Breves reflexões sobre o papel do crítico literário – David Capelenguela
Breves reflexões sobre o papel do crítico literário - David Capelenguela
David Capelenguela

Há sinais de uma virada ética lenta, entre nós. Alguns críticos mais jovens estão voltados para a presença mais criativa da crítica literária nos espaços alternativos e não só, onde posturas profissionais e amadoras convergem para o mesmo palco

No pós-independência, a década de 80 e meados da de 90, com a determinante força do consumo que proporcionou a explosão editorial, sobretudo a resultante da produção da União dos Escritores Angolanos, elevou-se bem alto a fasquia da crítica literária.

Mas, de algum tempo a esta parte, a crítica literária foi ficando subsumida, reduzida, enquanto epifenómeno do consumismo geral. Houve mudança no centro de gravitação: da mão dos mais habilitados críticos e alguns poucos então estudantes universitários à mídia.

Certamente porque por “enceguecimento” estes críticos da época fizeram uma perversa reserva de mercado trabalhando em cima do consagrado, por uma preguiçosa convenção das ementas. Daí o jargão, o tom – e a má fama: académico passa a ser depreciativo, por repetitivo e sem graça; no que difere do criativo, do que satisfaz por surpreender e acrescentar.

E, se bem que poucos reivindicam com orgulho a tarefa que lhes cabe – de partilha e transmissão de uma memória cultural – como crer que a cultura crítica e literária entusiasme os mais novos? E como a criação consistente pode acontecer aqui, se toda invenção pede um inventário?

Levados pelo desencanto com a apresentação desse inventário, reduzido à peruca e poeira, acuamos os críticos mais maduros ao desencanto e os novos escritores à presunção de criar o círculo.

E, perante tal realidade, pergunto como pensar o lugar e a função da crítica literária? Como pensar a crítica literária contemporânea e seu lugar no debate público de ideias?

A esse respeito, direi que, a ênfase do indivíduo criador é tanto causa quanto efeito de uma ruptura de elo aparente entre o texto e o mundo que permitirá o surgimento de uma ideia de obra como totalidade contida em si.

Cada vez mais regida por princípios que lhes são interiores, que ela impõe a si mesma e que, consequentemente, não podem mais ser ditados de fora, vai daí surgir aquele tipo de escolha e ordenamento das palavras que funciona como a assinatura do escritor, sem que ele precise escrever seu nome, que é o estilo.

A língua, enquanto sistema organizado de signos linguísticos, impondo um léxico e determinadas normas gramaticais, o indivíduo que a utiliza selecciona os signos (palavras) dentro das séries paradigmáticas e combina-os livremente no eixo sintagmático. É nessa liberdade de recriar a linguagem que se situa o estilo.

Por sua vez, a Semiologia, como todo estudo sobre os signos e, portanto, sobre a linguagem humana, que é um sistema de signos, é evidentemente uma metalinguagem, como o são todos os demais discursos que falam sobre a Literatura, enquanto um corpo ou uma sequência de obras, nem mesmo um sector do comércio ou de ensino, mas o grafo complexo das pegadas de uma prática: a prática de escrever.

Assim, se a Literatura é um trabalho de encenação da linguagem ou de deslocamento que o autor opera sobre a língua, levando o leitor a romper com toda e qualquer estrutura fixa de pensamento, a “crítica literária” só pode ser um trabalho de re-encenação, que, longe de apenas avaliar ou meramente chamar atenção sobre a obra, encete também um diálogo com ela, levando adiante o processo de reflexão desencadeado.

Toda crítica viva – isto é, que desempenha a personalidade do crítico e intervém na sensibilidade do leitor – parte de uma impressão para chegar a um juízo.

Entre impressão e juízo, o trabalho paciente da elaboração, como uma espécie de moinho, tritura a impressão, subdividindo, filiando, analisando, comparando, a fim de que o arbítrio se reduza em benefício da objectividade, e o juízo resulte aceitável pelos leitores.

Ao invés de simplesmente enumerar itens ou explicar elementos poéticos ou narrativos, a crítica os submete a uma ideia reguladora articulada pelo crítico. Aqui entra em cena sua imaginação: ao formular hipóteses, baseando-se estritamente naquilo que o texto fornece, o crítico aponta para algo inusitado, até então despercebido.

