Crise estrutural nas Forças Armadas Angolanas – Lando Simão Miguel
Crise estrutural nas Forças Armadas Angolanas - Lando Simão Miguel
genera altino santos

A situação que se vive atualmente nas Forças Armadas Angolanas é alarmante e merece uma análise séria, profunda e sem rodeios. O nível de desorganização atingiu proporções que já não podem ser ignoradas, pois colocam em risco direto a segurança nacional e a estabilidade institucional do país.

A desorganização que hoje domina as Forças Armadas Angolanas tornou-se um problema estrutural que mina gravemente a segurança nacional. O poder político, em vez de fortalecer a instituição militar, acabou por estrangulá-la, criando um vazio perigoso onde a autoridade e a disciplina foram substituídas por improvisação, favoritismo e descontrolo.

A interferência política abriu um verdadeiro buraco negro institucional. Nesse espaço, civis passaram a ser nomeados e promovidos para cargos que, por natureza, deveriam ser ocupados exclusivamente por militares de carreira. Esta prática desvirtua a hierarquia, fragiliza a cadeia de comando e compromete a eficácia operacional das forças armadas.

A corrupção encontrou terreno fértil para se instalar. Não se trata de casos isolados, mas de um fenómeno sistémico que se manifesta em vários níveis: desde a gestão de recursos até às promoções e nomeações. A prostituição, a inveja, a injustiça e outras práticas antiéticas tornaram-se parte do quotidiano, revelando um colapso moral preocupante dentro da instituição.

O Estado angolano investe milhões de dólares na formação de militares em academias nacionais e internacionais. Contudo, esse investimento raramente é aproveitado. Muitos dos quadros altamente qualificados regressam ao país para encontrar portas fechadas, carreiras estagnadas e um sistema que não valoriza competência nem mérito. Como consequência, cresce o número de militares que abandonam as Forças Armadas e optam por emigrar, levando consigo anos de formação especializada.

Esta fuga de quadros não é um fenómeno acidental. É o resultado direto da ausência de políticas de retenção, da falta de reconhecimento profissional e da inexistência de critérios claros de progressão na carreira. As promoções, na maioria das vezes, não obedecem a critérios de mérito, mas sim a influências, interesses pessoais e jogos de poder.

É comum ver sargentos transformarem-se em capitães em menos de um ano, algo impensável em qualquer força armada profissional. Esta aceleração artificial de carreiras destrói a credibilidade da hierarquia e cria uma estrutura desequilibrada, onde parece existir mais oficiais do que sargentos — uma inversão absurda da pirâmide militar.

Para agravar a situação, muitos oficiais promovidos nem sequer ocupam cargos. Permanecem em casa, dedicam-se a negócios privados ou afastam-se completamente da vida militar. Esta ausência de controlo revela um colapso administrativo profundo e uma incapacidade de gerir os próprios recursos humanos.

Outro problema sensível é o número anormalmente elevado de mulheres militares que, em alguns casos, utilizam a farda para alcançar objetivos não profissionais. Não se trata de discriminar mulheres, mas de reconhecer que a instituição falhou na seleção, formação e enquadramento adequado.

Quando a farda é usada como instrumento de ascensão social rápida, e não como símbolo de disciplina e serviço, a segurança nacional fica seriamente comprometida.

A falta de profissionalismo abriu portas para a fuga de informações sensíveis. Os critérios de seleção e enquadramento já não correspondem aos níveis mínimos exigidos para garantir a integridade da instituição. As Forças Armadas Angolanas transformaram-se, para muitos, num escape ao desemprego — e isso representa um risco enorme para a segurança do país.

A farda perdeu o respeito que outrora impunha. Hoje, para muitos, é apenas um uniforme sem significado, desprovido da dignidade e responsabilidade que deveria representar. A corrupção corroeu a instituição desde dentro, enfraquecendo a sua capacidade de resposta e comprometendo a confiança pública.

Há relatos de estrangeiros que conseguiram infiltrar-se e integrar a instituição, algo impensável num país que leva a sério a sua defesa. O orçamento destinado ao setor da defesa é elevado, mas quase ninguém consegue explicar com clareza para onde vai. A falta de transparência alimenta suspeitas e fragiliza ainda mais a credibilidade da instituição.

O número de civis a beneficiar de bolsas de estudo do seguro militar continua a crescer, enquanto os militares — aqueles que realmente deveriam ser apoiados — são frequentemente esquecidos. Esta inversão de prioridades revela uma gestão irresponsável dos recursos públicos e um profundo desrespeito pelos efetivos que servem o país.

Há ainda o problema dos militares abandonados no exterior, sem apoio, sem acompanhamento e sem perspetivas. Esta negligência institucional é um insulto àqueles que dedicaram a vida ao serviço da nação.

A crise nas Forças Armadas Angolanas não é apenas operacional. É moral, ética e estrutural. A disciplina militar, que deveria ser o pilar da instituição, está profundamente fragilizada.

A hierarquia perdeu autoridade porque deixou de ser respeitada. A meritocracia foi substituída por favoritismos e interesses pessoais. A formação militar, que deveria ser um instrumento de excelência, tornou-se irrelevante.

O país investe, mas não colhe frutos, porque não existe um sistema que valorize o conhecimento adquirido. A corrupção tornou-se tão normalizada que muitos já nem a reconhecem como problema.

A falta de fiscalização permite que abusos se multipliquem sem consequências. A infiltração de interesses privados dentro da instituição militar compromete a sua missão fundamental.

A defesa nacional não pode ser tratada como um negócio. A atual situação exige uma reforma profunda, séria e urgente. É necessário reconstruir a hierarquia, restaurar a disciplina e revalorizar a farda.

O Estado deve recuperar o controlo da instituição, mas sem interferir politicamente na sua estrutura técnica. A meritocracia precisa de ser reinstalada como critério absoluto de promoção. A formação deve ser aproveitada e os quadros valorizados. A corrupção deve ser combatida com rigor, transparência e punição exemplar.

Só assim as Forças Armadas Angolanas poderão voltar a ser uma instituição respeitada, profissional e capaz de garantir a segurança nacional.

*Investigador em Segurança e Defesa

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