Caputo, o antigo bairro dos Eucaliptos onde Simão Toco residiu e faleceu
Caputo, o antigo bairro dos Eucaliptos onde Simão Toco residiu e faleceu
caputo

Confundido como os Congolenses, Caputo é uma localidade que já se chamou, em tempos idos, Bairro dos Eucaliptos, devido a existência, na zona, de um polígono florestal. Uma pequena parcela de terra vermelha cheia de eucaliptos, e não só, era assim que se apresentava a zona onde nasceram, cresceram e vive(ra)m ilustres figuras

Nos primórdios da década de 1950, entre o Bairro Novo de São Paulo de Luanda (Congolenses) e a Terra Nova emergiu uma pequena zona habitacional que mais tarde se passou a chamar Caputo.

No tempo colonial, segundo reza a história, na zona havia um polígono florestal, composto por eucaliptos, que foram sendo derrubados para deixar lugar para a construção dos prédios que ao longo do tempo se transformaram em cartão de visita da circunscrição.

Manuel Lopes, antigo morador, diz que no tempo colonial Caputo era uma autêntica floresta e só aparece como bairro nos anos 1970, após a construção dos prédios.

“O bairro nasce ou começa junto a cabine eléctrica da estrada de Catete, passando pela zona do Triângulo até ao actual Centro de Saúde do Rangel, e termina na antiga loja do Soeiro, propriedade de um português. Tudo aquilo no tempo colonial pertencia ao bairro do Caputo”.

Considerado uma das figuras emblemáticas do bairro, Manuel Lopes afirma, categoricamente, que a zona do Triângulo sempre pertenceu ao bairro Caputo e não aos Congolenses “como erradamente” se diz nos últimos tempos.

“A área do Triângulo, geograficamente, pertence ao Caputo, como confirmam alguns estudos demográficos elaborados na altura e que se encontram em parte incerta.É importante que a nova geração saiba deste importante pormenor histórico”, indica o nosso interlocutor.

Com 75 anos de idade e ainda bem lúcido, Manuel Lopes, antigo craque da bola, diz mais adiante que o bairro Caputo veio depois da Terra Nova.

Um dos motivos da implantação dos eucaliptos na zona, de acordo ainda com o nosso interlocutor, era servir de cortina contra os ventos, bem como para estancar as águas salobras provenientes do subsolo.

A raiz de um eucalipto, de acordo com estudos, tem a capacidade de ir buscar ou enxugar água a mais de 30 metros de profundidade. Só para se ter uma ideia, um eucalipto consome 60 litros de água por dia.

Manuel Lopes salientou que a destruição dos eucaliptos nos anos setenta, por toda aquela extensão de terra onde foram construídos os prédios, “foi um grave atentado ao ambiente”, sublinhando que aquela acção poderá, no futuro, “originar graves consequências”.

Relatos de moradores do bairro referem que a zona que fica por detrás do Ngola Cine pertencia ao bairro Caputo e lá “também existiam frondosos eucaliptos que foram derrubados”.

Por outro lado, alguns escritos da época indicam que o Mercado dos Congolenses, administrativamente, à data da sua criação, em 1965, chamava-se Mercado do Caputo e albergava pouco mais de 100 vendedeiras.

Dada a proximidade do mercado aos blocos residenciais em que foram concentrados os chamados “congolenses”, com apenas uma rua a separá-los, por extensão, o Mercado do Caputo popularmente passou a ser designado como Mercado dos Congolenses, tal como o próprio bairro, cujo nome oficial na verdade era Bairro Popular de São Paulo.

De resto, era do terraço dos prédios do Caputo que muitos garotos contemplavam o movimento das locomotivas dos Caminhos-de-Ferro de Luanda, e outras infra-estruturas que despontavam lá para os lados do Congo Pequeno, actual Cazenga.

Reiteramos: a partir dos então imponentes edifícios do Caputo era possível visualizar a Estação do Musseque do Caminho-de-Ferro de Luanda e toda aquela paisagem arquitectónica do antigo pólo industrial do Cazenga.