Uma crítica realmente forte cola no objecto; ela reconfigura a obra de tal maneira que o seu significado passa a ser aquilo que foi enunciado e torna-se difícil imaginar qual era o seu sentido anterior à crítica.

Num olhar retrospectivo à tradição ocidental e tomando a Grécia clássica como referência, podemos observar que se costumam dividir, grosso modo, as tendências da “crítica literária” em duas grandes linhagens, uma relacionada a Platão e a outra a Aristóteles.

No primeiro caso, temos um tipo de “crítica” baseado na ideia de que a obra é um meio para se atingir um fim extraliterário, é um veículo de mensagens filosóficas, políticas, religiosas, morais, etc., ou é um documento de uma época, uma sociedade ou uma personalidade.

No segundo caso, temos um tipo de Crítica que encara a Literatura como uma arte, a arte da palavra, e, portanto, com valor em si mesma.

Inspirada por uma preocupação universalizante, de cunho científico, e apoiada na aura do discurso estético que se havia instituído através dos tempos, a “crítica” tinha-se voltado para o estabelecimento de padrões de avaliação das obras literárias com base em noções fluídas e não mensuráveis, como as de “literariedade” e “permanência”, e se havia utilizado desses parâmetros na construção dos cânones.

Com as indagações surgidas naquela época sobre esses elementos, perdeu alguns dos seus referenciais e nos dias de hoje mergulha em terreno pantanoso, quase que sem parâmetros definidos, deixando de lado qualquer visão absoluta das obras e, desse modo, se historiciza, tornando-se muito mais rica e complexa.

A “crítica”, nessa perspectiva, é a análise e a avaliação da obra de arte, nos seus aspectos intrínsecos, e calcada em princípios estéticos e em métodos indutivos.

É uma crítica de carácter predominantemente formalista, que atravessou os séculos, muitas vezes num plano secundário, ou até mesmo abafada, mas encontrou na era romântica forte expressão com a noção de que a Literatura, em vez de ser regida por regras imutáveis estabelecidas pelos clássicos greco-romanos, é, ao contrário, sempre nova, de acordo com o génio individual e com o génio nacional.

O que é crítica e quem é o crítico literário?

Qualquer definição dessa questão não deve pôr de parte o facto incontornável de que a crítica, antes de uma teoria, é uma prática e, como todas as actividades humanas, desenvolve-se numa dinâmica histórica de acordo com necessidades e demandas circunstanciais e contingentes.

O termo “crítica”, do grego “julgar”, “discriminar”, encerra em si a noção de “avaliação”; assim, a crítica literária seria um processo de avaliação de uma obra ou de obras literárias, e o “crítico” alguém que enuncia juízos críticos ou exerce a crítica literária.

É nesse sentido que o termo vem sendo empregado desde o Renascimento, embora o que ele representa já se conheça desde a Antiguidade Clássica.

Julgar uma obra é lhe avaliar o mérito à luz do gosto do crítico, ou de um corpo de critérios estabelecidos por ele mesmo ou pela época em que este vive. O crítico deve ser um “árbitro objectivo”, capaz de julgar o valor da obra por meio da impressão e do juízo.

Nessa perspectiva, o papel do crítico literário é julgar o valor da obra literária, através dos conhecimentos estabelecidos pela teoria. A abordagem da teoria literária, no julgamento crítico, é definida em cada tempo, submetida às determinações históricas e aos movimentos da cultura.

Não podemos afirmar, assim, que uma teoria é melhor que outra, ela é, antes de tudo, reflexiva e questionada de acordo com os critérios estabelecidos. Porém, entender como funciona a análise teórica nos permite compreender os processos de legitimação de autores e suas obras.

A busca de um novo ideal de história literária e novos métodos que tornem possível o preenchimento de lacunas teóricas existentes deve ser considerada, tendo em vista a complexidade existente em nossa sociedade, embora já creditando que espaços de análises vão sempre existir pela natureza semântica, social e histórica de uma obra.

No entanto, como o gosto implica alta dose de subjectividade, e os critérios estabelecidos variam de acordo com o momento – é uma questão fundamentalmente histórica-, o problema da avaliação crítica é dos mais graves no âmbito dos estudos literários.

