Charles Bois Poaty morre vítima da ‘tala’ que dizia curar
Charles Bois Poaty morre vítima da 'tala' que dizia curar
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O destino pregou-lhe uma partida cruel. O músico e autoproclamado “espiritualista” angolano Charles Bois Poaty faleceu esta segunda-feira, 20 de Outubro, aos 73 anos, em Luanda, vítima de tala, uma doença tradicional que ele próprio afirmava tratar, mas que acabou por o vencer após sete meses de sofrimento silencioso.

A notícia foi confirmada por familiares, que garantem que o artista encontrava-se internado no Hospital Cardeal Dom Alexandre do Nascimento, onde lutava contra uma enfermidade prolongada.

Segundo fontes próximas, o músico teria recorrido a vários métodos espirituais e tratamentos tradicionais, sem sucesso. “Ele acreditava que iria superar, como fez com tantos outros. Mas, desta vez, a tala não perdoou”, lamentou um familiar.

O homem que dizia voar sobre Luanda

Figura carismática e controversa, Charles Bois Poaty marcou a música e o imaginário popular angolano tanto pela sua irreverência artística como pelas declarações explosivas.

O artista afirmava que era bruxo e voava à noite sobre Luanda, conversar com espíritos e prestar consultoria espiritual a políticos e músicos da nova geração que almejavam atingir o sucesso.

“Sou procurado por todos, porque a fama e o sucesso têm um preço espiritual”, dizia, em tom provocador, durante uma das suas muitas aparições mediáticas.

Nas redes sociais e programas de entretenimento, era presença constante, alternando entre momentos de humor, polémica e misticismo.

O feiticeiro que não resistiu à própria maldição

Ironia do destino: o homem que dizia dominar os segredos da “tala”, acabou por ser vítima da mesma doença.

Entre as comunidades angolanas, a tala é descrita como uma praga espiritual – um feitiço transmitido por pó, objectos ou até palavras – e, segundo a tradição, só os experts podem curar. Bois Poaty dizia ser um desses.

“Ele sempre afirmou que ninguém morria de tala sob os seus cuidados. Infelizmente, nem ele escapou”, comentou um dos seus fãs, que lamentou a sua morte.

Um passado de escândalos

A carreira de Charles Bois Poaty foi acompanhada por episódios mediáticos intensos. Em 2017, num dos momentos mais polémicos da sua vida pública, revelou em directo no programa Mbandário (MFM) ter engravidado 32 mulheres e mantido relações sexuais com 25 homossexuais.

“Se fosse possível engravidar gays, já teria engravidado 20”, afirmou, arrancando risos, críticas e manchetes por todo o país.

Noutra entrevista, justificou a sua vitalidade com “muito sexo e meditação espiritual”, acrescentando ter namorado mulheres “de todas as raças e continentes”.

Charles Bois não poupava tabus. Apontava a impotência sexual e o tamanho do órgão masculino como causas principais dos divórcios em Angola, declarações que o tornaram uma figura tão controversa quanto fascinante.

Com uma carreira que misturava música, espiritualidade e provocação, Charles Bois Poaty deixa uma herança difícil de classificar: entre o génio e o escândalo, o curandeiro e o artista.

Para uns, era um visionário excêntrico, para outros, um charlatão genial. Mas uma coisa é certa: o homem que se dizia invencível espiritualmente acaba de provar que, afinal, nem os “deuses da tala” escapam ao destino humano.

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