Do terraço dos prédios “Efes” do Caputo podia-se ainda observar, com nitidez, a Estação de Tratamento de Água do Cazenga, vulgo Tanque do Cazenga, zona onde, em 1974, apareceu morto um taxista de raça branca na sua própria viatura de cor verde e preta com o taxímetro no tejadilho. Esse facto desencadeou toda uma série de distúrbios sociais bem documentados na imprensa da época.

Origem do nome do bairro

Uma antiga narrativa indica que entre uma “linha contínua” entre os Congolenses e a Terra Nova nasce o bairro do Caputo, bordejado pela antiga rua Dom João II, posteriormente rebaptizada Lino Amezaga.

O nome Caputo, segundo relatos de alguns moradores, surge da língua local kimbundu e significa “colono”, “branco” ou “autoridade colonial”. Manuel Lopes afirma que Caputo era a designação que os autóctones davam ao Governo Português, por um lado, e, por outro, por ter vivido no bairro o senhor João Capinto, um sipaio.

“Essas referências do tempo colonial fizeram com que o bairro tivesse este apelido ou nome. O sipaio João Capinto era uma das marcas do bairro, ou melhor, teve influência na atribuição do nome Caputo ao bairro por parte da população”.

A aceitação do nome estendeu-se aos mais velhos que viviam nas cubatas de pau-a-pique lá para os lados do Congo Pequeno, próximo à linha férrea. E perdura até aos dias de hoje.

Nos finais dos anos 1950, com a migração ou a vinda de colonos de Portugal (metrópole) para a então província ultramarina de Angola à procura de melhor status, o bairro Caputo, concretamente na zona próxima à Terra Nova, viu-se transformado, com a construção de casas de um modelo arquitectónico diferenciado.

É assim que nos anos 1960, Caputo deixa de ter aquele condão de musseque. A tipologia moderna das casas do bairro, naquela época, era semelhante à das que foram construídas noutras circunscrições da cidade de Luanda.

Reza a história que nos idos de 1960 era notável o contraste entre os blocos habitacionais de quatro pisos e os seus logradouros e as moradias auto-construídas com acessos labirínticos e sem espaços públicos.

Entre ambas as realidades urbanísticas surge o famoso Triângulo do Caputo, que é um terminal oficial de transportes públicos, que posteriormente ficou bastante conhecido, até hoje, como Triângulo dos Congolenses.

João Damba, jornalista e “vizinho eterno” do bairro, recorda, com saudades, que Caputo é muito maior do que a pequena zona vulgarmente chamada ‘Prédios do Caputo’. Este mítico bairro ganhou grande visibilidade com a construção dos cinco prédios enumerados numa sequência que vai do F1 ao F5 e que se tornaram num dos cartões de visita da circunscrição.

Para elucidarmos melhor o leitor, o bairro Caputo é, concretamente, a zona dos prédios em que acedemos pela rua Lino Amezaga (que já foi nos tempos da outra senhora conhecida como rua Dom João II).

Manuel Agostinho, antigo morador, conta que a extensão do bairro do Caputo ia até à zona do Soeiro, na rua principal do actual Centro de Saúde do Rangel.

“Saudades daqueles tempos em que nós, garotos, roubávamos alguns tostões dos bolsos dos nossos progenitores para comprar bilhetes de cinema, para assistir aos shows de artistas no Ngola Cine às quintas-feiras, o Dia do Trabalhador, e nas primeiras segundas-feiras do mês, as chamadas Aguarelas Angolanas”, conta Manuel Agostinho, vulgo Manelas.

A versão de Beto Caputo

Em 1974, no fervor da revolução, na capital, além de ser designado comandante da base do MPLA no Caputo, Beto viu o seu nome ser associado ao bairro. O antigo guerrilheiro do MPLA conta, no livro “A Garra”, publicado em 2012, as suas “façanhas”, e não só, enquanto adolescente e jovem militar.

Foi nas extintas Força Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) que ele ganhou o apelido Beto Caputo, pelas mãos do actual general na reforma João Luís Neto “Xieto”.

“Só posso dizer que o nome surgiu porque havia muitos Betos no grupo: Mbeto Traça, Beto Van-Dúnem, Beto Martins e não sei quem mais. No entanto, para me diferenciar dos demais disse que ‘a partir de hoje vamos tratar-te por Beto Caputo’. Foi a partir dessa data que fiquei com esse apelido, porque o meu nome completo quase ninguém conhecia”, revela na publicação.