Como julgar o mérito de uma obra ou de obras é uma pergunta que se fazem os estudiosos de Literatura e de Artes em geral desde épocas remotas, e, ainda que já se tenham tentado diversas respostas para a questão – a noção da “literariedade”, por exemplo, dos formalistas russos – nenhuma delas apresentou sequer a estabilidade almejada.

As obras de arte têm sido avaliadas desde a Antiguidade à luz de critérios vários, que oscilam de acordo com a época, e todas as tentativas de generalização ou universalização de parâmetros têm-se desde então revelado falaciosas, se não mais pela impossibilidade de mensurá-los com objectividade. É possível intuir-se até certo ponto a qualidade de uma obra, mas não se estabelecerem critérios objectivos de avaliação.

De maneira geral, a “crítica literária” tem sido vista como uma actividade reflexiva, composta de três etapas, que podem ocorrer sucessiva ou concomitantemente.

A primeira seria uma resposta intuitiva à obra ou uma impressão provocada pelo contacto com esta; a segunda, uma análise detalhada da obra, marcada pela sua descrição e interpretação; e a terceira, uma avaliação com base na exegese realizada e calcada em um código de valores e critérios estabelecidos pelo crítico e retirados da tradição ou da observação de novos padrões introduzidos pela obra.

A segunda etapa, sem dúvida a mais complexa, exige a utilização de um método ou de métodos determinados, e é devido ao exercício desse ou daquele método de abordagem do fenómeno literário que têm surgido diversos tipos de crítica.

Antes, porém, de mencionarmos esses possíveis caminhos ou métodos, observe-se que o facto de ater-se a apenas uma dessas etapas tem levado pesquisadores da literatura a simplificações altamente questionáveis, como a chamada “crítica impressionista”, baseada na pura doxa, e resultante do apego excessivo à primeira ou à terceira dessas etapas, ou a crítica meramente descritivista, praticada pelos seguidores de um estruturalismo mal assimilado, que se atinham apenas a uma parte da segunda etapa, a esfera da simples descrição, desprezando inclusive o sentido de avaliação, inerente a toda crítica.

Foi o apego exclusivo à primeira e à terceira fases, por exemplo, que levou muitas vezes ao sentido pejorativo que a crítica adquiriu no universo leigo, ligado à ideia de uma avaliação negativa.

A princípio de carácter mais técnico, esse tipo de crítica foi-se reduzindo, pelas imposições do próprio jornal, ao mero noticiário, ao comentário ligeiro, a uma espécie de recensão leve, e ficou muito marcado pelo seu cunho apologético ou restritivo.

A elaboração da crítica considera alguns elementos, entre eles, a boa dose de razão e a aferição de valor. Se a crítica tem função social, sentem-se seus efeitos na composição de seus enunciados que podem atribuir conceitos positivos ou negativos aos objectos analisados. O crítico também precisa saber escolher: crítica normativa ou crítica imanente?

A crítica normativa estabelece regras de comparação ou toma por parâmetros outras obras ou escalas para medir o grau de relevância e inovação do volume examinado, inserindo-o em um conjunto estético. Já a crítica imanente procura julgar o texto conforme o princípio que ele parece estabelecer para si mesmo.

O crítico precisa perceber não apenas o que o romance, ou o poema, pretende dizer, mas o que ele quer ser, e se consegue levar a cabo tal pretensão de maneira convincente.

O estado da crítica hoje

A ideia do crítico como um intérprete da obra, ou como um mero avaliador, está bastante associada a um tipo de crítica que se desenvolveu a partir do advento do Jornalismo, no século XVIII, e que visava a divulgação, a informação e a orientação do público em relação ao movimento editorial.

A princípio de carácter mais técnico, esse tipo de crítica foi-se reduzindo, pelas imposições do próprio jornal, ao mero noticiário, ao comentário ligeiro, a uma espécie de recensão leve, e ficou muito marcado pelo seu cunho apologético ou restritivo.

No século XX, com o desenvolvimento das universidades e o consequente deslocamento do meio intelectual para o contexto académico, este tipo de crítica passou a ser exercido por especialistas, que, em lugar dos rodapés de jornais, utilizaram como veículo revistas especializadas.

