
Há cerca de um ano, ninguém ousava pensar ou mesmo sonhar que a vida das comunidades do município de Ombadja, província do Cunene, mudaria para melhor, depois de décadas de incerteza e sob efeitos da seca severa que assolava a região.
Sem esperança de mudança do quadro, agravado pelos efeitos da Covid-19, as autoridades do Cunene lançaram um grito de socorro a favor de milhares de habitantes, que praticamente nada tinham para comer e para acudir mais de um milhão de cabeças de gado que corriam risco de morrer de sede e fome.
O quadro mobilizou angolanos que, em pouco mais de dois meses de campanha de recolha de fundos e meios, juntaram centenas de milhares de toneladas de bens diversos e equipamentos, para fazer face aos efeitos da seca.
Paralelamente, o Executivo angolano, liderado pelo Presidente João Lourenço, traçou e executou um ambicioso projecto, no domínio das águas, que culminou com a construção do canal do Cafu, que transporta o precioso líquido a partir do rio Cunene.
Para quem não acreditava, oito meses depois da sua inauguração, os ganhos são visíveis nos rostos de milhares de angolanos que vivem ao longo dos 160 quilómetros de extensão do canal, fruto das chimpacas abertas nas suas margens para o abeberamento do gado, assim como os pontos de água a manivela para o consumo humano e o regadio.
Apesar de não terem qualquer histórico na produção agrícola, os munícipes de Ombadja, residentes ao longo do canal do Cafu, começam a ensaiar os primeiros passos no domínio agrícola, com a plantação de hortaliças, banana e cereais.
A aposta na agricultura não descura a pastorícia e a plantação de massamba e massambala, como resultado das condições criadas com a abertura do canal, que transporta água para mais próximo das aldeias.
Ao longo dos 160 quilómetros, a população, agrupada nas 16 cooperativas agrícolas até ao momento criadas, sente os benefícios do projecto, reconhecendo o Presidente João Lourenço como o principal impulsionador na resposta ao grito de clamor das autoridades locais.
A darem os primeiros passos na actividade agrícola, pelo menos 25 a 30 famílias por cada cooperativa têm a responsabilidade de desbravar e de cultivar um espaço de quatro hectares de terra, com hortaliças, feijão macunde, massambala e milho.
A satisfação pela implementação do projecto Cafu contagia crianças e adultos que vivem hoje um cenário completamente diferente, estimulado com as chuvas regulares que se abatem na região, o que poderá conduzir a um estágio de auto-suficiência alimentar.
Para o efeito, a população conta com o apoio das escolas de campo que, para além de ajudarem no preparo das terras, ensinam as melhores práticas de rentabilização das terras aos pequenos agricultores.
Entre os iniciantes na actividade agrícola, está o cidadão angolano identificado apenas por João, de 55 anos, que diz estar satisfeito com a aposta do Executivo, por ter terminado com o sofrimento do povo e do gado. “Deixamos de percorrer por centenas de milhares de quilómetros com o gado, à procura de água e pasto”, reconhece.
“Hoje, para além de termos água para o consumo humano e para o gado, bem como pasto para o gado, temos a hipótese de cultivar alguns produtos para o sustento familiar”, acrescenta.
Ao longo do curso do canal do Cafu estão outras centenas de pequenos agricultores que, apesar de estarem no princípio do cultivo, se manifestam satisfeitos com o que estão a fazer, na expectativa de que poderão colher muito brevemente.
Dionísia Ndambelele, de 23 anos, é uma jovem que também encontrou no cultivo uma das formas para poder diversificar o sustento da sua família e recorda que 2019 e 2020 foram os piores anos, marcados pela fome, sem esperança de dias melhores.
Hoje, salienta, tudo mudou com a implementação do Cafu, “uma dádiva que devolveu a esperança ao povo e o acreditar que os sonhos podem ser realizados”.
Longe do triste cenário de 2019 e 2020, actualmente, o município de Ombadja apresenta mudanças na rotina das famílias e do gado, por terem deixado de percorrer centenas de quilómetros, em busca de água e de pasto.
Aposta na agricultura
Apostadas na mudança de hábitos das populações, que têm apenas a criação de gado como a solução para o sustento familiar, as autoridades do Cunene apostam, inclusive, no incentivo à agricultura, com a distribuição de inputs e equipamentos, acção que culminou com a criação das 16 cooperativas, ao longo do canal do Cafu.