O antigo guerrilheiro diz mais adiante, no seu livro, que com a vinda da primeira delegação do MPLA a Luanda, o seu nome começou a ser citado com frequência como sendo do bairro.

“Foi a partir dessa altura que o bairro começou a ser chamado Caputo, em alusão ao meu nome e até hoje ficou mesmo bairro do Caputo”, enfatiza.

General de três estrelas, Beto Caputo, pseudónimo de Arnaldo Alberto Barbosa, nasceu no bairro Sambizanga em 1945, numa pequena loja onde o seu pai, um comerciante português, vivia com uma negra, por sinal, sua mãe.

Em 1957 vai para a escola dos padres no São Paulo, onde faz a instrução primária. Em 1963 faz o Liceu no D. Crisóstomo e em 1965 teve que se apresentar ao serviço militar obrigatório, onde foi dado como compelido. E isto lhe custou bem caro, como descreve no seu livro “A Garra”.

A publicação diz ainda que em 1967 Beto Caputo faz a recruta no grupo de artilharia de companhia e passa a soldado-condutor. Um dos seus primeiros instrutores foi Salviano de Jesus Sequeira “Kianda”, que na altura era 1º cabo instrutor.

Posteriomente foi enviado a Cabinda, onde alguns meses depois, em companhia de companheiros, fugiu para o Congo com a farda e arma dos portugueses, integrando-se numa célula clandestina do MPLA.

O antigo guerrilheiro do MPLA recorda ainda no seu livro que foi no Congo onde Agostinho Neto lhe pediu, na véspera da independência, que regressasse para ajudar na abertura dos primeiros comités do movimento, entre os quais o mais célebre, instalado na rua da Dona Amália, no actual Distrito Urbano do Rangel, em Luanda.

“Acho que viu que este gajo, como é inteligente, deve ir a Luanda. Como é filho de branco até devemos aproveitar essa vantagem”, relembra o antigo guerrilheiro.

No livro, o autor conta que “com uma notável organização foi possível organizar o Comite de Acção da Dona Amália, e um outro de pequenas dimensões no Caputo, para apoiar o pessoal”.

O antigo guerrilheiro conta que foi a partir daquele momento que o bairro começou a ser chamado Caputo, em alusão ao seu nome, o que perdura até aos dias de hoje.

Questionado sobre essa versão, Manuel Lopes, antigo morador, homem que plantou a frondosa mulembeira próximo da Cervejaria Angolana, diz que a narrativa não corresponde à verdade. “O Beto Caputo lhe foi atribuído esse apelido apenas para diferenciar de outros Betos e não por estar associado à criação do bairro”, diz peremptoriamente.

Ir ao passado do Caputo é como fazer uma viagem ao centro da história de pelo menos 70 famílias que nos últimos 46 anos lá viveram ou ainda vivem.

Trumunos e craques da bola

No emblemático bairro do Caputo despontaram craques da bola nos grandes trumunos que se realizavam sob o sol ardente e que tinham como cenário o campo dos blocos. As disputas eram bastante renhidas entre as equipas do bairro e das zonas adjacentes.

Zé Pedro (Zaragateiro), da família António Mafuana, que deu cartas no clube Petro Atlético de Luanda, é uma das figuras lendárias do Caputo. Para além desta mítica figura, despontaram outros grandes craques da bola como o Passos da Silva, o Feijó e o Manuel Garcia (Nelinho).

De craques há muito mais. Destacam-se ainda as antigas glórias do futebol Fernando de Castro Paiva Neto (Kopa), Paulo Miguel (Eusébio) e Carlos Fernando André (Tizinho).

Hermenegildo Tómas Sebastião (Gi), Jorge Alves Veríssimo da Costa (Gito), Joel de Jesus Tomás Sebastião (Jó), Márcio José Guimarães (Cubano) e José Alves Veríssimo da Costa (Zezinho), constam da lista dos “heróis da bola” que o bairro teve no tempo da outra senhora.

