
Um escriba a soldo do rascunho de ditador escreveu elogios ao discurso que proferiu na 81ª Assembleia Geral da ONU. Garante que a ideia central do palavreado foi esta: “Substituir a Força pelo Direito”.
João Lourenço internamente impõe a força de decretos presidenciais celerados. Um deles foi atirado para o lixo por ser inconstitucional. Comprava sentenças e confiscos. Impõe a força bruta do pensamento único.
Invadiu selvaticamente o Poder Judicial fazendo dos Tribunais meras repartições do Palácio da Cidade Alta. A força do Direito dele até inclui prisioneiros pessoais. Roubos do património alheio. Atirar para o exilio as suas vítimas.
A propaganda tem efeitos imediatos por isso pode não sobreviver até às eleições de 2027. Ninguém é capaz de enganar toda a gente o tempo todo. Vamos ver se dura até ao congresso do MPLA, em Dezembro. Se houver congresso. Nada está garantido.
Recuemos aos primeiros dias do Acordo de Bicesse. A euforia da paz esmoreceu quando Savimbi se instalou em Luanda. As “GMC” patrulhavam as ruas da cidade com sodados fortemente armados. As Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) tinham sido extintas.
O Governo de então começou a fazer fortes investimentos nos equipamentos sociais destruídos. Recuperação, a todo o vapor, dos circuitos de produção e distribuição. As eleições de 1992 realizaram-se com muitos círculos eleitorais ocupados por militares da UNITA que não podiam existir. Os outros partidos não puderam fazer campanha nesses territórios. Até se colocou a hipótese de adiar as eleições. Mas fomos a votos no prazo previsto.
O MPLA ganhou com maioria absoluta. E Jonas Savimbi começou a disparar contra a democracia para matá-la ainda no ovo. Os seus sicários tentaram tomar o poder pela força em Luanda. Durante dez anos, mais mortes, mais destruições. Vamos precisar de muitas décadas para recuperar da década de banditismo armado contra o regime democrático. A rebelião foi esmagada com a Operação Kissonde. No Centro e Leste de Angola.
Este sucesso teve autores. O Chefe do Estado Maior Geral das FAA era o general Armando da Cruz Neto. O general Luís Faceira lançou a operação. O general Wala comandou as forças no terreno.
A rebelião de Savimbi contra a democracia foi um caso de polícia. As forças policiais eram comandadas pelo comissário-geral Alfredo Mingas (Comandante Panda). O General Matias Lima Coelho (Zumbi) era o Comandante da Região Leste. A rebelião armada acabou em 22 de Fevereiro 2002, no Lucusse. Mas ainda hoje estamos a pagar os custos do banditismo armado. E vamos continuar a pagar.
João Lourenço foi eleito Presidente da República em 2017. O MPLA ganhou as eleições com maioria absoluta. José Eduardo dos Santos era o presidente do partido. O seu mandato só terminava quando fosse eleito outro líder no congresso. Não pode! Na podemos ter uma bicefalia. Angola não pode ter um Presidente da República e um presidente do MPLA diferente.
Esta posição de João Lourenço teve muitos apoiantes. O argumento era imbatível: Com a bicefalia Angola fica em risco! José Eduardo dos Santos tem que entregar a liderança do MPLA ao Presidente João Lourenço.
O historiador Jean-Michel Mabeko-Tali escreveu que a bicefalia em Angola entre o Presidente João Lourenço e o líder do MPLA, José Eduardo dos Santos, “pode ser perigosa, porque cria riscos de chantagem política”.
E foi mais longe: “A situação actual acaba por colocar o Chefe de Estado numa posição de subalternização politicamente incómoda e de riscos de chantagem política, ou simplesmente de bloqueio por parte de quem tenha o poder de decisão política na mão. E não vale a pena andarmos a fazer comparações com outros países para dizer que não há riscos de colisão cimeira”.
Lopo do Nascimento veio a público alertar para “o perigo de dois centros de poder”. Em Março de 2018, o General Santana André Pitra (Petroff) defendeu “a transferência urgente da liderança do partido de José Eduardo dos Santos para João Lourenço”.
O antigo governador de Luanda, José Maria Ferraz dos Santos, afirmou: “O MPLA não se pode permitir a dois poderes. O camarada José Eduardo dos Santos deve deixar a liderança do partido já, não adianta insistir”. Job Capapinha e Tomás Bica alinharam pela mesma medida. O inefável sociólogo Paulo de Carvalho sentenciou: “É chegada a hora do presidente do MPLA colocar o cargo à disposição e o vice-presidente, João Lourenço, assumir a liderança do partido”.
Rui Falcão e Paulo Pombolo manifestaram-se contra a bicefalia atrelando o anterior Presidente da República à corrupção. O General Ndalu arregimentou Generais respeitados contra a bicefalia. O MPLA reuniu a sua direcção de emergência. Só Aldina da Lomba e Paulo Kassoma defenderam que o líder do partido devia continuar até ao final do seu mandato.
José Eduardo dos Santos, com a serenidade de sempre disse apenas: “Se quiserem que eu saia, eu saio já! Se o problema é o congresso, vamos realizá-lo. Não quero ser um empecilho”. E saiu. Angola foi salva da bicefalia. Passou o perigo de morte para a Pátria Angolana.
Setembro de 2026. João Lourenço aposta tudo na bicefalia. Quer ser candidato único à liderança do MPLA, no congresso de Dezembro. Segundo o próprio, a bicefalia vai acabar com Angola. Sendo assim, a sua manobra política é mais grave do que a rebelião armada de Jonas Savimbi. Porque vai acabar com o único partido político com expressão nacional.
O Presidente da República em fim de mandato, quer que numa família existam dois chefes, como disse em 2018 Ana Dias Lourenço. Ângela Bragança não é capaz de lhe dizer o que disse a José Eduardo dos Santos: “Saia, camarada presidente. Não é o dono do MPLA!”
O General Higino Carneiro, candidato à liderança do MPLA, cometeu um erro de análise. Disse que o rei vai nu e nós estamos a vê-lo vestido. O qual não. Ele vai em pelota para o abismo, mas leva a corda para meter ao pescoço do MPLA, para enforcar o partido. O nu vestiu-se com a corda da execução do “amplo movimento”, que vai fazer 80 anos de retumbantes vitórias. Fim inglório. Nós os octogenários somos mesmo vítimas do imperialismo!
Com o Acordo de Bicesse, Angola abandonou a democracia popular e aderiu à democracia representativa. Esconjurou o socialismo e aderiu à “economia de mercado”, nome simpático do capitalismo. Factos são factos.
Quero recordar que o sistema capitalista é uma maquineta que só funciona se lhe metermos no depósito um combustível com três componentes: Exploração de quem trabalha. Corrupção, quanta mais, melhor. Roubo que pode ir até às formas violentas do latrocínio.
Atenção. Se faltar a corrupção o sistema morre. Se faltar a exploração o sistema vai à falência. Se faltar o roubo, acaba o oxigénio do sistema.
Conclusão. Isso de combate à corrupção no sistema capitalista é uma aldrabice para enganar os matumbos. Bicefalia, no vocabulário do rascunho de ditador, é alugar o Palácio da Cidade Alta a um kaxiko às ordens, amarrado com trela curta.
Bicefalia é continuar a assinar ajustes directos aos milhões, com a mão escondida. Os que estavam contra ontem, estão hoje de acordo, renderam-se ou receberam os 30 dinheiros da ordem? Responda quem se sente.
*Jornalista