Crónica de um golpe de estado (em Portugal) – João Melo
Crónica de um golpe de estado (em Portugal) - João Melo
Joao Melo

O partido fascista Chega é o grande vencedor das eleições antecipadas ocorridas em Portugal como resultado do golpe de estado judicial de que o Partido Socialista foi vítima, com o beneplácito, no mínimo, do próprio presidente da República do referido país.

Essa é a leitura mais comum que quase todos, à direita (sobretudo) e também à esquerda, têm feito dos resultados que converteram a organização chefiada por André Ventura na terceira força política portuguesa. Algumas vozes têm dito que se trata de uma leitura apressada. Contudo, apressada ou não, é uma leitura possível.

A verdade é que caiu por terra a ilusão de que Portugal – esse “jardim à beira-mar plantado” – poderia escapar à actual tendência de crescimento da extrema direita e do neo-fascismo em todo o lado.

O que a análise precisa, por isso, de começar por investigar é: como foi possível a uma organização até aqui minoritária tornar-se, de repente, no terceiro partido mais votado em Portugal? Quem votou nesse partido, para que isso se tenha tornado possível?

O discurso “anti-sistema” é, talvez, o principal ponto em comum que une os novos fascistas em todas as paragens. Assim, o Chega usou e abusou desse autêntico mantra, pondo em xeque o funcionamento da democracia e levantando suspeições em relação a todos os políticos.

Contando com a cumplicidade tácita, pelo menos, da grande imprensa local e de alguns procuradores, conseguiu colar a imagem do governo e do Partido Socialista (PS) à “corrupção”, através da criação e exploração mediática até à exaustão de uma série de “casos e casinhos”, estratégia a que o anterior partido maioritário se revelou incapaz de reagir durante a campanha eleitoral.

Obcecado em cumprir religiosamente a Bíblia neoliberal, isto é, as “contas certas”, o PS esqueceu-se da luta ideológica em defesa do Estado social, deixando de enfrentar certos problemas sociais básicos e, sobretudo, abdicando de comunicar genuína e eficientemente com a classe média baixa e as classes populares. Muitos eleitores pertencentes a esses grupos sociais, incluindo jovens, caíram no engodo do Chega.

O racismo e a xenofobia de uma parcela importante da sociedade portuguesa são outro factor que explica a votação no Chega. Sendo esse partido conhecido pela sua postura racista e anti-imigração, o facto de existirem muitos portugueses que se reconhecem nessa postura choca alguns seres bem pensantes.

O actual líder do PS, Pedro Nuno Santos, por exemplo, apressou-se a afirmar que não existem 18% (mais ou menos a votação que teve o Chega) de xenófobos e racistas em Portugal. Ingenuidade, obviamente, o que, para o líder de um partido com vocação de poder, é pouco abonatório.

Isso faz-me lembrar o espanto de alguns respeitáveis comentaristas portugueses, que se declaram chocados com a existência de tanta gente, incluindo jovens, que partilha do discurso anti-imigração do Chega, sendo Portugal “um país de emigrantes”.

Esquecem-se esses comentaristas de uma componente fundamental: o racismo. Ou seja, normalmente, o discurso anti-imigração está associado ao discurso racista, que, embora muitos relutem em reconhecer, é forte em Portugal.

A retórica contra os imigrantes tem um alvo certo: os negros (escuros ou claros), os árabes e os indianos; imigrantes loiros e de olhos azuis ou verdes são bem-vindos.

É preciso, pois, dizê-lo: a sociedade portuguesa, pelo seu próprio passado (Portugal foi o maior país escravocrata da História e aquele que prolongou por mais tempo a sua dominação colonial), não está imune à actual tendência universal de crescimento da xenofobia, do racismo e do fascismo.

Assim, mesmo que alguns votantes no Chega nas últimas eleições portuguesas não sejam xenófobos e racistas explícitos ou vocais, são, inegavelmente, seus cúmplices.

Finalmente, a terceira explicação avançada unanimemente pela análise é que o Chega contou com uma votação expressiva entre os portugueses que, nos últimos anos, se têm abstido. Os números confirmam isso.

Alguns comentaristas portugueses estão, por isso, optimistas: como o Chega, pela sua própria natureza (afinal, trata-se de um partido “anti-sistema”, cuja vocação será o protesto e não a governação), não tem condições de resolver os problemas dos portugueses, muitos daqueles que habitualmente se têm abstido e que, nas últimas eleições, resolveram “experimentar” esse partido voltarão a abster-se no futuro.

A ver, vamos. Essa é, naturalmente, a questão daqui para a frente. Na altura em que escrevo este texto, está claro que a AD conquistou a maioria dos deputados (80, contra 78 do PS e 50 do Chega), devendo, pois, ser chamado a constituir governo; tratando-se, entretanto, de um governo minoritário, ainda não se sabe como é que a AD irá governar, a fim de assegurar a necessária estabilidade governativa.

A verdade é que o futuro imediato, após as eleições de 10 de Março deste ano, está cheio de dilemas para todos os partidos portugueses.

Para começar, a AD só faz maioria se se aliar ao Chega, mas a sua liderança tem insistido que o “não” a essa possibilidade, assumido durante a campanha, é para cumprir. Logo após o anúncio dos resultados eleitorais, várias vozes, dentro e fora da coligação vitoriosa, começaram a pressionar a referida liderança para dar o dito por não dito e chamar o Chega para o governo, mas outras figuras continuam a opor-se fortemente a essa “solução”, alegando que isso colocaria a direita num quiproquó: se o governo resultar, o mérito será do Chega, uma vez que sem ele não há maioria; se não resultar, toda a direita se afundará.

Outras vozes, entretanto, têm apelado a uma solução que no passado já funcionou: um entendimento entre a AD e o PS, ou seja, um Bloco Central. O PS, porém, já disse que não está disposto a isso, o que, politicamente, parece acertado, pois, se o PS aceitar formar um governo com a AD, para impedir o Chega de entrar no governo, deixará a liderança da oposição ao partido de André Ventura, cuja votação é superior à de todos os outros partidos oposicionistas.

Mas, de qualquer modo, o PS não pode encurralar a AD, acenando desde já com a sua possível inviabilização, como já anunciaram outros partidos de esquerda, pois isso empurraria a coligação para os braços da extrema direita.

O mais provável é que o PS acabe por viabilizar pontualmente cada orçamento a apresentar pela AD, esperando, talvez, que ela se desgaste, provocando, a médio prazo, nova antecipação das eleições.

*Ex-ministro da Comunicação Social, jornalista e escritor

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