Nos tempos idos Caputo não tinha apenas craques do futebol. Havia também outros, na modalidade de basquetebol de rua, como foram os casos do Samuel Carlos Almeida Tomás (Chabaia), António Sebastião Mixinge (Toni Noy), Víctor Manuel Miranda Miguel (Nelo das Botas), Emiliano Cardoso Januário Quibato (Mito), Gonçalves António Eduardo (Tony Calemba) e Nelson da Silva Costa Ribeiro (Man Dadas).

Naquele período, entre 1960 e 1970, a massificação desportiva no antigo Bairro dos Eucaliptos, como também chegou a ser designado o Caputo, era tão intensa e competitiva que, fruto desta acção, a circunscrição viu os seus atletas a emergir em clubes de grande dimensão e gabarito da cidade de Luanda.

É importante realçar aqui que os grandes trumunos de futebol ao sol ardente, bem como as partidas solidárias e amigáveis de basquetebol de rua eram disputadas taco a taco, com bastante “virilidade”. Mas no final prevalecia sempre a confraternização e não o resultado em si. De resto, era assim que os garotos do bairro, e não só, desfrutavam dos seus tempos livres.

“Como em qualquer bairro suburbano, de segunda a sexta-feira os jovens estudavam ou trabalhavam, e os sábados e domingos, dias de descanso, eram transformados em jornadas desportivas e de outro tipo de entretenimento”, conta Manuel Agostinho.

Triângulo dos Congolenses versus Caputo

No tempo colonial, entre a estrada de Catete e a avenida Brasil, o separador Leste até ao Triângulo era uma pequena “floresta” de eucaliptos que passou a chamar-se Triângulo do Caputo.

Para quem estivesse na estrada de Catete e se dirigisse a este triângulo havia, na sua trajectória, pequenas residências do lado direito, passando pelo Lar do São Vicente, no quintal da casa do explicador Menino Neco, até à Cervejaria Angolana, onde agora está a Tecnomant, junto da primeira pedonal metálica.

O Triângulo do Caputo, também conhecido como dos Congolenses, sempre foi um espaço de convergência política e cultural, no tempo colonial e no período da revolução.Este emblemático e histórico pedaço de terra era, por assim dizer, o ponto de encontro de nacionalistas que iam aos Congos e aos CIR (Centros de Instrução Revolucionário).

O Triângulo do Caputo também já foi um pólo de atracção pela sua actividade económica (comercial), a começar pelo próprio mercado dos Congolenses. O Caputo, ainda no tempo colonial, contava já com uma farmácia, drogaria e até um laboratório do ervanário Sambo.

Em termos de diversão contava também com uma sala de espectáculos, o Cine Ngola, local onde, nos anos 1970, Urbano de Castro se estreiou, não como músico mas como malabarista, levantando um barril de vinho com os dentes.

O bairro sempre foi famoso. Lá viveram figuras carismáticas, como o popular e saudoso músico Waldemar Bastos e o andebolista e dirigente desportivo Pedro Godinho.

O músico Proletário também viveu nesta renomada circunscrição. Nascido em 1957, no município do Waku Kungo, Proletário começou a carreira em 1970, ainda na sua terra natal, mas se tornou conhecido por volta dos anos 1972 e 1973 no bairro do Caputo, onde fazia actuações esporádicas no Centro Recreativo e Cultural Maria das Escrequenhas, actual Kilamba.

A lista de músicos e figuras públicas que passaram pelo Caputo é extensa e inclui Robertinho, um malanjino de gema cuja música contagia e leva multidões ao delírio.

Nos anos 1960 e 1970, a famosa rua Lino Amezaga, que sai da estrada de Catete até à zona do Triângulo, era o local onde os garotos aproveitavam as horas livres para andar de trotinete, sob o olhar atento da polícia.

A discoteca Kaxicane era um ponto de referência da juventude que saía do Caputo e se deslocava para lá para desfrutar de momentos de lazer.

Centro Comercial Dimaca

O Centro Comercial Dimaca, pertencente a um comerciante português, na época colonial era o local onde a maioria dos habitantes do bairro Caputo se dirigia com frequência para adquirir bens de primeira necessidade.

O centro possuía restaurantes, lojas e outros estabelecimentos comerciais. António Ngunguila, um dos antigos frequentadores assíduos, diz que o Centro Comercial era de se lhe tirar o chapéu porque lá havia de tudo um pouco.

