
Os resultados parcelares da autópsia realizada ao antigo vice-Presidente da República e ex-presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Dias dos Santos, indicam a presença de hidrocefalia, uma condição caracterizada pela acumulação excessiva de líquido cefalorraquidiano (LCR) no cérebro, que pode provocar aumento da pressão intracraniana. Os exames estão a ser conduzidos na Clínica Girassol, em Luanda.
De acordo com informações médicas preliminares, a hidrocefalia poderá ter sido agravada pelo tempo prolongado que o antigo dirigente passou na sauna da sua residência, situação que terá provocado tonturas e desidratação, num ambiente de elevada temperatura.
Na tarde desta sexta-feira, 19, foram solicitados exames complementares, incluindo análises laboratoriais, com o objectivo de apurar com maior rigor as causas exactas da morte.
Segundo informações recolhidas junto de fontes próximas do processo, Fernando da Piedade Dias dos Santos aparentava estar bem no início do dia.
Pela manhã, tomou banho e manteve uma conversa telefónica, por volta das 10h00, com a sua prima Mita Dias dos Santos, irmã da Primeira-Dama da República. Cerca das 11h00, dirigiu-se à sauna da residência, enquanto a esposa se encontrava na cozinha.
Perante a demora, um dos seguranças deslocou-se ao local e encontrou o antigo governante sentado, visivelmente debilitado. De acordo com uma reconstituição preliminar, terá tentado levantar-se ao sentir-se mal.
A ambulância foi de imediato acionada, mas, apesar das manobras de assistência realizadas, o óbito foi declarado por volta das 12h47, já na Clínica Girassol.
Até ao momento, a família ainda não se pronunciou publicamente sobre o passamento, mas fontes próximas indicam existir algum desconforto quanto à criação de uma comissão de exéquias por iniciativa das autoridades, sem prévio entendimento com os familiares.
Fernando da Piedade Dias dos Santos, que completou 75 anos em Março, esteve nos últimos meses no centro de intensas movimentações políticas.
Diversas figuras históricas do MPLA, incluindo generais na reforma, pressionavam-no a apresentar-se como candidato ao congresso do partido previsto para 2026, com o objectivo de promover a unidade interna e a reconciliação no seio da formação política no poder.
Segundo informações apuradas, há poucas semanas, por intermédio de um emissário, Nandó manifestou ao presidente do MPLA, João Lourenço, o desejo de manter um encontro reservado.
A resposta terá sido negativa, numa altura em que o Chefe de Estado demonstrava indisposição para abordar temas relacionados com a sucessão presidencial.
Na sequência desse posicionamento, Fernando da Piedade Dias dos Santos passou a reduzir a sua presença em actividades partidárias.
Apesar de ter participado na inauguração da nova sede do MPLA, a 10 de Dezembro, esteve ausente do acto político de massas que assinalou o 69.º aniversário do partido, na centralidade do Kilamba.
Durante esse evento, João Lourenço abordou de forma indirecta a questão das candidaturas internas, com declarações interpretadas por observadores políticos como recados dirigidos a eventuais pretendentes à liderança.
Referiu, entre outros aspectos, que só passaria o testemunho no momento adequado e que o sucessor não poderia estar “mais cansado” do que ele próprio.
Fontes próximas de Nandó revelam que, irritado com essas referências, o antigo dirigente reuniu-se a 16 de Dezembro com a sua equipa de assessoria, tendo sido encorajado a anunciar publicamente a sua intenção de candidatura ainda este ano, limitando-se a uma manifestação de interesse, sem apresentação de manifesto político. A data apontada para esse anúncio era segunda-feira, 22 de Dezembro.
Os preparativos decorriam de forma reservada, sem conhecimento da família, e incluíam contactos preliminares com órgãos de comunicação social. O falecimento inesperado interrompeu esse processo.
Entretanto, foi decretado luto nacional para segunda-feira, 22 de Dezembro de 2025, coincidindo com a data em que Fernando da Piedade Dias dos Santos deveria tornar pública a sua intenção política.
O Presidente da República constituiu uma comissão de exéquias para organizar as cerimónias fúnebres, cujo programa oficial ainda não foi divulgado.
A morte de Nandó encerra um ciclo de quase cinco décadas de protagonismo político, num momento particularmente sensível da vida interna do MPLA e do debate sobre a sucessão presidencial em Angola.
com/Club-K