Défices de educação e civismo – Tazuary Nkeita
Défices de educação e civismo - Tazuary Nkeita
Tazuary Nkeita

Terça-feira, ao cair da noite, estive num dos supermercados mais frequentados em Luanda pela classe que aparenta ser a de menores rendimentos, mas também a mais numerosa e aquela com o menor acesso à educação, o que não explica, por si só, a falta de civismo. Mas já lá vamos chegar…

Estava eu numa das caixas apinhadas de gente, pronto a pagar pequenas despesas, a “Preços Baixos”, como dizia a publicidade, incluindo um livro infantil com 80 desenhos, a pintar! O preço pareceu-me de facto acessível e iria pagar exactamente 1990 kwanzas pelo livro.

Atrás de mim, estava um jovem casal com uma criança aparentando ter dois anos de idade. Ele com visível porte atlético e supostos 30 anos, e ela, na mesma faixa etária, com invejável elegância e umas sobrancelhas artificiais comparáveis às asas da última vaga de drones ucranianos lançados contra Moscovo…, e um carro de compras cheio de produtos alimentares, também a pagar!

“Certamente que estes não desembolsam menos de oitenta mil kwanzas”, pensei, em silêncio, antes de saber o que iria acontecer de imediato…

Sem cerimónias, e como se fosse um ponta de lança a fazer golo numa baliza aberta, e vendo muito “espaço”, o marido colocou as compras em cima do meu livro de desenhos infantis que aguardava pela leitura do código de barras, no pequeno balcão da caixa!!!

– “Mas o senhor não pode fazer isso!”, reclamei.

Para ser franco, aquele comportamento não me surpreendeu. A má educação e a falta de civismo instalaram-se como dedo e unha na nossa sociedade, a quase todos os níveis, e diariamente, entre gentes de diferentes posses e portes.

Esse défice é preocupante e é assustador. É visto constantemente nas ruas, onde luxuosos 4X4 nos querem forçar a aceitar que “carro de luxo não precisa de respeitar as leis de trânsito”.

“Condução defensiva!”, pedem uns. Intocáveis, os infractores fazem o pior, sem obstáculos. Não respeitam peões nas passadeiras, como também lhes imitam os chamados “motoqueiros”, seus fiéis parceiros de estrada, sempre em alta velocidade, de pernas abertas, cabeças inclinadas para baixo e neurónios sem travões…

Mas, regressemos à triste cena no supermercado.

– “(…) O senhor não pode fazer isso!”, fiz notar.

– “…?!”, nem ouvi a resposta ao meu desabafo. À minha frente, o empregado da caixa também se resguardou no silêncio absoluto e nada comentou.

“Vale a pena falar e tentar convencer…?”, apenas vi rasgos de incredulidade nos seus olhos. Tinha razão. Muitos sentem-se ofendidos, e reagem mal quando chamados à razão sem as devidas cautelas. Outros, já não ouvem. Por isso, “Atitude defensiva!” também é o lema de muitos.

E, tão pouco escutei palavras que esperava ouvir naquele instante, como “Desculpa…, perdão!”

Qual será o comportamento daquela criança de dois anos, e de toda geração que lhe segue, crescendo num ambiente sem regras de boa educação e civismo, e com pais assim?

E lembremo-nos: “Quem sai aos seus, não degenera!”.

*Jornalista e escritor

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido