
A propósito do paradoxo: “as mudanças de que Angola precisa não podem ser feitas sem o MPLA.”
Dizer que “as mudanças que precisam ser feitas em Angola não se fazem SEM o MPLA” é muito esquisito. É algo sem o mínimo de sentido. É uma “desinteligência”.
A ideia de que “as mudanças que precisam ser feitas em Angola não se fazem sem o MPLA” é, no mínimo, paradoxal. Trata‑se de uma formulação que desafia o mínimo do bom senso: como pode o principal responsável por um problema tornar‑se o seu remédio?
Dizer que o partido que tem governado o país há meio século, e que durante esse período moldou um sistema político e económico inviável, é indispensável para a transformação parece tão ilógico quanto confiar a um piromaníaco a chefia de um corpo de bombeiros.
Este raciocínio esquece que a história recente de Angola é inseparável do peso de um único partido, o MPLA, cuja continuidade no poder se confunde com a persistência dos mesmos entraves ao desenvolvimento e a reconciliação nacional.
De acordo com os estudos de Messiant, Chabal, Soares de Oliveira, Nuno Vidal, e outros, o MPLA ao longo de décadas consolidou um aparelho de poder fundado na captura do Estado e na fusão entre estruturas públicas e interesses partidários.
Essa máquina beneficia de uma rede de clientelas e corrupção endémica que drena recursos, sufoca a iniciativa privada e esvazia a ideia de serviço público.
A repressão cívica, o domínio dos meios de comunicação e as manipulações eleitorais dificultam a emergência de alternativas. Nesse contexto, falar em “mudança com o MPLA” equivale a pedir a um corredor que vença uma maratona com as pernas amarradas.
O MPLA não é um simples participante do processo democrático, mas o elemento que o vicia desde a origem. A experiência mundial oferece paralelos esclarecedores.
No México, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) governou durante 71 anos consecutivos, ergueu um regime autoritário vestido de democracia.
Durante esse período alguns diziam que as mudanças não seriam possíveis sem o PRI. Contudo, quando a sociedade mexicana conseguiu afastá‑lo do poder, em 2000, abriu‑se espaço para uma nova dinâmica política, com todas as dificuldades e desafios inerentes.
O mesmo raciocínio vale para Angola: enquanto o MPLA permanecer no centro do sistema político, a regeneração será mais retórica do que real. A mudança não se fará com o MPLA, mas apesar dele; o EME faz parte do problema, não da solução.
A grande viragem que Angola reclama depende de uma ruptura com este passado. Para que o país avance, diversifique a economia, democratize a vida política e regenere as instituições é necessário superar o MPLA e não continuar a acomodar‑se à sua hegemonia.
Persistir na crença de que o guardião do imobilismo pode guiar o futuro é perpetuar o próprio imobilismo. O caminho da mudança passa por dar espaço a novas forças políticas e sociais, reconstruir a confiança nas instituições e empoderar os cidadãos.
Somente assim o discurso da transformação deixará de ser uma fórmula vazia e se tornará um projecto colectivo de verdade.
*Sociólogo