
O presidente do Conselho Executivo (PCE) da TAAG, Eduardo Fairen, afirmou que a transportadora se tem posicionado estrategicamente, no âmbito da reestruturação e como principal figura do ‘hub’ das conexões do novo Aeroporto de Luanda.
Em entrevista à Angop, o gestor considerou que a companhia aérea nacional está a recuperar a sua saúde financeira, com uma tesouraria cifrada em mais de 100 dias de fluxo de caixa, contrariamente ao passado recente, em que esse nível se situava apenas em seis (6) dias.
De acordo com o PCE, o exercício de 2023 figura-se como um ano de consolidação, no quadro da reestruturação e do fortalecimento, bem como da preparação para os desafios vindouros, eventuais e dos programados.
O gestor considerou “animadores” os resultados alcançados, uma vez que a empresa transportou, em 2022, cerca de um milhão de passageiros, equivalente a 60 por cento superior do número ao atingido em 2019.
Eis a íntegra:
Que TAAG temos hoje?
A TAAG está respirando, não está morta, apesar de um período menos bom e das consequências deixadas pela Covid-19. Na fase da pandemia em alta (2019/2021), cerca de 400 companhias de aviação civil no mundo desapareceram. Estamos num processo de recuperação orientada, com resultados indicadores de que a coisa vai bem, mas ainda há muito trabalho para se fazer.
No balanço dos primeiros 100 dias da gestão do presidente do Conselho de Administração, a TAAG apresentou um fluxo de caixa de seis para 180 dias, o que representou, na altura, uma recuperação da tesouraria entre 40 e 60 por cento. Como a empresa se encontra actualmente neste quesito?
Realmente, encontrámos a TAAG numa situação difícil, com seis dias de caixa, e hoje mantêm-se os números do fluxo de caixa acima dos 100 dias. Estamos contentes com esse resultado, mas não é óptimo. Deveríamos estar acima dos 800 dias de tesouraria. Por isso, estamos a trabalhar para recuperar as receitas, aberturas e reaberturas das rotas que aumentem as receitas para a companhia, assim como uma gestão equilibrada.
E relativamente a números reais e comparando-os com o período da gestão anterior?
Os valores absolutos são do domínio dos accionistas. Só eles podem divulgá-los. Não falo da gestão anterior, pois teria de contar a história dos mais de 80 anos da TAAG. Estamos a fechar as contas de 2022, já auditadas, com os números a indicarem uma receita cifrada acima de cinco por cento, relativamente a 2019.
Neste período, transportámos pelo menos um milhão de passageiros, o que corresponde a 60% superior a 2019. Para nós, é um resultado muito bom a nível da performance da companhia, apesar dos constrangimentos ocorridos, como a greve e, fundamentalmente, com a Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC) a proibir alguns aparelhos nossos de servirem os passageiros da TAAG.
Neste momento, estamos juntos a falar com a ANAC, para tentar ultrapassar esta situação. Apesar disso, estamos satisfeitos com os resultados alcançados.
Qual é o orçamento anual da TAAG?
O orçamento é sempre aprovado pela Assembleia-Geral, mas, nesta altura, ainda não foi aprovado para o exercício de 2023. Todavia, a proposta para o orçamento deste ano tem um acréscimo de 15% sobre os 400 milhões de dólares de 2022.
Estamos no sector da aviação, que é muito fluido, no qual os objectivos são ou podem ser afectados pela recuperação da aviação civil mundial, nomeadamente com a falta de aviões, falta de material de reposição e de oficinas de reparação.
Este é um problema global, não só de Angola, pois os fabricantes Boeing e Airbus anunciaram, recentemente, atrasos e demora na entrega de aparelhos por, pelo menos, seis meses. Por esse facto, a indústria fica afectada.
Claramente, a guerra entre a Ucrânia e a Rússia está a afectar negativamente o sector da aviação, os factores económicos como a alta inflação mundial e a recessão que as principais economias do mundo estão a atravessar. Todos esses factores, combinados, estão a dificultar a recuperação rápida da aviação civil mundial.
Este volume satisfaz as expectativas, tendo em conta os desafios e as metas para 2023?
Esta é uma pergunta pertinente e que traz outras que não estão sob o nosso controlo. Primeiro, precisamos de recuperar os aviões, para que retomem os voos, e isso não depende de nós, visto que não temos ferramentas para tomar essas decisões, pois depende da evolução dos outros mercados.
Dois mil e vinte e três (2023) afigura-se como um ano de consolidação, no quadro da reestruturação e nos fortalecermos para os desafios vindouros eventuais e dos programados, com a abertura do novo Aeroporto Dr. Agostinho Neto e a abertura da concorrência comercial que esse trará a partir de 2024.
