menos boa. Por isso está a ser mais complicado o meu trabalho. A pandemia não ajudou, a crise financeira é comum a todos os clubes angolanos nesta fase.

Vive em Luanda?
Estou a viver em Viana, uma cidade da província de Luanda. Já não vou há alguns anos a Portugal e esse é um dos meus desejos para 2023: voltar a pisar o relvado do Varzim.

Há pelo menos mais dois angolanos famosos na história do Varzim.
O Vata e o Lufemba, claro. Curiosamente, falo regularmente com a filha do Lufemba, é amiga da minha família. Não sei onde vive agora o pai e do Vata já não ouço falar há alguns anos. Mas são nomes importantes no Varzim e falávamos muito deles quando eu jogava lá.

Sabe que vai haver um jogo muito importante nesse relvado na terça-feira?
Sim, estou a par, estou a par (risos). É contra o Benfica, outra vez para a taça e outra vez para ganhar. Não vou estar no estádio, mas tenho a RTP Internacional em casa e vou ver o jogo com emoção. Começo a falar do Varzim-Benfica e vem-me muita coisa à cabeça. Acompanho sempre o Varzim e há uns anos [2018] até me fizeram uma homenagem aqui em Angola, fui visitado pelo presidente do clube. Tenho grande afeto pela cidade, pelo clube, pelas pessoas. Ainda hoje recebo mensagens dos adeptos varzinistas, acho que gostavam muito de mim.

10 de fevereiro de 2007, chuva e frio na noite da Póvoa.
O habitual, na altura estava habituado a isso e não custava nada. Tivemos grandes equipas, mantenho amizade com alguns dos meus colegas, nomes que fazem parte da minha vida. O Nuno Gomes, o Alexandre, o Marco Freitas, o Rui Barbosa, continuo a falar com esses todos. Foi um jogo especial da minha carreira. Estávamos a estrear o nosso treinador, o Diamantino Miranda, e isso foi decisivo. Ele conhecia bem o Benfica, mexeu connosco, mostrou-nos que era possível ganhar e o resto feito por aquelas bancadas maravilhosas, cheias de varzinistas. Fico muito feliz por falar sobre esse jogo convosco, estou a falar e a ficar comovido.

Lembra-se bem do seu golo decisivo?
Lembro-me de tudo nesse jogo. Logo no início fiz o cruzamento para o autogolo do meu amigo Nelson (risos). Poucos falam disso. E depois tive a sorte de fazer o meu golo, de cabeça. Cruzamento do Nuno Rocha, na esquerda, e peguei bem na bola. Fiz um arco bonito e o Quim não teve hipóteses, ficou a olhar.

O Mendonça estava em grande nessa fase. Tinha jogado o Mundial em 2006, ficou no Varzim e só saiu para o Belenenses em 2007. Nunca teve um convite de um dos ‘grandes’?
Não, não. O futebol é assim. Eu sentia-me bem, forte, desequilibrava. Fui sempre para onde me quiseram e, mais importante, deixei um legado importante na Póvoa. Ajudei o Varzim a crescer, a ter grandes vitórias, tenho dezenas de amigos, até centenas. Não dei o salto que queria, mas fui feliz.

Por falar em amigos, esse Benfica tinha um grande amigo seu, o Pedro Mantorras.
O Mantorras, pá (risos). Até o meu grande amigo Mantorras se zangou comigo nessa noite. É normal, porque perdeu e ninguém gosta de sair da taça. Ainda falámos depois do jogo, nos balneários, e ele aí já estava mais calmo. Uns anos antes ele já tinha vivido uma noite difícil na Póvoa, por culpa da marcação durinha do Alexandre. Não sei se se lembra do ‘deixem jogar o Mantorras’.

Claro, a frase ficou famosa.
Pois, isso foi uns anos antes. Em 2007 foi mais ‘deixem jogar o Mendonça’ (risos). Gosto muito do Pedro e tive o cuidado de ir ver como ele estava, porque a verdade é que o Benfica perdeu de forma surpreendente.

Como é que descreve o Varzim, um clube histórico?
Um clube feito de gente humilde, gente do mar, com adeptos que passam a semana à espera do domingo para ir ver o seu Varzim. Ver aquelas bancadas cheias dava-me sempre um prazer do caraças.

O Varzim já eliminou o Sporting, em Barcelos, e agora encontra o Benfica. Que mensagem quer mandar à malta da Póvoa?
Antes de mais quero desejar que o Varzim entre em 2023 a eliminar o Benfica. Sinto que a equipa vai estar preparada, vai fazer tudo para ter uma noite histórica. Se eliminou o Sporting, pode eliminar o Benfica. O Mendonça vai estar a mandar boa energia, à distância, a partir de Luanda. Um abraço enorme para todos os varzinistas.

«No Mundial2006, o Roger Milla entrou no balneário e deu-nos os parabéns»

Jogou duas vezes o CAN, esteve num Mundial de sub20 e no Campeonato do Mundo da Alemanha. Ainda por cima, a estreia foi contra Portugal.

Tive muita sorte na minha carreira. O meu percurso foi bonito, conseguimos levar Angola a um Mundial pela primeira vez e acima disso não há nada. Foi um mês muito lindo. Portugal vs Angola foi um jogo entre países irmãos, havia muitos angolanos a jogar em Portugal e por isso criámos dificuldades à equipa portuguesa. Conhecíamos bem toda a gente, estivemos concentrados e foi pena o golo do Pauleta tão cedo. Mas Portugal ganhou bem, não há nenhuma dúvida sobre isso. Dessa vez não houve problemas nenhuns [ao contrário do ‘amigável’ em Alvalade, em 2001, marcado pela violência].

Zé Kalanga, Mateus, Figueiredo, Mantorras, Akwá, essa selecção tinha jogadores de muita qualidade.

Essa geração era óptima, se calhar a melhor de sempre de Angola. A maioria dos jogadores estava na Europa e isso fez toda a diferença. Aliás, depois empatámos contra o México e contra o Irão. O golo do Irão, já perto do fim, foi uma facada grande. Tivemos uma boa participação, jogámos futebol e até recebemos uma visita de um cavalheiro importante no nosso balneário.

Quem foi esse cavalheiro?
O senhor Roger Milla. Bateu à porta, entrou no balneário e deu-nos os parabéns pela imagem que tínhamos deixado em campo. Eh pá, um dos melhores africanos de sempre a dizer-nos isso, olhos nos olhos, foi muito gratificante. Gosto de contar esta história, porque o senhor Milla foi um craque. Foi bonito.

A selecção de Angola não está tão forte.
São fases diferentes, a federação está mais debilitada, mas acho que estamos a iniciar um ciclo bom. O Pedro Gonçalves é um treinador bom, trabalhei no 1º Agosto com ele e sei que vai fazer uma selecção boa. Tem de haver apoio ao trabalho do selecionador, ele conhece muito bem o futebol angolano, acompanha os atletas desde a formação e há que ter paciência. Vão jogar o CHAN, na Argélia, e estou curioso para ver o que pode fazer a equipa.

in zerozero

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