Entretanto, a crítica jornalística nunca desapareceu totalmente, permanecendo nos suplementos de jornais, e continuou tendo um papel importante no mercado editorial. Ela se sofisticou pelo facto de ser agora praticada por especialistas, nalguns casos, e por absorver um forte teor académico.

Mas continua sendo a ela que se deve muitas vezes o sucesso ou fracasso de público de uma obra, e é a ela que reage frequentemente o escritor por meio da própria produção literária.

E, no entanto, permanece um aparente paradoxo: se a mídia decanta tanto o produto livro, se há presentemente tantos eventos, publicações, festas e feiras literárias, por que, de modo desproporcional, há pouca acutilância da crítica literária?

Porque o mercado dirige a crítica – reduzindo-a a resenha; e releituras, que se reconfiguram com a internet – a um serviço prestado ao consumo.

Quando entrou em campo o jornalismo cultural, esse profissional se viu ante duas posições: fazer vender uma novidade a todo custo; ou apontar o novo enquanto valor de revelação.

Nos blogs, nos sites, o lugar muda a percepção do objecto; e a instância crítica – que aqui pode conjugar firmeza de apreciação e risco subjectivo assumido. É sinal de novos resultados de produção artístico-literária pedindo a coragem de novas posturas críticas.

Marcada permanência da crítica – ainda, e contra todas as previsões apocalípticas de seu desaparecimento, como um guerrilheiro, por nós todos conhecido, quase que solitário àquela data aos nossos dias, tem estado a cumprir bem o seu papel de crítico literário no mercado angolano.

Na verdade falar da crítica literária nos dias de hoje, é nada menos nada mais do que referenciar a presença permanente de Luís Kandjimbo, o olhar atento de José Luís Mendonça, João Melo, Lopito Feijó, Botelho de Vasconcelos, Adriano Mixinge, António Quino, alguns poucos professores universitários como Virgílio Coelho, Paulo de Carvalho Victor Kajibanga, Aníbal Simões e alguns poucos jovens do movimento Litteragris (muitos com estrada ainda por fazer).

Da breve pesquisa feita, tão bons profissionais no trabalho que fazem quanto à crítica, a contribuição dos nomes acima citados, salvo excepções, tem sido ainda irrisória, pois para além de haver a necessidade de mais presenças suas na crítica; acompanhando com regularidade as novas propostas de trabalhos literários que se vão lançando no mercado, há a necessidade de haver mais operários neste ofício.

O que se espera é que o espectáculo do texto seja cada vez mais a novidade em seu arranjo de linguagem; o texto trate uma matéria de um ponto de vista no mínimo singular; sairia a ganhar o leitor; quando a mídia se antepõe, o espetáculo é exterior; o ganho, do promotor.

O livro apenas como produto, equilibra o mercado: demandado, ofertado; o livro como impacto de linguagem, desequilibra, desestabiliza; acrescenta culturalmente.

Quando o crítico desertou de sua função, – sem mais fôlego para estender as guerrilhas intestinas – deixou o campo livre; e porque teria que ser ocupado, a indústria imediatista veio. Instalou-se!

É triste, mas é a realidade, a crítica literária está, praticamente, um vago campo cinza. Ainda que em escala menor, quase que não há questionamentos sobre crítica literária; no entanto, e, talvez, já nem tanto sobre a sua qualidade, mas sobre a legitimidade da sua função.

Parece que o excesso de produção neutralizou a função da crítica; negligenciou, quando não cegou a capacidade de análise. (É curioso como o étimo de negligenciar é eloquente: o primeiro sentido de legere era escolher; portanto, negligenciar é não mais saber escolher, é aceitar um vale tudo indistinto). Ou a crítica cedeu (o cuidado com) a instância estética à presteza da informação.

Talvez porque a dispersão do enfoque no interesse literário, pela multiplicação de seus meios – a narração nas outras mídias – escape às normatizações anteriores; e daí se tenha deduzido, cedo demais, que a crítica não tenha mais função alguma.

O que há é um desafio maior: surgiram muitas formas de narração híbridas que o conceitual antigo mede mal; é meio desnorteante para o crítico olhar a produção fora de qualquer conformidade com os critérios anteriores.

