Autoridades angolanas detêm sete pessoas por planearem atentados terroristas durante visita do ex-Presidente norte-americano a Luanda
Autoridades angolanas detêm sete pessoas por planearem atentados terroristas durante visita do ex-Presidente norte-americano a Luanda
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As autoridades angolanas detiveram sete cidadãos nacionais acusados de planear atentados contra alvos estratégicos durante a visita do ex-Presidente dos Estados Unidos de América a Angola, em Outubro de 2024, com apenas 10 granadas.

O plano só foi abortado devido o adiamento da visita de Joe Biden – que viria acontecer na primeira semana de Dezembro do mesmo ano – devido os impactos dos furacões “Milton” e “Helene” que afectaram várias regiões norte-americanas naquele mês.

Os arguidos são: João Gabriel Deussino “Joel”, de 34 anos, Domingos Gabriel Muecália “Mano Mingo”, de 46 anos, Crescenciano Capamba “Kelson”, de 42 anos, Arão Rufino Eduardo Kalala “Amistoso”, de 39 anos, Pedro João da Cunha, de 43 anos, Adelino Camulombo Bacia, de 38 anos, que curiosamente é efectivo da Polícia Nacional, e Francisco António Ngunga Nguli “Man Fran”, de 31 anos.

Segundo o magistrado Lázaro Kahango Paquissi Domingos, que instruiu o processo n.º 82231/024, os suspeitos foram detidos em Novembro nas províncias de Cunene, Luanda e Huambo.

O Ministério Público acusa os arguidos, actualmente, em prisão preventiva, de crimes de organização terrorista, concorrido com associação criminosa, fabrico, tráfego, detenção e alteração de armas e munições proibidas, fabrico, aquisição ou posse de substâncias explosivas, tóxicas e asfixiantes.

João Gabriel Deussino “Joel” é apontado como líder do grupo e promotor do projecto político Frente Unida para Regeneração da Ordem Africana (FUROA).

No entanto, a acusação indica que Joel liderou um plano de sabotagem para destruir alvos estratégicos, nomeadamente: a Refinaria de Petróleo de Luanda, Zona Económica Especial, edifício da Comissão Nacional Eleitoral, denominado Margareth Anstee, Embaixada dos Estados Unidos da América em Angola, Imprensa Nacional, Palácio Presidencial, todos localizados em Luanda, e ainda, o Centro de Distribuição de Energia Eléctrica do Belém, instalações de Armazenamento de Combustíveis da Sonangol, edifício sede do Serviço de Investigação Criminal, estes últimos localizados na província do Huambo.

De acordo com os dados, Joel obteve engenhos explosivos (granadas) com a ajuda de Crescenciano Capamba “Kelson” e Arão Rufino Eduardo Kalala “Amistoso”, ambos funcionários do Centro Nacional de Desminagem do Huambo.

Arão Kalala terá retirado 14 engenhos explosivos do centro, entregando-os a Kelson, que os vendeu a Joel por 30 mil kwanzas cada, totalizando 420 mil kwanzas.

O grupo reuniu-se várias vezes no Huambo para planificar as acções. Entre os locais de encontro estavam o Restaurante do Residencial Martins, no bairro São João, e na Residencial Jorge Alberto. Também houve um encontro no Instituto de Investigação Agronómica da Chianga, onde participaram Joel, Mano Mingo e outros membros do grupo.

Em Outubro de 2024, o grupo transportou 10 dos 14 engenhos explosivos para Luanda numa viatura alugada. Outros membros viajaram de autocarro. Em Luanda, hospedaram-se no Complexo Residencial da TAAG, perto do Aeroporto 4 de Fevereiro, e realizaram reconhecimento de alvos como o Palácio Presidencial, a Refinaria de Petróleo e a Casa Militar.

No entanto, o plano foi abortado devido ao forte esquema de segurança, à falta de recursos e ao adiamento da visita do ex-Presidente norte-americano. O grupo regressou ao Huambo, onde parte dos explosivos foi armazenada.

