Colonialismo: Coisas boas das maldades – Artur Queiroz
Colonialismo: Coisas boas das maldades – Artur Queiroz
Museu Escravatura

Marcelo Rebelo de Sousa defende que Portugal não tem que pedir desculpas pelo colonialismo. Entende que a História tem coisas boas e coisas más. Aplaudir o que é bom, criticar o que é mau. O colonialismo é essencialmente genocídio. Em Angola havia uma coisa muito boa.

Os negros podiam requerer o estatuto de assimilados. Mas só era concedido se os candidatos repudiassem a sua condição. Parte muito boa: Sou negro, mas igual aos brancos. Parte má: Os pretos assimilados continuavam pretos.

O comércio de escravos dava muito dinheiro. Coisa boa. Entre 1514 e 1866 foram vendidos e levados para as Américas 12,5 milhões de africanos. Destes, cerca de 30 por cento eram crianças. Coisa muito boa. De pequenino é que se torce o pepino, como diz um ditado popular português. A mercadoria era embarcada nos navios negreiros. Parte má: Quase dois milhões morreram nas viagens. Prejuízo!

Parte boa da História: O primeiro embarque de escravos africanos para o Brasil ocorreu em 1530, na expedição de Martim Afonso de Sousa.

Parte má: O Castelo de São Jorge da Mina (Gana), grande entreposto português da escravaria, levou um ano a erguer. Falta de pedreiros e carpinteiros! O negócio de escravos parado. Prejuízos. Depois entrou na normalidade.

Concluída a obra, os navios negreiros portugueses levaram rapidamente 30.000 escravos africanos para o Brasil. Os últimos aconteceram entre as décadas de 1850 e 1860, quando o tráfico negreiro já era ilegal. Parte má: O Castelo de São Jorge da Mina hoje é Património da Humanidade. Lá se foi o tráfico de escravos!

Parte boa da História ainda que pouco conhecida. O primeiro grande negócio de escravos em Portugal teve como protagonista o Infante D. Henrique. Aconteceu na cidade algarvia de Lagos, no ano de 1444. Mais de 200 escravos africanos, homens, mulheres e crianças, foram leiloados.

Estavam presentes dezenas de interessados. Mas poucos ficaram com a mercadoria. Só os que deram mais dinheiro por cabeça.

Parte má. Esta cena que enche de orgulho, portugueses e toda a Humanidade é descrita pelo cronista Gomes Eanes de Zurara na “Crónica dos Feitos da Guiné” encomendada ao autor pelo próprio Infante D. Henrique. Parte boa: Ninguém leu aquela porcaria.

Parte má da História: A escravatura foi abolida em Portugal no século XIX. Todos os escravos foram libertados. Parte boa da História: Eram obrigados a trabalhar mais dez anos para os patrões. Poucos chegaram à liberdade. E quem chegou foi vítima de segregação racial violentíssima.

Parte boa da História: A liberdade dos escravos não significou a igualdade de direitos e oportunidades. Parte óptima da História: Cronistas da época descrevem Portugal como um território de “escravos negros e mouros cativos”. A massificação aconteceu a partir do século XV.

Parte má da História. No século XXI escravos africanos e mouros cativos foram reforçados por escravos asiáticos. Parte boa da História: O governo do senhor Montenegro não quer escravos pretos, brasileiros e asiáticos.

Vai pôr os 60 deputados fascistas do partido Chega a vergar a mola. Já estou a ver o tauromáquico Pedro Pinto e a flausina Rita Matias trabalhando à força nas estufas do Alentejo.

Parte boa da História: O escravagismo em Angola durou até ao triunfo da Revolução de Abril em Portugal. Parte má da História: Os angolanos correram com os escravagistas e libertaram os escravos.

Parte real da História: Se Angola tivesse o pior governo do mundo e os políticos mais incompetentes, ainda assim eram melhores do que todos os governos e todos os políticos portugueses até Julho de 1974, quando foi corrido de Angola o general Silvino Silvério Marque, defensor dos independentistas brancos.

Um angolano residente em Portugal enfrentou o político português na vanguarda do fascismo, André Ventura. Disse-lhe sem papas na língua:

– Vocês andaram a roubar-nos cinco séculos em Angola. Tu és racista.

E o rapaz suburbano, guardião do fascismo salazarista, usou um argumento muito inteligente:

– Então porque estás em Portugal?

Resposta imediata:

– Vim recuperar o que nos roubaram!

Eu vivi na Angola profunda do Negage, Camabatela e Uíge. Percorri todas as picadas entre Negage e Maquela do Zombo. Entre o Negage, Puri e todo o nordeste até Malanje. Todo o Vale do Loje. Todo o Congo Português. A picada para Luanda pelo Ambriz, Libongos e Caxito. A picada para Luanda via Dala Tando e Dondo. Andei pelas terras do algodão até Kassanje.

Vi chicotear, roubar e matar angolanos. Vi milhares de escravos. Marcelo Rebelo de Sousa tem razão. Os crimes hediondos do colonialismo mais o genocídio que lhe está associado não têm desculpa nem perdão.

A cimeira EUA-África que decorreu em Luanda deu 2,5 mil milhões de dólares “em acordos e compromissos de investimentos”. Somados os acordos aos compromissos e noves fora, nada. O costume.

As agências bancárias já encerraram hoje. A administração da Empresa Edições Novembro não pagou nem disse como e quando vai pagar, os salários e subsídios que me deve, há dez anos. Drumond Jaime (presidente do Conselho de Administração da Empresa Edições Novembro), Cândido Bessa, António Samuel Eduardo, Joaquim Pedro Zua Quicuca, Eunice Carla Teixeira Moreno (administradores executivos), Guilhermino Alberto e Victória Quintas (administradores não executivos) fazem figura de caloteiros e ladrões do pão de uma criança, o Nataniel Queiroz. A tutela é conivente com o calote e o roubo. O Titular do Poder Executivo igualmente.

Drumond Jaime, Cândido Bessa, Guilhermino Alberto e Vitória Quintas são jornalistas. Essa condição obriga que em cada fracção de segundo das suas vidas, sejam capazes de viver entre as fronteiras da honra e da dignidade. Não há ordem superior que se sobreponha à honra e à dignidade dos jornalistas.

Vão pagar.
Kinga ainda!

*Jornalista

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