Os tempos gritam pelo regresso dos nossos críticos. São sinais de um novo norteio na crítica que agora ousa outras interrogações para compreender o panorama literário emergente. Já distanciados daquilo que pautou a crítica durante décadas.

Qual critério é ainda possível, ou desejável? Qual realismo, quando a astrofísica nos deixa a quilómetros das concepções de realismo anteriores?

Nas minhas deambulações de leituras, sempre que posso, pouso, em matéria de estudos sobre memória e à reacção ao esfacelamento provocado pelo ritmo frenético do acontecer actual, a volta à memória pode sinalizar um gesto de querer reatar, recompor a ordem suposta do mundo cultural; sobretudo na memória dos grupos – talvez um aviso, uma advertência, senão um sintoma do que a velocidade das novas tecnologias arrisca sacrificar, levando de roldão.

E o universo cibernético tem sido, de facto, um abalo implodindo valores referendados e criando o imprevisto, a novidade radical. Insistência da memória, síndrome de um pressentimento de perda possível. Uma reação, talvez, para salvaguardar a cultura da apatia que pode resultar do excesso de comunicação.

Nos dias de hoje, no campo da crítica literária, tem vindo a acontecer algo análogo. Parece haver uma preocupação em redefinir o espaço da crítica literária; síndrome aqui de suposta perda de sua credibilidade, embora, tenha eu, a consciência de que sua pouca presença no mercado seguramente não a invalida.

Desde que houve textos, houve uma possibilidade de comentário, de reapresentação, em sua transmissão; a crítica tem sido consubstancial ao processo da memória escrita. Se não é ainda a instituição da crítica, já é uma espécie de protocrítica instalada em nossos hábitos culturais desde a tradição heleno-judaica; a que vem se juntar também a narração de matrizes endógenas, na recriação de sentidos agregadores.

Às narrações, que perfazem uma comunidade, acrescentam-se comentários, interpretações, adequações. Portanto, o exercício crítico acompanha o acto de criação. Parece de política miúda fechar o foco no imediato de sua profissionalização, na querela de seu espaço no jornal ou na universidade, entre a coluna e o corredor, crítica académica versus rodapé, quando sua alçada é antropologicamente maior.

Portanto, porque a crítica é uma forma de resposta à recepção do texto que auxilia o leitor de uma dada obra, ainda que prática remota, pode-se pontuar, entre nós, que a força da crítica literária jogou um papel preponderante nos momentos fundacionais de Angola independente.

O que fazer perante a realidade tão complexa?

O texto literário – esse grafo complexo – nem sempre é fácil de definir, como da vida dizem os biólogos. Aqui a dificuldade não nos dispensa do esforço.

A sugestão é antiga, vem de Valéry: urge fazer uma assepsia de termos e definições; mesmo que sem pretender exatidão, mas buscando a eficácia de certo rigor operatório; alguma coisa para além do impressionismo desenfreado, que beira o delírio interpretativo; ou da complacência, que Machado, já em 1865 dizia abominar, em crítica literária; ou o anarquismo (em sua acepção negativa, mal-entendida) – e a vaga pretensão de poder emular o discurso científico tardio (ou ao menos anterior ao impacto recente, quando ao discurso da ciência não interessa evitar o caos, as indeterminações advindas das probabilidades quânticas).

A complexidade do real literário pede uma maior plasticidade de actuação. A qual realidade aludo. A melhor forma de negar a complexidade de uma questão é apelar ou apontar para um dos extremos: a análise estruturalista ou o subjectivismo desenfreado. Eleito um ou outro enfoque, o mais, são variações desses extremos.

O que se espera do crítico hoje, então, é nada menos do que a conjunção de dois impulsos a princípio incompatíveis, a saber, conseguir esquecer-se de toda a teoria ao penetrar na obra, mas, ao mesmo tempo, lembrar-se dela para trabalhar aquilo que o texto parece exigir. E o interessante é que isso vale também para a teoria ou qualquer forma de metacrítica. Tanto as teorias atraem os académicos como deixam prudentemente distantes os escritores.

