
O cemitério municipal do Cuito, na província do Bié, transformou-se, nos últimos tempos, no esconderijo de marginais que fazem e desfazem, ao seu bel-prazer. Além da vandalização e profanação das campas, o santo campo da “elite biena” tornou-se, de igual modo, um verdadeiro parque infantil (de dia) e, de noite, uma pensão/hotel para os casais, que praticam o sexo sem medo por de cima das campas.
Alguns cidadãos contam que tudo isso acontece por o lugar santo estar aberto, sem muro de vedação na parte traseira, e sem guarnição.
Ainda assim, apesar de quase não haver mais espaços para novas sepulturas, este cemitério é o melhor que há na cidade, por acolher até aos dias actuais funerais da classe social média/alta desta província.
Primeiro sepulcrário desta cidade, construído na era colonial, aquando da fundação da cidade, em 1935, o mesmo localiza-se no centro da cidade do Cuito.
Este campo santo é histórico. Nele estão, por exemplo, os túmulos de grandes figuras que tanto contribuíram para o desenvolvimento da província e não só, como o jornalista Abel Abraão, que tanto se destacou na etapa do conflito armado.
Ali estão também enterrados o então Bispo da Diocese do Cuito-Bié, Dom José Nambi, os irmãos Maristas, Tomás Sawalia e Belmiro Smith, só para citar estes, cujas campas encontram-se destruídas.
Alberto Sulissa Paulo, de 48 anos, coveiro do cemitério do Cuito há 13 anos, disse ter como maior preocupação a falta de segurança no recinto e de vedação.
Contou que o muro caiu há mais de sete anos e como consequência as pessoas fizeram do cemitério o caminho mais curto para ligar com os bairros Cantiflas e Helena de Almeida.
Fruto desta abertura, realçou, o movimento é constante, tanto de dia tanto de noite, e os marginais aproveitam-se para vandalizar as campas, retirando, sobretudo, o mármore.
Cidadãos desrespeitam e fazem do local ponto de reencontro
Marquiel David, proprietário de uma barbearia localizada bem em frente ao cemitério, disse que ali não há domingos nem feriados. O local tem sido muito frequentado até para ponto de encontro de casais.
O empreendedor lamentou o facto de muitos jovens não respeitarem aquele espaço e chegam mesmo a ter relações sexuais no recinto. “O que tem se passado aqui é assustador. São coisas que outrora não se via”, lamentou o jovem, que solicitou uma rápida intervenção da administração municipal, quanto à requalificação do espaço.
Já Marisa Pinto, outra jovem abordada enquanto andava no meio do cemitério, justificou ser o caminho mais curto para chegar à escola.
Apesar de algum sentimento de medo, disse fazer esse itinerário todos os dias, quer de ida quer de volta da escola, já no período nocturno, as vezes na companhia das amigas e outras vezes mesmo sozinha.
Por sua vez, a Julieta Sapalo, cuja residência está próxima às campas, referiu estar já habituada, “pois dorme e acorda com aquela imagem”.
“Sempre que acordo para varrer o quintal, as primeiras imagens são as campas, já que o cemitério está sem muro”, lastimou.
Estudante universitária, disse que já reclamou por várias vezes junto da administração municipal, mas nada foi feito até agora.
Julieta Sapalo, que teme dos constantes assaltos praticados por jovens provenientes dos bairros vizinhos que encontram no cemitério o seu refúgio, contou que já foi vítima dos “amigos do alheio” em três ocasiões, em que ficou sem o telemóvel e peruca, além de presenciar actos de violação.
Por sua vez, o sociólogo Arches Rufino argumentou que tais práticas demonstram a crise de valores morais e cívicos reinantes na sociedade angolana.
Pediu aos pais e encarregados a educarem melhor os filhos, de modo a perceberem mais cedo que estes espaços servem para meditação e reflexão.
Crianças desafiam o medo
No local é possível constatar a presença permanente de crianças a brincarem dentro do cemitério, como se num parque de diversão estivessem.
Umas a jogar a bola, outras a saltar cordas entre outras brincadeiras, sem um mínimo de medo, que normalmente caracterizava esses espaços em tempos idos.
Uma das menores, de 10 anos, afirmou não ter mais medo de brincar no local, apenas dos marginais que ali se refugiam. Um outro pequeno de 12 anos disse ser o único espaço que têm para jogar futebol, e utilizam-no há já muito tempo.
Enquanto isso, o encarregado de educação Martinho Alberto Proeza, de 61 anos de idade, entende que a urbanização da zona saiu do controle da administração.
Residente no bairro Helena de Almeida desde 1997, anotou que as pessoas estão a construir ao seu belo prazer, não respeitam os limites, por conta disso estão a construir no perímetro do cemitério.
Disse que o actual estado do bairro não permite opções para as crianças realizarem suas brincadeiras, por isso optam por passar seus tempos livres no cemitério.
Por este facto, Martinho Alberto Proeza teme um eventual desaparecimento deste cemitério no futuro, em função da facilidade das pessoas entrarem e saírem de lá. “Já não se fala apenas de marginais, são também os nossos filhos que frequentam este lugar porque está aberto e desprotegido”, lamentou.
Já Alice Aida, outra moradora do bairro, referiu que os seus filhos tiveram que se acostumar com a realidade, por cresceram com a imagem das campas.
Solicitou da administração municipal uma melhor organização do cemitério, por constituir um dos cartões postais da cidade, em função da sua história.
Religiosos apontam inversão dos hábitos e costumes
O pastor da Igreja Evangélica Sinodal de Angola (IESA) no Bié, Hermenegildo Pinto, considerou haver uma inversão de valores, já que, antigamente, quando uma criança deparava-se com óbito afastava-se imediatamente, não participava nos funerais, coisa que acontece actualmente.
“Nenhuma criança poderia ver uma urna contendo restos mortais, mesmo sendo um parente”, realçou, considerando que o cemitério um lugar sagrado, que deve ser respeitado e preservado por todos os cidadãos.
Já Tomé Tchipilica, pároco da centralidade do Cuito, considerou preocupante o elevado índice de profanação de campas e a vandalização constante dos utensílios e outros bens no interior dos cemitérios.
Disse ser fundamental que as famílias incutem nos seus filhos a necessidade do respeito a estes locais.
Abordada sobre o assunto, a responsável do Gabinete Municipal do Ambiente, Saneamento Básico e Serviços Comunitários do Cuito, Madalena Chicapa, disse estarem actualmente desprovidas de verbas para a vedação do cemitério, mas adiantou ser uma das preocupações da administração municipal.
Quanto à guarnição, disse ser uma questão de consciência dos cidadãos, quanto à preservação dos locais santos.
com/Angop