
Respeitosos cumprimentos!
Excelência,
O signatário desta missiva, mais conhecido pelo pseudónimo de Kalumbondja-mbondja Ya Ndemufayo (Joaquim Trindade), é telespectador assíduo, atento e regozijante do vosso programa. Pelo que, endereça os seus parabéns!
Contudo, Excelência, dê um espaço e tempo de leitura a fim de que possa esgrimir algum desconforto que sinto do fundo do coração (ab imo pectore): a mídia, concretamente (o programa em alusão), também, é violenta!
Ora, reparai, sempre que um pacato cidadão comete algo desonesto, ou feito à margem das boas regras de urbanidade, o apresentador solicita ao realizador (regí) que dê uns bons chicotes. Que se diga, em abono da verdade, que aquele estalido de chicote pode aumentar, inconscientemente, em algumas mentes, mais violência.
Assim, temos de concordar com o prestigiado autor Luís Fernando Veríssimo quando diz que carregamos a nostalgia do escravo que se dobra (através do chicote) diante do seu senhor. No fundo, aquele vosso gesto, no programa, mexe com o inconsciente de quem ainda não aprendeu a lutar por seu espaço de se fazer respeitar e respeitar os outros.
Que tal, não seria bom, Excelência, reflectirem sobre o estalido do chicote, se, ainda, é tão, assim, pedagógico, num programa da res pública?
Penso que, data venia, aquela inovação (refiro-me ainda ao chicote) no programa de todos nós, pode ser entendida, pelos mais atentos, como a forma mais explícita e evidente de reacção desviada, supondo o uso de técnicas novas ou ilícitas para a minoria dominante subrepor-se à maioria dominada.
Votos laborais, sem chicote. Obrigado.
Subscreve, o vosso fâmulo, Kalumbondja-mbondja Ya Ndemufayo, de 59 anos e residente em Luanda, Angola.