A questão agora é redefinir o que se busca enquanto crítica literária, quando os tentáculos do sistema dissiparam a arrogância, comum ainda há pouco, dos expositores de métodos e modelos de leituras que emulavam o sistema vigente numa competição de status e de um lugar (não tanto ao sol mas à sombra da academia).

Desgaste operado de dentro do exercício da crítica, e, especialmente reforçado, em muito, pela mídia, sobre o ofício da crítica literária; provocando certa desordem em seu conceituário e flutuações em sua definição mas, por aí mesmo, dando conta de sua nova dinâmica.

Aqui e ali deve começar uma sucessão de mudanças de abordagens críticas, de jargão, como a de camisas – enquanto a sociedade, a de escala maior, passa ao largo. A ambição de uma instância capaz de criar o sentido unificador. A veleidade de alargar os níveis de percepção, de aprofundar sentidos.

Certamente que não será uma aposta perdida de antemão, pois, um ar de derrotismo mal disfarçado fez aceitar a trajectória da crítica em termos da termodinâmica: como contrapor-se às mudanças de fases – surgimento, apogeu e decadência da crítica literária?

Ora, já não há tanto sentido nesse regime entrópico; as coisas se refazem, a crítica absorve as novas técnicas. A crítica literária no ciberespaço apenas continua um movimento: porém, o crítico sempre esteve instalado no espaço de seu instrumento – do papiro ao papel.

Hoje ele se vê confrontado com as redes de possibilidades. Ao domínio conceptual pretendido ontem, ao registo do texto dentro de uma ordem, sucede, e num ritmo vertiginoso e sem volta, as possibilidades de criação.

Mesmo que isso inquiete pelo volume de besteiras que permite, ainda assim vale o preço pela surpresa boa de um belo e delirante poema de Lopito Feijó ou pelo enredo de um conto de João Melo que nos acena!

De um instrutor conto infanto-juvenil de Maria João Chipalavela. Ali a criação se dá na junção de diversos registos e a crítica revitaliza Luís Kandjimbo na contemporaneidade.

Só assim, o exercício crítico teimará em voltar à baila da inoperância, e continuar vigente – mesmo como voz rouca; entre a necessidade e a esperança há ainda uma continuidade de estudos críticos sólidos e constantes; no entanto, isso pede uma temporalidade outra: o tempo de decantação que melhor faz valer um vinho.

Nem por isso é incompatível com o espaço do rodapé, o do auditório, ou o do vídeo.

A crítica literária não é nenhuma liturgia que careça de um espaço consagrado para legitimar-se. Há crítica lá onde há uma paixão rigorosa pelo texto e que toma a forma interrogante de quem busca ver seus fundamentos para fazê-lo dizer mais.

Como com a lógica matemática, aqui há uma petição de princípio: parte-se de uma premissa básica, de certa convicção consensual; tal petição precisa supor algum sentido na prática literária; e, por sequência, na tarefa do crítico; e precisa buscar uma definição, mesmo que apenas operatória, do que seja o literário; não se está indiferentemente num departamento de letras, filosofia ou de hidráulica; há que crer e investir numa especificidade do imaginário literário; em que a criação, a surpresa, o imprevisto se dão no carácter modal, num certo emprego da linguagem.

À guisa de conclusão

Com a ampliação do leque de referenciais do discurso crítico e o resgate de sua condição de historicidade, que veio a reconhecer que os padrões de avaliação estética sempre oscilaram de um contexto para o outro, tanto no tempo quanto no espaço, a “crítica” volta, na segunda metade do século XX, a assumir explicitamente a sua subjectividade, mas sem deixar de admitir as marcas de objectividade presentes na obra.

Assim, o que passa a prevalecer na análise, interpretação e avaliação desta última é a relação que se estabelece entre o estudioso e o texto, e a célebre questão que inquieta o investigador quanto ao método a adoptar em sua abordagem do fenómeno literário irá depender exatamente dessa relação.

É aqui que creio que compreender isso dá azo às exclusões e aos insultos mais comuns que me foram feitos nos corredores estreitos aquando da minha entrevista no jornal Pungo-a-Ndongo: alguém é um estruturalista ainda; outro é formalista; pior: alguém é impressionista.

