Atletismo: A joia que Angola deixou escapar – Severino Carlos
Atletismo: A joia que Angola deixou escapar - Severino Carlos
severino carlos

Está comprovado que o atletismo é a mais espectacular modalidade dos Jogos Olímpicos. Sobretudo as provas de velocidade, embora a competição termine com a extenuante maratona.

Tenho a impressão que se Angola tivesse prosseguido com a dinâmica que o atletismo conheceu durante os anos que se seguiram à independência em 1975, hoje talvez tivéssemos alguns atletas angolanos desta disciplina bem posicionados nos rankings internacionais ou, digamos, em condições de fazer algumas “gracinhas” em grandes provas continentais e mundiais.

Até 1985 o atletismo em Angola mobilizava um grande número de jovens. Era assim pelo menos em Luanda, em que a modalidade conhecia assinalável expressão nas escolas, numa época em que havia efectivamente desporto escolar no país.

À educação física como disciplina escolar também se atribuía o devido valor no currículo escolar. Todos os grandes clubes tradicionais da capital, aqueles que tinham transitado da era colonial, também tinham o atletismo como um departamento em evidência e não apenas o futebol ou o basquetebol.

Os jovens daquele tempo levavam a sério a prática desportiva, ao passo que hoje os vemos principalmente atraídos para a prática do kuduro, inclusive nas próprias escolas, onde os vemos a “matarem aulas” com esta dança.

A meio das tardes daquele tempo víamos muitos jovens de sacolas às costas descendo o Miramar e o Eixo Viário, para aqueles que treinavam no Ferroviário e no Benfica; e outros a dirigirem-se ao Estádio dos Coqueiros, para aqueles que tinham o Sporting como clube.

Esta dinâmica e paixão pelo atletismo se manteve em níveis elevados quando foram surgindo novos grandes clubes, casos principalmente do Primeiro de Agosto, Petro (com a fusão do Benfica e do Atlético) e Interclube.

O atletismo em Luanda nesse tempo tinha a particularidade de ser praticado em quase todas as grandes categorias e não apenas nas corridas, mas também nos lançamentos e saltos.

O clube do Rio Seco apresentava-se bem munido, com muitos jovens do atletismo a movimentarem a agremiação. E havia ali muita seriedade, disciplina, organização e método.

Anualmente, aliás, o clube tutelado pelo Comité Desportivo Nacional Militar (CODENM) enviava grandes embaixadas de atletas para estagiar e competir nas provas e campeonatos adstritos ao SKDA, que congregava os chamados Exércitos Amigos, na órbita dos países do Pacto de Varsóvia.

O Primeiro de Agosto e um pouco o Interclube tiraram grande experiência destas estruturas desportivas globais, não apenas em termos competitivos, mas também ao nível da gestão desportiva e metodologia do treinamento.

Portanto, reitero que se toda essa dinâmica se tivesse mantido com o correr dos anos é bem possível que Angola hoje tivesse no atletismo o nível que têm países como a Nigéria e o Quénia.

Por que não se o nosso vizinho, a Namíbia, teve na década de 80 um atleta do nível de Franky Fredericks, que estava bem posicionado entre os velocistas de classe mundial?

Tratava-se simplesmente de manter um trabalho que vinha da era colonial e fez com que Angola tivesse velocistas de razoável qualidade como Alfredo Melão (nos 100 e 200 metros rasos) e Mota Gomes (nos 400 e 800 metros). Melão também fazia o triplo salto.

Era uma época em que dava gozo ir ver estes atletas fazerem o que lhes era possível num terreno com as limitações de uma pista de cinza como era a do Estádio dos Coqueiros naquele tempo.

Seguíamos o atletismo com o mesmo entusiasmo com que acompanhávamos o futebol, que estou lembrado que o Estádio da Cidadela quase explodiu no dia em que Orlando Bonifácio “Gira” pôs o seu corpo a ultrapassar a fasquia dos 2.05 metros, fixando assim nessa marca o recorde nacional do salto em altura. Enfim, nós os conhecíamos.

No salto em comprimento tínhamos o António Dias dos Santos; o António Reais “Caveira” lançava muito bem o martelo e creio que o Bernardo João (actual dirigente federativo) também tinha um razoável desempenho a lançar, mas era o dardo. Também no dardo havia duas irmãs muito boas, das quais já não recordo os nomes.

Nas corridas de fundo, muito antes de chegar a era de João Ntyamba, já por cá andava o professor Bernardo Manuel (fez furores em Portugal) e o António Andrade.

Eram tempos de grande entusiasmo e voluntarismo no desporto angolano em geral e no atletismo em particular. Imagine-se onde estaríamos se esse ritmo frenético tivesse prosseguido até aos dias de hoje…

*Jornalista

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