
De acordo com o ritual da manifestação popular mais bonita de Angola, o Carnaval é tempo de euforia, de cor, de brilho, de encenação e… de ninguém se levar a “maléeh”, pois é momento de festa.
Cada grupo interpreta o seu estilo de actuação, ensaia o seu desfile e encanta o público com ritmo, dança e espectáculo. Coisa gira de se ver. Mas, terminado o desfile, a realidade volta — e é ela que conta.
É precisamente essa imagem carnavalesca que melhor descreve o actual pensamento estratégico dos partidos da oposição política no país, que a tungir e a mungir afirmam que de um jeito ou de outro, têm de vencer as eleições de 2027, sem ninguém, e nem eles próprios saber como.
Passemos adiante.
Tal como num desfile bem ensaiado, as cores brilham, as alegorias são apresentadas com entusiasmo e as canções tocam de tal forma que mexem com a cabeça e os corações dos espectadores. Mas, tal como no Carnaval, nem sempre o brilho significa coerência.
Hoje, a oposição em Angola, que ainda está encabeçada pela UNITA, apresenta-se dividida em duas avenidas distintas, que, digo-vos já, nem de longe, nem de perto são melhores do que a nova marginal de Luanda, ou seja: a Frente Patriótica Unida (FPU) e a chamada Ampla Frente para a Alternância do Poder em Angola.
Dois blocos que prometem o mesmo desfile, mas ensaiam em palcos diferentes, e muitas vezes com “comandantes, “reis” e “rainhas” híbridos que disputam um único pé de dança.
O problema não é a diversidade. Em democracia, ela é saudável. O problema é a ausência de uma coreografia comum.
Enquanto o MPLA mantém estrutura orgânica definida, cadeia de comando clara e estratégia contínua no terreno, a oposição parece apostar na política do improviso — onde cada “kazucuteiro” e “sembacuteiro”, quer ser destaque principal do desfile.
A Frente Patriótica Unida nasceu como promessa de convergência. Contudo, cedo revelou tensões internas, protagonismos sobrepostos e dificuldades em harmonizar agendas.
Já a chamada Ampla Frente para a Alternância, que até hoje ninguém sabe se vai ser “rapaz, menina ou gingongo”, surge como uma espécie de bloco carnavalesco improvisado: agrega muitos foliões, mas ainda não apresentou um guião consistente de governação.
Aqui reside a fragilidade central: confundir ajuntamento com unidade estratégica.
Em política, como no Carnaval, não basta juntar figurinos coloridos para garantir vitória. É preciso coordenação, mensagem clara e liderança reconhecida.
O eleitor não procura apenas espectáculo; procura segurança, previsibilidade e projecto. Vota a favor de um caminho, não apenas contra um adversário.
A fragmentação em duas frentes tende a dispersar votos, diluir mensagens e transmitir imagem de desorientação.
Muitas máscaras, muitos discursos, muitas promessas — mas sem um fio condutor que convença o eleitorado de que existe um plano sólido para governar.
Se a oposição não abandonar a lógica de desfile competitivo interno e não construir uma verdadeira coreografia comum, corre o risco de transformar o entusiasmo momentâneo numa ressaca estratégica.
Em 2027, não vencerá quem fizer mais barulho na avenida. Vencerá quem apresentar projecto, estrutura e confiança.
E na avenida “eleições 2027” — que é bem menos festiva do que o Carnaval — organização e consistência continuam a pesar mais do que fantasia.
Ehueee ééhhh carnavalee, nume leva a maléeee!!!!!