Mano Mingo foi detido no Huambo em Novembro, enquanto transportava seis engenhos explosivos. Outros quatro explosivos foram encontrados enterrados no quintal de Kelson. Joel tentou fugir para a Namíbia com a família, utilizando documentos falsificados emitidos por Pedro João da Cunha, mas foi detido na fronteira da Santa Clara, no Cunene.

Durante as operações, foram apreendidos seis granadas, telemóveis, documentos falsos, um documento em nome de “Doutor Gabriel Sissimo”, talões de transferência bancária e equipamentos ligados ao plano.

Os arguidos estão agora em prisão preventiva, com o Ministério Público destacando a gravidade dos crimes e o impacto que os ataques teriam causado na segurança nacional.

A acusação enfatiza que os arguidos agiram de forma coordenada e metódica, com cada membro desempenhando papéis específicos no plano.

Contactos com a UNITA

Durante a preparação dos actos terroristas pelos quais é acusado, João Gabriel Deussino “Joel” terá mantido contactos com dirigentes do maior partido da oposição, nomeadamente o falecido Vitorino Nhany (falecido em Fevereiro de 2021) e o presidente do Grupo Parlamentar da UNITA, Liberty Chiyaka.

De acordo com informações dos autos, Joel, acompanhado da sua esposa, Berta Cassambe Miapia Deussino, também constituída no processo como declarante, deslocou-se ao Grupo Parlamentar da UNITA, localizado na Maianga, em Luanda.

No local, Joel terá solicitado ajuda a Liberty Chiyaka para intervir na detenção dos seus irmãos. Chiyaka, segundo o relato, declarou-se indisponível por estar ocupado com assuntos internos do partido, mas terá fornecido o contacto de uma pessoa não identificada que poderia ajudar a família a sair de Luanda em direcção ao Lubango, província da Huíla.

Na mesma noite, Joel e a sua esposa hospedaram-se no município de Viana, no Complexo Sovismo, propriedade da UNITA. No dia seguinte, permaneceram em Luanda, alojando-se numa hospedaria no bairro Benfica.

Posteriormente, com o auxílio de João Calembe “Gaivota”, Joel terá contactado Raul Jorge de Almeida, despachante e colaborador da agência de viagens GBJ-TRAVEL, que opera no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro. Raul de Almeida teria ajudado a família a viajar de Luanda para o Lubango em um voo militar.

Ao chegarem à cidade do Lubango, Joel e os seus familiares alojaram-se temporariamente no Comité Provincial da UNITA. Horas depois, dirigiram-se a uma paragem de autocarros, onde seguiram viagem para a província do Cunene. Foi neste ponto que acabaram por ser detidos pelas autoridades.

As circunstâncias e os contactos mantidos por Joel durante as suas movimentações são elementos considerados sensíveis no processo, com as investigações em curso para esclarecer as possíveis implicações dos envolvidos.

Caso já no tribunal

Recentemente, a Procuradoria-Geral da República (PGR) na província do Huambo anunciou que o “caso organização terrorista”, que envolve sete cidadãos nacionais, já se encontra no Tribunal da Comarca do Huambo.

No documento enviado à imprensa, em posse do Imparcial Press, a PGR diz ter encerrado a instrução preparatória, deduzindo a acusação e o requerimento do julgamento, com a intervenção do Tribunal Colectivo, contra os co-arguidos.

Considera que os crimes imputados aos arguidos se revestem de “especial sensibilidade e complexidade”, em função da qualidade de alguns deles (funcionários públicos) da própria recuperação pública do facto, assim como do elevado valor e importância dos alvos identificados e pela forma organizada em que preparavam as acções que se propunham a realizar.

Entretanto, os mandatários judiciais dos arguidos acusados de organização terrorista defenderam, em conferência de imprensa, a necessidade da divulgação do julgamento, previsto para breve, nos órgãos de comunicação social.

O facto foi manifestado pelo advogado António de Oliveira Nasso, um dos mandatários judiciais dos arguidos, que considera importante a transmissão das audiências para que a população tenha domínio real dos factos.

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