
A semana que agora termina ficou marcada por uma polémica pouco comum no espaço público angolano. A bissexualidade de alguns membros do Executivo passou a ser amplamente debatida nas redes sociais, gerando desconforto institucional.
Primeiramente foi citado o nome do ministro dos Transportes, Ricardo Daniel Sandão Queirós Viegas de Abreu, cuja orientação sexual voltou a circular com intensidade nas plataformas digitais, após uma publicação de um internauta que se identifica por Joana Clementina, que escreveu na sua página do Facebook: “Angola assuntos não acabam, agora é do ministro que quer entrar nos cus dos colegas.”
A publicação desencadeou uma onda de comentários negativos, partilhas e debates, levando o Ministério dos Transportes a reagir oficialmente, repudiando aquilo que classificou como “conteúdos falsos, difamatórios e absolutamente infundados”, imputados ao titular da pasta.
No comunicado, o ministério não nega nem confirma directamente a orientação sexual do ministro, mas condena o uso do tema como arma de ataque pessoal, sublinhando que tais práticas atentam contra a honra do governante, da instituição e do próprio Executivo.
Um dia depois, o mesmo perfil nas redes sociais voltou a publicar conteúdos semelhantes, desta vez envolvendo o presidente do Conselho de Administração do Banco de Poupança e Crédito (BPC), Cláudio Pinheiro Pinto Macedo, também rotulado como bissexual, numa publicação que afirma existir uma “febre de dirigentes bissexuais” nos altos cargos do Estado.
As novas alegações ampliaram a polémica e consolidaram o tema como assunto de conversa pública, não apenas nas redes sociais, mas também em círculos políticos e mediáticos.
O jornalista Graça Campos, antigo director do extinto Semanário Angolense, analisou o episódio num texto crítico intitulado “Bicudo embaraço institucional ou já nem a isso se chegou?”, onde sustenta que a reacção do Ministério dos Transportes acabou por dar dimensão institucional a uma fofoca de redes sociais.
Segundo Graça Campos, ao invocar o nome do Executivo como um todo, o ministro terá espalhado suspeitas sobre os restantes membros do Governo, criando um precedente perigoso e alimentando ainda mais a curiosidade pública sobre a vida íntima dos dirigentes.
Angola não é excepção
Em termos objectivos, a bissexualidade de figuras públicas não é novidade no mundo. Em vários países, dirigentes políticos, ministros, parlamentares e chefes de Governo assumiram publicamente a sua orientação sexual, sem que isso tenha constituído impedimento legal ou político.
Nos Estados Unidos da América, figuras como Pete Buttigieg, ex-secretário dos Transportes, assumiu-se homossexual ainda em campanha. No Canadá, vários deputados e ministros declararam-se gays ou bissexuais.
Na Europa, países como Alemanha, França, Espanha e Reino Unido tiveram e têm dirigentes assumidamente LGBTQIA+.
A diferença, segundo analistas do Imparcial Press, está no facto de que, nessas democracias, a orientação sexual é tratada como assunto privado, enquanto em contextos mais conservadores ou politicamente tensos, como Angola, o tema tende a ser usado como arma de descredibilização moral e política.
Em Angola, apesar de a homossexualidade e a bissexualidade deixarem de ser crime com a revisão do Código Penal, o debate público continua marcado por hipocrisia social, silêncio institucional e uso selectivo da moralidade conforme a conveniência política.
“O problema não é um dirigente ser bissexual. O problema é usar isso para destruir reputações ou fingir que não existe quando convém”, comentou um analista político Nsolé Pedro ouvido por este jornal.
Até ao momento, nem o ministro Ricardo de Abreu nem o PCA do BPC se pronunciaram pessoalmente sobre a sua orientação sexual, mantendo-se a controvérsia no campo das alegações, da especulação pública e da luta narrativa nas redes sociais.
O episódio expõe, mais uma vez, a fragilidade do espaço público angolano face à desinformação, mas também revela um país ainda pouco preparado para discutir sexualidade de forma adulta e responsável.