
Início dos anos 90. Luanda. Futungo de Belas. Centro do poder Político e Administrativo angolano. José Eduardo dos Santos prepara-se para receber um dignitário estrangeiro. Venâncio de Moura está presente.
A equipa da Televisão Pública de Angola (TPA) posiciona-se. Um detalhe estraga tudo. O repórter está sem peúgas. Venâncio de Moura chama o Protocolo. Repreende. Sem peúgas não há respeito. Sem respeito não há Estado. O recado é claro. O Protocolo não brinca. Rigor. Profissionalismo. Seriedade.
Outra cena. Mesma década. Mesma TPA. O Telejornal da noite está no ar. O general António José Maria (Zé Maria) chega com um comunicado urgente. Espera pelo intervalo. O pivô levanta-se. Gravata. Casaco. E calções. Escândalo.
Indignação. Maka do kaiaia. Zé Maria exige explicações. Pede rigor. Seriedade. Pede respeito pelos telespectadores. A direcção da TPA treme. Desculpa-se. Havia regras. E cumpriam-se. Havia uma cultura de rigor no Protocolo do Estado.
Salto no tempo. Brasília. 2014. Tomada de posse de Dilma Rousseff. Paulo Portas pede audiência ao vice-presidente angolano. É travado. Falta gravata. Sem gravata não entra. Portas pede uma emprestada. Volta. Entra.
Simples. Rigor. Estado. Fui testemunha ocular. Georges Chikoti, então ministro das Relações Exteriores, pode corroborar.
Antes de 2017 havia regra por parte do Protocolo do Estado. Havia método. Havia profissionalismo. Havia cultura de rigor. Hoje, o contraste é gritante.
O actor Will Smith entra no Palácio Presidencial. À vontade. Demasiado à vontade. Roupa imprópria. Ambiente errado. Tipo casa da mãe Joana e do papá João.
Xenofobia à parte. O problema esteve no critério. O Protocolo falhou. Clamorosamente. Fosse angolano, ficava à porta. Fosse africano, nem passava da cancela.
Se Will Smith entrasse de roupão e pantufas no Palácio Presidencial, ainda assim não haveria crise. O Protocolo acomodaria. Não se importaria. Houve negligência. Clara. A culpa não é do Presidente da República. É do Protocolo do Estado. Faltou rigor. Faltou profissionalismo.
Hoje há amadorismo no Protocolo do Estado. Laxismo.
Desconhecimento de etiqueta.
Desrespeito pelos símbolos do Estado angolano. E uma tendência perigosa: Nivelar por baixo. Resultado. Desprestígio. Quando o protocolo falha, o Estado expõe-se. E um Estado exposto perde autoridade. Dentro e fora de portas.
*Jornalista