
No dia 10 de Agosto deste ano, Maria da Silva, de 47 anos, sentiu-se mal e foi levada a um centro médico, na zona da Mulemba, município do Cazenga, para receber tratamento.
A senhora foi atendida por um indivíduo, que se identificou como médico cirurgião e proprietário do estabelecimento. Trata-se de Américo Lucas, 58 anos, que a família da paciente não sabia que era apenas técnico de Enfermagem.
O técnico submeteu a doente a uma série de exames, que diagnosticaram na paciente sinais de paludismo e febre tifóide. Por isso, Maria da Silva teve de fazer uma medicação, durante 15 dias.
Ao regressar à consulta de revisão, o “cirurgião” sugeriu que se fizesse uma ecografia abdominal, tendo se detectado, supostamente, que Maria da Silva tinha apendicite aguda, problema que carecia de intervenção cirúrgica.
Para a operação, o proprietário exigiu 380 mil kwanzas. Após o referido acordo somente com a paciente, o “cirurgião” Américo Lucas, encaminhou-a para a sala de operação, onde estiveram outros dois enfermeiros. Por duas horas, efectuaram a intervenção cirúrgica, com a abertura da barriga da paciente, para resolver o suposto problema da apendicite. Depois dessa operação, segundo Adolfo Matita, 50 anos, esposo de Maria da Silva, a mulher ficou ainda internada no centro. Mas, a senhora continuava a queixar-se de fortes dores no coração, pressão baixa e de hemorragia nos órgãos genitais.
Adolfo considerou que esses dias, em que a mulher, com quem viveu por 29 anos e geraram sete filhos, dos quais quatro vivos, foram um terror para si, uma vez que a sua vida e rotina mudaram completamente.
“O caminho para a morte de Maria da Silva estava traçado. Senti-me sem forças e sem luz para ver o melhor meio para resolver o problema da minha senhora”, confessou Adolfo Matita.
Até agora, o esposo da vítima ainda questiona a atitude do falso médico, ao ter operado Maria da Silva sem a prévia autorização familiar.
Sobre essa situação, Edna Matita, filha de Maria da Silva e de Adolfo, explicou que momentos antes da cirurgia, recebeu um telefonema da mãe a pedir que ela fosse ao centro. Mas, quando chegou ao local, já a senhora tinha sido operada. Assustada com a situação, a jovem ligou ao pai, aos irmãos e às tias, dando conta do sucedido. No local, abordaram o suposto médico, que esclareceu que as dores são normais para quem sofre uma cirurgia.
Passado alguns dias, as dores não cessaram e, abordado outra vez, Américo Lucas propôs a mudança da medicação.
Mas, a situação piorava, ao ponto de Maria da Silva já nem conseguir andar. Tudo se complicava cada vez mais e, no dia 13 deste mês, por volta das 18 horas, Maria da Silva não resistiu.
Na ausência dos familiares, o agora considerado falso médico amarrou o cadáver de Maria da Silva e escondeu-o num cantinho de um dos compartimentos do centro, com a alegação de que era para não assustar os demais pacientes operados.
Depois disso, comunicou à família de Maria da Silva para remover, por meios próprios, o corpo para a morgue do Hospital Josina Machel, pedido negado, daí ter sido accionado o Serviço de Investigação Criminal (SIC).
A versão do enfermeiro
Américo Lucas, um enfermeiro com carteira profissional, explicou que Maria Joaquim da Silva foi ter ao centro médico, apresentando sintomas de paludismo e febre tifóide.
Depois de medicada, deu conta que a senhora tinha uma apendicite aguda, que é inflamação do apêndice cecal e cria obstrução da parte interna, causando dores abdominais, o que, frequentemente, exige cirurgia de urgência.
“Por isso, realizámos a intervenção cirúrgica”, esclareceu Américo Lucas, que garantiu que a operação, auxiliada pelos enfermeiros Paulo Miguel e António Sebastião, correu bem.
O enfermeiro confessou que só depois a paciente começou a apresentar outras complicações, que agravaram o quadro clínico e levaram à morte.
Quanto à actividade cirúrgica, Américo Lucas diz ter aprendido técnicas com os Médicos Sem Fronteira, em 1997, tendo confessado não dispor de formação superior em Medicina, mas entende de cirurgias.
O centro médico de Américo Lucas atende, diariamente, mais de 20 pacientes e, desde que a unidade foi aberta, há cinco anos, o enfermeiro, pai de oito filhos, disse já ter feito inúmeras cirurgias com sucesso.
Cidadãos contactados no local revelaram que o caso de Maria da Silva não foi o único que acabou em luto.
Centro médico encerrado
Localizado no município do Cazenga, o Centro Médico Américo Lucas funciona, desde 2017, e tem oito salas.
Na sala em que Maria Silva faleceu, até este fatídico acontecimento, acolhia mais duas pacientes internadas. As paredes do compartimento, pintadas a branco, reclamam por nova pintura.
Já a sala, onde se realizou a cirurgia é, ao mesmo tempo, o gabinete de trabalho de Américo Lucas. Aqui, encontra-se uma cadeira e mesa, na qual estão expostos alguns livros e três caixas de material médico.
O centro está em obras e a sua parte frontal e o corredor não têm pintura nem algum letreiro que indique se tratar de uma instituição de atendimento médico.
Em função de funcionar à margem da lei, o centro foi encerrado, pela Inspecção do Gabinete Provincial da Saúde de Luanda, e os pacientes transferidos para o Hospital do Sambizanga.
José Lenvuca, o inspector provincial da Saúde de Luanda, denuncia, igualmente, que as características do centro vão contra às normas estabelecidas por lei, por isso, o estabelecimento não tem condições para continuar a funcionar.
Diferente da posição da Inspecção, o proprietário do Centro Médico Américo Lucas, já detido pelo SIC, afirmou que “o estabelecimento está legalizado e publicado em Diário da República”.
Para contrapor a situação de unidades privadas de saúde, José Lenvuca promete redobrar a fiscalização, principalmente, na zona suburbana, onde existem muitos postos médicos ilegais.
Crime de falsa qualidade
O porta-voz do SIC-Luanda, superintendente Fernando de Carvalho, confirmou a detenção do enfermeiro Afonso Lucas, sob a acusação dos crimes de falsa qualidade e morte por negligência médica.
O acusado seria apresentado ao Ministério Público, para legalização da detenção e dar prosseguimento ao processo. O porta-voz avançou que a cirurgia, mal feita, prejudicou a paciente e levou à morte de Maria da Silva.
Por isso, Fernando de Carvalho apelou às famílias a evitarem levar pacientes a unidades de saúde duvidosas, uma vez que existem hospitais, centros e postos médicos autorizados pelas autoridades competentes.
In JA