
Os agentes de campo selecionados para o Recenseamento Geral da População e Habitação de 2024 em Angola manifestaram profunda insatisfação com as condições de trabalho e a gestão do processo por parte do Instituto Nacional de Estatística (INE) e do Governo.
Através de uma carta de repúdio enviada à redacção do Imparcial Press, os agentes denunciaram o que consideram ser uma grave falta de organização e respeito com os profissionais encarregados de uma tarefa fundamental para o planejamento e desenvolvimento do país.
Segundo o grupo de agentes, a formação prévia ao início do recenseamento foi marcada por uma série de problemas logísticos e operacionais que comprometeram tanto o bem-estar quanto a eficiência dos profissionais envolvidos.
Entre as principais queixas estão a falta de transporte adequado para os deslocamentos diários e a ausência de alimentação em condições mínimas de qualidade.
“Fomos forçados a gastar dinheiro do próprio bolso para garantir nossa participação diária na formação, sem qualquer tipo de apoio financeiro ou logístico. Além disso, a alimentação fornecida estava em péssimo estado de conservação, colocando nossa saúde em risco”, afirmaram os agentes na carta.
Esse cenário, descrito como “inaceitável”, é agravado pela falta de comunicação clara entre os organizadores do processo. Os agentes criticam duramente a gestão do INE, acusando o órgão de negligência e falta de planejamento adequado.
Outro ponto crucial da denúncia é a falta de materiais essenciais para o trabalho de campo. Horas antes do início oficial do recenseamento, os agentes relatam que ainda não receberam os tablets, mochilas, t-shirts, chapéus e passes de identificação que deveriam ser fornecidos pelo INE para a realização das suas funções.
“Chegamos ao fim da formação e ainda não temos em mãos os equipamentos e materiais indispensáveis para realizar o recenseamento. Isso não só demonstra desorganização, como também desrespeito pelo nosso trabalho e comprometimento”, destacaram.
Outrossim, os agentes mencionaram a exclusão injustificada de alguns colegas, que mesmo após serem aprovados no processo de recrutamento e participarem da formação, foram arbitrariamente descartados.
“Isso gerou grande apreensão e incerteza entre os que permaneceram no processo, que se perguntam quem poderá ser o próximo a ser excluído sem qualquer razão aparente”, enfatizaram.
Uma das reclamações mais sérias envolve a não formalização dos contratos de trabalho. Apesar de terem concluído a formação e estarem prontos para iniciar o censo, os agentes de campo ainda não assinaram seus contratos, o que gera dúvidas sobre os direitos trabalhistas e a segurança financeira dos profissionais envolvidos.
“Ainda não assinamos nossos contratos de trabalho, o que nos deixa numa situação precária e incerta. Além disso, não recebemos nenhum tipo de subsídio de alimentação, que foi prometido, e o transporte para os locais de trabalho não foi providenciado, mesmo sabendo que muitos de nós precisamos nos deslocar longas distâncias”, afirmam os agentes.
Essa situação, segundo o comunicado, evidencia uma falha grave na organização do processo, que coloca em risco a própria execução do recenseamento. Sem contratos formalizados, os agentes não têm garantias sobre seus direitos, como remuneração, assistência em casos de acidentes ou condições de trabalho justas.
O Recenseamento Geral da População e Habitação é um evento de grande importância para Angola, pois os dados coletados são fundamentais para o planejamento de políticas públicas e para o desenvolvimento de projectos que visam a melhoria da qualidade de vida da população.
Entretanto, segundo os agentes de campo, a falta de estrutura e organização compromete diretamente a confiabilidade do processo.
“A desorganização com que o recenseamento está sendo conduzido coloca em risco o sucesso de um evento que é crucial para o futuro do país. Como será possível realizar um censo eficaz e preciso se aqueles que estão na linha de frente são tratados com tamanha negligência?”, questionam os agentes.
O grupo enfatiza que, para que o recenseamento atinja seus objectivos, é imprescindível que as autoridades tomem medidas imediatas para resolver os problemas relatados.
Entre as exigências dos agentes estão a assinatura dos contratos, o pagamento dos subsídios de alimentação, a entrega imediata dos materiais de trabalho e a disponibilização de transporte adequado para os deslocamentos.
Até o momento, o Instituto Nacional de Estatística e o Governo de Angola não se pronunciaram oficialmente sobre as denúncias e reivindicações dos agentes de campo.
A ausência de resposta aumenta a insatisfação e o clima de incerteza entre os profissionais, que ameaçam boicotar o recenseamento caso suas demandas não sejam atendidas.
O início oficial do recenseamento teve início na madrugada de hoje, mas a situação permanece indefinida. A expectativa agora recai sobre o INE e o Governo, que precisam oferecer respostas concretas e rápidas para garantir o sucesso do censo e, ao mesmo tempo, assegurar condições dignas de trabalho para os agentes de campo envolvidos.