“Éramos felizes mas não sabíamos. As lojas, os restaurantes e outros compartimentos de vendas estavam sempre à altura de satisfazer os clientes. Os produtos, na sua maioria nacionais, satisfaziam as nossas encomendas”, recorda nostálgico António Ngunguila. No entanto, não era apenas da Dimaca que viviam os “caputuenses”.

Além deste Centro Comercial havia a loja do senhor Reis, antes habitada pela família do tio Duia, que foi motorista dos Serviços de Saúde.Na loja do senhor Reis era possível também adquirir bens de primeira necessidade, e não só,mas em pequena escala.

De recordações não é tudo. Numa outra vertente, o bairro tinha nos anos 1960 o Barrabás e o Rui Pires, jovens de grandes desafios quando se tratava de lutas. Ambos eram tios do falecido jornalista da TPA Edgar Cunha, que também viveu na circunscrição.

O músico António Paulino, o jornalista Ernesto Bartolomeu (proveniente de uma família Tocoista), o Kota Pedrito (pai do músico Puto Português), bem como o velho Joaquim Kandanje da Pulungunza também residiram no bairro, onde existia um Centro Recreativo e Cultural denominado Kaxikane, que ficava situado entre o Centro Comercial Dimaca e a zona fronteiriça da Terra Nova.

Era neste estabelecimento cultural onde a juventude do Caputo se dirigia com frequência para desfrutar de uma boa música e um pé de dança aos fins de semana.

De referências não é tudo. Havia igualmente no bairro a Panificadora Angolana, que ficava ao lado da Cervejaria Angolana (actual farmácia Kaxicane), onde a juventude de então não dispensava um copo.

O Menino Neco também deixou a sua marca no bairro. Pelas mãos deste professor passaram petizes que hoje são grandes figuras que dão o seu melhor em várias instituições públicas e privadas. O jornalista reformado João Damba foi um desses alunos.

Kamacoa e Macaco Cão

À semelhança do que acontecia noutros musseques de Luanda, nos anos 1950/60 e 70, o bairro do Caputo contava também com agentes da PIDE, que, nas suas rondas, surpreendiam e “estremeciam” o bairro, impondo o terror.

Quando se tratasse de rusgas e buscas, o medo e a desconfiança eram notórios no rosto dos jovens, que temiam pela vida assim que vissem, de longe, o aproximar de um jeep verde escuro igual ao dos dois temíveis agentes da PIDE, os famosos Kamacoa e Macaco Cão.

Havia rusgas constantes em tudo quanto era canto no bairro, para deter os jovens acusados de serem “terroristas” pelos informantes. Kamacoa era um mulato gigante, com características de “Hércules”.

Proveniente de Goa, onde tinha as suas origens, Kamacoa era um autêntico bufo da PIDE que semeou o terror no Caputo. Segundo relatos de antigos moradores, ele “agarrava” os suspeitos e os levava à esquadra sem culpa formada.

O outro bufo,que a população apelidou de Macaco Cão, desdobrava-se entre o musseque Rangel e o Caputo a bordo do seu Jeep, não dando trégua aos autóctones que gostavam de mergulhar na boémia.

Os policiais actuavam em tudo que era convivência pacífica, como farras, reuniões familiares, encontros de amigos e noutros momentos de confraternização. As ocorrências chegavam aos ouvidos do Macaco Cão através dos informadores, que a população convencionou designar por bufos. Logo de seguida Macaco Cão aparecia de surpresa no local para actuar.

Segundo relatos de antigos moradores, num dia normal, no ano de 1970,Kamacoa quis surpreender um grupo de jovens que estavam em amena cavaqueira no único fontenário que o Caputo possuía, só que não conseguiu apanhar ninguém, ficando molhado da cabeça aos pés. Isto é, foi mal sucedido.

Ainda o historial

Inicialmente o bairro Caputo tinha o nome de Bairro dos Eucaliptos. Era nessa área dos eucaliptos onde, em 1963, as comunidades indiana e cigana comercializavam, numa espécie de feira debaixo das árvores, roupas usadas (fardos) e quinquilharias.