O estudante recém-chegado a essa arena vê voarem os tijolos de sua suposta formação. As escolas críticas – possibilidades de enriquecer a leitura por diferentes ângulos de visão – viram viseira. As variadas vias de acesso ao texto – o ângulo pretendido por tal escola, tal visada crítica – poderiam acrescentar, fazer somar.

Mas pecam por exclusivismo, por exclusão. Raros os trabalhos de moderação inteligente, de marcada lucidez e independência, como desde cedo nos ensinaram as sabedorias de ouvir mais e falar menos.

E as teorias tomam, oportunamente, (ou pior: por oportunismo) o ar dos tempos; e, claro, uma escola crítica tem maior possibilidade de propagação se lida desde uma grande universidade, desde que instada ao exercício de seu labor na crítica, aceite ser criticada.

À gangorra teórica que vai resultando do desfile da suposta escola crítica, os mais novos reagem com certo enfado; de antemão eles esperam alguma chatice dos discursos teóricos.

Os comentários críticos são vistos, seja como idiossincrasia de iluminados, seja como imposição de pernósticos. Estão tão vaidosos ao ponto de permanentemente se renovarem em sentimentos de aversão à crítica. São arrogantes pela sua exacerbada vaidade intelectual.

Um grande crítico não cabe numa escola: ultrapassa as escolas. Porque crê na continuidade da transmissão crítica de saberes que instituíram o modo como somos. Sem abdicar da análise dos textos tem um olhar alargado sobre a comunidade de valores que o constitui.

Não é em detrimento do texto, mas a partir dele que faz indagações consideráveis, pertinentes, no terreno da história, da sociologia, da política e até do próprio Direito de que se dizem ser formados.

Para alguns, a crítica, que poderia ser um convite à abertura do texto, vem a ser uma coloração estalinista que se crê e se quer inquestionável; e sacrifica o jogo da inteligência, e de qualquer moderação, numa defesa que permite o insulto, as invectivas, a paixão miúda.

Os sistemas críticos se impõem mais como arsenal de defesa das próprias premissas que de serviço ao alargamento de percepções de leitura. É infelizmente, o arame farpado a demarcar o território de nossas humanidades.

Difícil dizer o que é pior: se a atitude anterior de defesa parcial e apaixonada de uma facção crítica, ou se tal atitude defensiva desagua em indiferença, que qualidade queremos para a nossa literatura? E, a resposta é, quem com ferro mata, com ferro morre.

Só por isso, e para aliviar a alma, o escritor, instado ao labor do seu ofício de escrita, fala pelo texto, e, por sua vez, o críticoliterário, este sim, faz falar o texto, no sentido de que aponta direções, ao lhe escutar, para somar ao espectro de possibilidades que ele oferece à experiência proveniente de sua formação teórico-intelectual.

Só assim ele evita incorrer nas famosas inferências, frequentes na abordagem crítica, ou na frieza de uma análise meramente descritivista que se limita à quase paráfrase. Nos dias que correm, é essa visão da crítica que suponho que deve ganhar cada vez mais terreno.

A leitura crítica, segundo essa perspectiva, será sempre criativa, na medida em que ela re-encena o texto, o recria, não só chamando atenção para aspectos que poderiam passar despercebidos, como, sobretudo, indicando novas possibilidades de assédio, novos caminhos a seguir.

Assim, a crítica literária, quero crer, é portanto fundamental ao texto literário enquanto a literatura for importante como transfiguração das experiências, reais ou sonhadas, da vida. Sua função guarda a esperança de poder rectificar, alargar a leitura.

Talvez já sem a pretensão, ainda que bem intencionada de Sainte-Beuve: o crítico enquanto alguém que supõe saber e daí ensinar a ler.

A crítica contemporânea deve vir da busca de um sistema, de uma chave que acolha pacificamente nossas convivências ou contradições culturais, já que não há como: só uma razão de aglutinação sociocultural dá conta da profusão de que somos feitos.

Por isso, deve compor-se de certa humildade, como a dos homens de ciência nesse momento que se definem pela firmeza da busca; ou, para dizer, a crítica hoje é a escuta poética do enredo.

*Doutorando em C.S (Sociologia), mestre em Direito, poeta e ensaísta

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