
“O exemplo arrasta todos, sem necessidade de expressar palavras algumas.”
A comunicação política e a opinião pública são pilares fundamentais para o funcionamento das democracias contemporâneas, especialmente em contextos desafiadores como o de Angola.
Essas áreas interligam-se profundamente, sendo essenciais para a articulação do debate público e a formação de uma sociedade mais consciente e participativa.
A comunicação política refere-se ao processo de transmissão de mensagens entre atores políticos, cidadãos e mídia, visando influenciar percepções, comportamentos e decisões.
A opinião pública, por sua vez, é a expressão coletiva das atitudes e crenças da sociedade sobre temas políticos e sociais.
Compreende-se hoje que a opinião pública é um fenômeno complexo, que não pode ser abordado com simplificações. Como salientam Martino e Marques (2020), ainda prevalece a ideia de que a opinião pública é amplamente moldada pela mídia.
Embora esta desempenhe um papel influente, é necessário reconhecer que múltiplos fatores estão em jogo na formação de opiniões sobre candidatos, políticas públicas ou acontecimentos.
Fatores emocionais, por exemplo, são frequentemente explorados em discursos políticos para mobilizar eleitores e moldar percepções.
Nas democracias, como a angolana, a comunicação política desdobra-se em dois momentos distintos: durante as campanhas eleitorais e no período de governação.
A comunicação eleitoral visa conquistar ou manter o voto do eleitorado, enquanto a comunicação governamental, que se desenvolve durante o mandato, busca promover uma governação eficaz, pautada no diálogo com a sociedade (Panke e Pimentel, 2018).
A distinção entre esses dois tipos de comunicação é essencial para evitar confusões frequentes entre aqueles que não estão familiarizados com os estudos da comunicação política.
Em geral, o grande problema e desafio reside na falta de adequação do discurso eleitoral às políticas públicas que impactam diretamente a vida da população.
A interdependência entre a comunicação política e a opinião pública é evidente. A opinião pública é, em grande parte, moldada pelas narrativas que circulam nos meios de comunicação, redes sociais e discursos de líderes políticos.
Neste contexto, a teoria da espiral do silêncio, de Elisabeth Noelle-Neumann, em The Spiral of Silence (1984), ajuda a compreender este fenômeno em Angola.
A autora argumenta que os indivíduos podem suprimir as suas opiniões por receio de isolamento social. Em sociedades como a angolana, onde os laços comunitários são fortes e a divergência de opiniões é vista como uma ameaça à harmonia social, esta dinâmica é particularmente evidente.
A concentração de poder económico e político em poucas mãos intensifica o silenciamento de vozes dissidentes, que temem represálias.
No entanto, a proliferação das redes sociais e o crescente uso de plataformas digitais oferecem novas oportunidades para romper com esta espiral do silêncio, desde que não extrapolem os limites do razoável, como alguns fazem, prejudicando uma convivência democrática harmoniosa.
Embora a pressão social continue a ser um fator limitante, o ambiente virtual cria espaços para a manifestação de opiniões críticas, permitindo que grupos antes silenciados possam agora organizar-se e apoiar-se mutuamente.
Incentivar a diversidade de opiniões nesses fóruns digitais pode fortalecer a democracia em Angola, olhando a diferença como fonte de criatividade, aperfeiçoamento dos mecanismos democráticos e não de ameaça.
A mídia desempenha um papel crucial na mediação entre as elites políticas e a população. A forma como os factos são apresentados e enquadrados influencia diretamente a formação da opinião pública.
Max McCombs e Donald Shaw, com a teoria da agenda-setting, destacam que os meios de comunicação podem não determinar o que as pessoas pensam, mas conseguem definir sobre o que as pessoas pensam.
Em The Agenda-Setting Function of Mass Media (1972), os autores defendem que, ao selecionar certos temas, a mídia estabelece a agenda do debate público.
No contexto angolano, essa teoria ajuda a compreender por que questões cruciais, como a corrupção ou o acesso a serviços básicos, podem ser ofuscadas por outros temas menos relevantes.
Assim, o desafio da mídia estatal e privada deve refletir-se nas necessidades reais da população, promovendo um debate que contribua para o desenvolvimento sustentável e a justiça social.
Uma mídia mais independente e pluralista continuará a contribuir para uma discussão mais aprofundada sobre temas como a desigualdade social, a educação e o combate à pobreza.
A comunicação política é também retroalimentada pela opinião pública, que fornece feedback aos governantes e partidos. Pesquisas de opinião são ferramentas fundamentais para os estrategistas políticos, que ajustam as suas mensagens e políticas com base nas percepções dos eleitores.
Jürgen Habermas, em The Structural Transformation of the Public Sphere (1962), argumenta que o debate racional deve ser o eixo central da formação da opinião pública.
Defende, igualmente, que a esfera pública deve ser um espaço inclusivo e acessível, onde os cidadãos possam debater questões de interesse comum.
Para Angola, o desafio é criar uma esfera pública mais inclusiva, permitindo a participação de todos os cidadãos, independentemente da sua posição social ou económica.
O acesso desigual à informação, especialmente em áreas rurais, ainda limita a realização desse ideal. No entanto, as plataformas digitais podem servir como ferramentas de democratização do espaço público, possibilitando que todos possam, finalmente, ter voz.
Walter Lippmann, em Public Opinion (1922), apresenta outro desafio: a opinião pública é frequentemente moldada por pseudoambientes, ou seja, por representações distorcidas da realidade apresentadas pelas elites.
Essa manipulação serve aos interesses privados dessas elites, muitas vezes em detrimento do bem-estar social.
Em Angola, isso reflete-se, de certa forma, no descompasso entre os discursos políticos e a realidade vivida pela população. A percepção pública pode ser desviada das verdadeiras demandas sociais, como saúde, educação e emprego, por distrações que nada acrescentam ao bem-estar coletivo.
Para enfrentar esse problema, é necessário promover a literacia mediática da população, tornando os cidadãos mais críticos e capazes de identificar manipulações.
O fortalecimento de uma mídia acessível a todos é essencial para fornecer à população as ferramentas necessárias para resistir às distorções da realidade e exigir políticas públicas que respondam eficazmente às suas necessidades.
A comunicação política sem uma opinião pública atuante seria disfuncional num regime democrático. Em regimes autoritários, onde o controlo da informação é rigoroso, a opinião pública pode ser suprimida ou manipulada.
Contudo, em democracias, a opinião pública é essencial para legitimar o processo político. Para melhorar a qualidade da democracia em Angola, é crucial fortalecer uma esfera pública inclusiva e promover uma comunicação política transparente.
A sociedade civil desempenha um papel fundamental neste processo. O uso de novas tecnologias e redes sociais pode ser uma ferramenta poderosa para romper a espiral do silêncio e promover um debate público mais autêntico e pluralista.
Estas ações são essenciais para transformar a comunicação política numa ferramenta de emancipação social e justiça, contribuindo para o bem-estar coletivo e o fortalecimento da democracia em Angola.
Finalmente, é fundamental salientar que a comunicação política, quando bem utilizada, pode ser um instrumento poderoso para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.
A criação de mecanismos que incentivem a transparência, a responsabilidade e a participação dos cidadãos é o caminho para garantir que a opinião pública seja respeitada e que os governantes e governados sejam responsabilizados pelas suas ações.
Apenas assim Angola poderá alcançar uma democracia mais forte e um bem-estar social mais abrangente para toda a sua população.
“O exemplo arrasta todos, sem necessidade de expressar palavras algumas.”
*Docente universitário, especialista em Comunicação Política, Diplomacia, Políticas Públicas e Cooperação Internacional