A plantação dos eucaliptos pela Câmara Municipal de Luanda tinha como objectivo, como dito acima, enxugar as águas salobras. Próximo do polígono florestal passava um ramal da linha dos Caminhos-de-Ferro de Ambaca (Luanda) que, proveniente da Estação da Cidade Alta, na Maianga, seguia em direcção às fábricas moageiras instaladas no bairro do Kikolo, e não só.

No tempo colonial, populações que viviam numa determinada área do Rangel foram transferidas para o bairro do Caputo devido às enormes enchentes de águas salobras nas suas residências.

A implantação do polígono florestal foi crucial no asseguramento da área, pois só um eucalipto era capaz de “sugar” grandes quantidades de água.

Relatos de alguns moradores apontam que vários cidadãos que hoje residem nas B’s e nas C’s são provenientes do Rangel, onde lhes foram partidas as casas para dar lugar à plantação de eucaliptos.

Foi depois dos anos 1960 que o Caputo foi, por assim dizer, “invadido” por grandes construções. O bairro faz fronteira a Sul com a Terra Nova, a Norte com a Avenida Brasil (zona do Triângulo) e a Leste com o mercado dos Congolenses.

O Caputo tinha no tempo colonial vários locais de referência. Um deles era a Cervejaria Angolana. Era nesse local onde muita malta se concentrava para desfrutar da cerveja Cuca preta, da Nocal e de outras marcas, geralmente na forma de fino, isto é, cerveja a copo servida a pressão.

A outra malta jovem do outro lado da estrada de Catete, hoje Deolinda Rodrigues, preferia tomar (beber) um quarto de vinho ou aguardente “AAA do Lobito”. Quando observassem à distância o carro da patrulha policial a chegar, apelidado de “viúvinha”, metiam-se em fuga.

A Farmácia Galênica também é uma das referências do bairro. Era neste estabelecimento farmacêutico onde os moradores acorriam quando quisessem adquirir medicamentos.

Simão Toco residiu e faleceu no bairro

No início dos anos 1970, o profeta Simão Gonçalves Toco, líder da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, passou a residir neste pequeno pedaço de terra chamado Caputo. Essa mudança aconteceu quando o carismático líder Tocoísta entendeu deixar o bairro que ajudara a fundar juntamente com a sua comunidade cristã, o São Paulo de Luanda (Congolenses), e, por motivos complexos, decidiu ir viver aí bem próximo, no Caputo.

Consta que o profeta da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo neste novo bairro morava numa residência não com os seus filhos, mas sim com um elenco escolhido a dedo pela igreja, com destaque para as manas Rosalina, Cumbelembe, Tio Lopes (seu médico pessoal) e alguns anciãos.

É no bairro do Caputo, nas cercanias do antigo Centro Comercial Dimaca, onde hoje se encontra confinada a maior tribo da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, na província de Luanda.

A reportagem do Jornal de Angola constatou que a lendária e histórica residência de Simão Gonçalves Toco, no Caputo, foi depois da sua morte transformada numa das representações da Congregação em Luanda, a par da Igreja Central, erguida na rua Comandante Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, no Golfe 2.

Antes de se transferir para o Caputo, na área do professor Menino Neco, o líder fundador do Tocoísmo residiu durante muito tempo na rua de Bucu Zau, na zona central do antigo Bairro São Paulo de Luanda, actual Congolenses, considerado como o Berço do Tocoísmo.

A modesta casa onde residiu Simão Toco, no rés-do-chão de um dos blocos, ainda se mantém intacta, e é lá onde reside actualmente um ancião que cuida, religiosamente, da estrutura patrimonial da Igreja Tocoísta.

A rua de Buco Zau é, por sinal, muito movimentada e geograficamente está localizada no coração do Bairro dos Congolenses, entre os blocos 1, 14, 7 e 8.Considerada uma zona de paz e bastante religiosidade, a Sagrada Rua de Buco Zau, como era tratada no tempo colonial, foi o principal local de culto dos Tocoístas de 1957 a 1991, até ao desmembramento da Igreja e a construção de diversos templos espalhados por todo o território nacional.

Dados oficiais indicam que o líder da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, Simão Gonçalves Toco, nasceu em 1918 na localidade de Sadi-Zulumongo, Ntaia, Maquela do Zombo, Uíge.

Por César André, in JA

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