
A arte une os seus fazedores e tem o condão de ir além da concorrência, conseguindo que apenas o fator solidariedade mantenha o vínculo entre todos. Com frequência há relatos de artistas que, fazendo jus ao seu estatuto, conseguem que outros artistas cresçam na arte e apareçam para requinte do bom povão.
Artista que luta com determinação para que o seu possível rival seja o seu principal parceiro, nesta luta pela afirmação. Há amizades que superam as adversidades e empurram as vontades para os lados mais férteis da vida.
Que dizer de três feras no mesmo circo onde cada qual é rei? David Gabriel José Ferreira, simplesmente David Zé, de seu nome artístico, era filho de Gabriel José Ferreira e de Carolina José Afonso. Nasceu a 24 de Agosto de 1944, na aldeia de Kifangondo, em Luanda.
Fez o ensino primário na província do Kwanza Norte, tinha 11 anos quando começou a chamar a atenção da sociedade para uma gigantesca voz que se formatava em si, prometendo um futuro breve brilhante.
Assim, mesmo com 11 anos, foi integrado no coral da Igreja Metodista, resultando daí um atrevido tenor, tendo em conta a reduzida idade que tinha. Aí mesmo começou a ser conhecido, aí mesmo começou a ser moldado o poeta, o músico.
Isto não impediu que ele tivesse uma profissão. Foi um bom torneiro mecânico e fundidor, preenchia os tempos livres dando explicações de matemática.
As coisas ficaram muito sérias quando David Zé descobriu que também podia compor. Começou a criar o seu cancioneiro e ia cantando naqueles encontros de amigos, onde cada um mostrava as suas habilidades, na música ou no humor.
Mostrou-se um compositor sério e maduro que, além de bem compor, cantava com muita harmonia. Um dos amigos com quem interagia era Dino Kapacupacu, que já estava metido no mundo da música.
Quando o Dino se apercebeu que mais que uma esperança, David Zé era uma certeza, foi apresentá-lo ao Urbano de Castro, que já tinha um espaço conquistado no mundo da música.
Não foi preciso muita coisa para o Urbano se aperceber que estava perante um grande cantor, da sua dimensão. Aí começou uma grande amizade com o Urbano, que, não podendo aceitar que aquele surpreendente valor continuasse anónimo, levou-o até ao Dionísio Rocha, que, na altura, além de cantor, era uma influente figura na sociedade e já pertencia ao CITA – Centro de Informação e Turismo de Angola.
Isto aconteceu em 1966. Urbano de Castro, David Zé e também Artur Nunes, que já brilhava nos anais da fama, tornaram-se amigos inseparáveis, tão inseparáveis que nem a morte os conseguiu separar, pois morreram na mesma altura.
Entretanto, Dionísio Rocha, impressionado com a performance do rapaz, garantiu o seu lançamento nos Kutonocas, e nunca mais ninguém o esqueceu.
A indústria fonográfica se desenvolvia em Angola e quem se revelasse positivamente na música, particularmente o cantor, era assediado pelas gravadoras.
Em 1970, com a chancela da Rebita, David Zé trouxe ao mundo o seu primeiro disco, acompanhado pelos Jovens do Prenda, com as canções Sofredora e Kadicazeca.
Explosão total. Angola delirou e vibrou com este astro que se revelava de forma fenomenal. Estava confirmado mais um fenómeno musical para Angola, e David Zé não mais parou de trazer discos ao mercado.
Nos discos seguintes foi acompanhado pelos Jovens do Prenda, mas, quando os Águias-Reais invadiram o mercado com o sucesso Mariana, David Zé passou a gravar com os Águias-Reais, e aí, entre outras, tivemos Candinha, Namorada do Conjunto, Merengue Santo António, Maria Rasgadora, Malalanza, Rumba Zá Tukina, entre outros indiscutíveis sucessos, sempre com a etiqueta Rebita, sucessos que revelaram o génio que vivia em David Zé.
Em 1974, começou a gravar acompanhado pelo conjunto Merengues e, em 1975, com a chancela da CDA, gravou o seu primeiro disco Long Play, denominado Mutiudi Uá Ufolo (Viúva da Liberdade).
Depois dos acontecimentos do 25 de Abril de 1974, em Portugal, David Zé e Urbano de Castro alistaram-se nas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) e fizeram parte do núcleo que criou o conjunto FAPLA-Povo.
Agostinho Neto, que sempre deu especial atenção aos artistas, indicou David Zé para director artístico do conjunto FAPLA-Povo e mandou-o à frente de uma delegação para a compra de uma aparelhagem musical na Itália.
Apesar de ter sido um cantor profissional, com um repertório comercial, tornou-se um cantor político com grande poder de intervenção social.
No LP Mutiudi Uá Ufolo, ele mostra a sua qualidade política nas canções: As Cinco Sociedades, Tribalismo, Nguma, ou ainda O Guerrilheiro e Quem Matou Amílcar Cabral.
Cumprindo uma orientação do Presidente Agostinho Neto, o agrupamento FAPLA-Povo foi indicado para representar Angola num Festival dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) que comemorava as independências de Moçambique, Guiné e São Tomé.
Quando David Zé cantou Quem Matou Amílcar Cabral, deixou todo o mundo em delírio. O local onde se realizava o festival fervilhou. A David Zé foi oferecida uma viatura. Ele cumpriu uma missão internacionalista em São Tomé e Príncipe pelas FAPLA.
Com relativa regularidade, os angolanos tocavam e cantavam para os são-tomenses. A popularidade de David Zé alargou-se; ele tornou-se um galã, levando as meninas são-tomenses à loucura. David Zé acabou casado com uma menina são-tomense, com quem veio a viver em Angola.
Apesar de tudo isto, David Zé não foi poupado nos acontecimentos do 27 de maio de 1977.
*Dramaturgo