O director provincial da Agricultura no Cunene, Carlos José, revela ter sido colocado à disposição dos pequenos agricultores equipamentos como moto-bombas, bombas a pedal, charruas e seus acessórios, para além da implementação de um sistema de rega gota a gota, com vista à facilitação da vida das populações.
Carlos José adianta para o Cunene a implementação de projectos como o do Cafu e outros que poderão ser inaugurados posteriormente, que farão que, muito dificilmente, se voltem a ouvir gritos de socorro ou existência de imagens tristes, semelhantes às que o mundo viu em 2019 e 2020.
Salienta que a província começa a recuperar o gado bovino, cujos números actuais estão aproximadamente em um milhão e 100 mil cabeças, mas com tendência para aumentar, devido às condições de acesso à água e ao pasto.
O grito de socorro
A seca severa, recorde-se, causou dezenas de vítimas mortais nas zonas mais críticas do país, deixou centenas de famílias sem ter o que comer e obrigou-as a migrar para outras regiões angolanas e para o estrangeiro.
Dados disponíveis indicam que foram afectadas pela seca, no Cunene, 867 mil 322 pessoas, com maior incidência nos municípios do Curoca, Cahama e Ombadja, incluindo milhares de crianças, que foram forçadas a abandonar as aulas.
Desde 1998, a seca tem afectado o Sul do país, principalmente a província do Cunene, mas 2018/2019 e 2020 foram os períodos mais devastadores dos últimos 24 anos.
Dados técnicos
O Cafu, um dos projectos estruturantes aprovados para a província do Cunene, no âmbito do combate aos efeitos da seca, foi inaugurado em Abril do corrente ano pelo Presidente da República, como uma das primeiras respostas concretas ao problema da seca no país, desde a independência (1975).
Antes da existência do canal, a seca era atenuada com furos de água, tendo sido abertos, em toda a província, mais de 70, que não resolveram o sofrimento da população.
O Cafu foi construído para transportar um caudal máximo de seis metros cúbicos (seis mil litros) por segundo, mas, neste momento, devido às condições hidrológicas do rio Cunene, está a captar apenas dois metros cúbicos por segundo.
Dispõe de uma tubagem pressurizada, com uma extensão de aproximadamente 10 quilómetros, de um canal condutor geral (com uma extensão de 47 quilómetros) e, no seu lote 1, uma bifurcação com dois canais, sendo o Leste e o Oeste.
O canal Leste leva água a Namacunde e tem uma extensão de perto de 55 quilómetros, enquanto o Oeste segue para a povoação de Ndombondola, também com igual número de extensão.
Para além dos canais, o sistema de transferência de água possui 30 chimpacas (reservatórios de água) e 93 bebedouros para as pessoas e para o gado. Cada uma das chimpacas mede 100 metros de comprimento, 50 de largura, cinco a seis de profundidade e uma capacidade de armazenamento de água a variar entre 25 e 30 mil metros cúbicos.
O projecto Cafu consiste num sistema de captação e transferência de água do rio Cunene para várias povoações, através de um canal adutor com 160 quilómetros de extensão, ao longo dos quais foram construídas 30 chimpacas (locais para abeberamento do gado), com capacidade para 30 milhões de litros cada.
No âmbito do Programa de Combate aos Efeitos da Seca no Sul do país, para além do Cafu, estão previstos outros quatro projectos nas províncias do Cunene, da Huíla e do Namibe, que irão beneficiar pelo menos três milhões e 500 cidadãos e mais de dois milhões e 500 mil cabeças de gado.
Cafu é o primeiro de cinco projectos do Executivo, no quadro do programa de acções estruturantes de combate à seca, beneficia 235 mil pessoas dos municípios de Ombadja, Cuanhama e Namacunde, bem como irriga 15 mil hectares de terras.
Avaliado em 44 mil milhões, 358 milhões, 360 mil e 651 Kz, permite ainda o abeberamento de 250 mil animais e a irrigação de cinco mil hectares de campos agrícolas.
O Cunene tem 999 mil e 800 habitantes, dos quais pelo menos 79 mil residem nas zonas rurais, sendo a pecuária e a agricultura de subsistência as fontes de rendimento familiar.
Reportagem de Francisca Augusto e Venceslau Mateus, in Angop