
A refinaria Dangote, a maior de África, enfrenta um revés importante no mercado internacional após várias empresas europeias e importadores recusarem comprar o seu diesel, alegando que o combustível não atende aos padrões de qualidade exigidos para o inverno no continente.
Fontes do mercado revelaram à agência Argus que amostras recentes do diesel da refinaria apresentaram níveis de enxofre e outros componentes acima dos limites permitidos pelas normas europeias para combustíveis de inverno. Esses desvios impedem que o produto seja vendido ou misturado para uso em regiões frias.
Apesar da elevada procura por combustível na Europa, os importadores declararam que não aceitam comprometer a qualidade, não por motivos económicos, mas pela conformidade técnica.
“O problema não é arbitragem, é conteúdo fora das especificações dos combustíveis”, afirmou uma fonte nigeriana ao Argus.
Reconhecimento da refinaria e promessas de melhoria
A Dangote Refinery, inaugurada em 2024 com capacidade projetada de 650 000 barris por dia, tem defendido a qualidade dos seus produtos.
Representantes da empresa afirmam que os combustíveis comercializados atendem a padrões internacionais e que houve avanços importantes ao longo dos últimos anos.
Em Julho de 2024, a refinaria anunciou o início da produção de diesel com baixo teor de enxofre – de 10 partes por milhão (ppm) – visando alcançar o padrão Euro-5 e abrir caminho para exportações de maior qualidade.
No entanto, críticas recentes de reguladores e compradores internacionais denunciam que, em várias remessas destinadas à Europa, os níveis de enxofre voltaram a ultrapassar limites europeus, por vezes chegando a valores entre 650 e 1.200 ppm.
A recusa de importadores europeus em comprar o diesel da Dangote agrava a pressão sobre a refinaria, que ambicionava expandir sua presença no mercado global.
Com a crescente procura por combustível após a decisão da União Europeia de restringir importações de derivados russos, a rejeição acentua os desafios de competitividade da refinaria nigeriana.
Além da qualidade do combustível, a Dangote também enfrenta interrupções operacionais, greves e atrasos em unidades adicionais, o que tem impedido o alcance da sua capacidade nominal de produção.
Para reconquistar a confiança internacional, a refinaria terá de demonstrar conformidade rígida com os padrões industriais, garantir consistência na qualidade do diesel exportado e estabilizar a sua produção interna.
O diesel com níveis elevados de enxofre – como os identificados nas amostras recusadas pela Europa – representa riscos significativos tanto para o ambiente quanto para a saúde pública.
O enxofre, ao ser queimado, produz dióxido de enxofre (SO₂) e partículas finas, responsáveis por aumentar a formação de smog, chuva ácida e degradação da qualidade do ar.
Estes poluentes aceleram a corrosão de infraestruturas, prejudicam solos agrícolas e afetam ecossistemas aquáticos e florestais.
Do ponto de vista da saúde humana, a combustão de diesel com alto teor de enxofre está fortemente associada ao agravamento de doenças respiratórias como asma, bronquite crónica e doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC).
As partículas ultrafinas resultantes da queima do combustível penetram profundamente nos pulmões e podem alcançar a corrente sanguínea, contribuindo para doenças cardiovasculares, aumento de hospitalizações e maior mortalidade em populações vulneráveis.
Além disso, combustíveis com baixo número de cetano – outro problema apontado nas remessas da refinaria Dangote – tendem a queimar de forma menos eficiente, aumentando a emissão de poluentes tóxicos e reduzindo o desempenho dos motores.
Por esses motivos, padrões rigorosos, como os aplicados pela União Europeia, são essenciais para minimizar impactos ambientais e proteger a saúde pública, especialmente em regiões frias onde veículos operam sob maior exigência mecânica.