Nos últimos anos, a transportadora apostou na abertura de novas rotas nacionais e internacionais e na reabertura de algumas domésticas antigas, encerradas há longos anos. Que avaliação faz pode desse processo?
A Covid-19 obrigou a reduzir frequências e a fechar algumas rotas, mas a situação sanitária está a melhorar muito. Há mercados da aviação (rotas comerciais) que eram historicamente fracos, hoje estão fortes; outros que eram fracos e de repente surgem com elevada demanda e se tornam fortes. Existe essa volatilidade no mundo da aviação.
As economias foram afectadas em uníssono, mas a recuperação em cada realidade tem velocidades diferentes. Há, de facto, aquelas rotas tradicionalmente boas, como Lisboa, Brasil, assim como estamos a recuperar os destinos da África Austral e Central.
Os novos destinos abertos recentemente pela TAAG, como Acra (Ghana) e Madrid (Espanha), estão a ocorrer conforme as expectativas. Precisam de tempo para a sua estabilização.
Nesta altura, quantos destinos/rotas a TAAG tem a nível doméstico e internacional?
Actualmente, a TAAG voa para 28 destinos, dos quais 14 domésticos e igual número regional e internacional. Estamos a fazer mais voos do que nunca.
Relativamente à cobertura do país, temos, este ano, um plano de abertura de duas novas rotas domésticas. Vamos acompanhar o mercado nacional. Nesta altura, a TAAG não vê uma rota forte que justifique a operação.
Do mesmo modo, acompanhando a dinâmica internacional, estamos em vias de abrir também dois destinos regionais. Quanto à abertura de novas rotas internacionais, o orçamento de 2023 não prevê a abertura de novos destinos intercontinentais.
Já agora, fale-nos sobre o plano do aumento da frota.
O plano de aumento da frota, aprovado pela Assembleia-Geral e reajustado para os próximos cinco anos, vai de 2022 a 2027, prevendo 30 aeronaves em pleno funcionamento.
Num outro ângulo, que tipo de manutenção se faz no país e no exterior e como a empresa está a lidar com o cenário das construtoras?
A nossa capacidade de manutenção em Angola é limitada em ‘cheks’ de linha e nas regiões básicas da aeronave. Todos os aviões, depois de um ano ou volume de voos, devem ir ao exterior para as manutenções profundas.
Quanto às manutenções mais exigentes ou profundas, a TAAG não tem. Agora, existe um plano da aviação civil angolana de um parque de manutenção e formação de técnicos, com meios modernos. Esse parque não deverá atender somente aos aparelhos da nossa companhia, mas também deverá socorrer as demais companhias do mercado nacional e da região, para melhorar a rentabilidade dessa oficina.
Qual é a média de passageiros que a companhia transporta anualmente?
Em 2022, a TAAG transportou pelo menos um milhão de passageiros, número 60% superior a 2019. O nosso objectivo, no âmbito do reforço da frota, é o de alcançarmos a cifra dos três milhões de viajantes até 2027.
Para além das seis aeronaves compradas em regime de ‘leasing’, a Air Bus A220, a TAAG está a conversar com outras construtoras e parceiros para a compra de mais aviões. Neste sentido, também está em estudo o tipo de aparelho para substituir os triplos-sete (777).
Um dos grandes constrangimentos na compra de novos aviões prende-se com o prazo das entregas. Por isso, há que se ter cautela nesse programa de substituição da frota.
Em termos de compromisso com os parceiros, qual é o volume da dívida?
A TAAG tem dívidas históricas. Na recuperação em curso, uma boa parte é para a sua regularização. Continuamos a pagá-las. Já temos algumas encerradas a 100 por cento, como, por exemplo, com a construtora Boing. Existe um plano de pagamento que tem permitido à transportadora retornar ao cenário internacional e beneficiar de compensações de parceiros do primeiro nível, como a General Electrik, a IBM, a Boing, companhias de ‘leasing’, entre outros.
O retorno da credibilidade tem-nos permitido, também, chegar ao lugar em que estamos hoje e, sem esse plano, seria mais difícil ultrapassar o anterior cenário.
Concretamente, qual é o valor pago e o remanescente da dívida?
Não posso partilhar esta informação, pois apenas os accionistas a detêm.
Qual é a previsão temporal para a liquidação total das ‘dívidas históricas’?
Somente os accionistas podem responder a esta questão. Posso apenas dizer que existe um plano de pagamento em curso, de acordo com o volume e as entidades.
Como a empresa olha para a entrada em funcionamento do novo Aeroporto Internacional de Luanda, prevista para o final deste ano?
A abertura do Aeroporto Dr. Agostinho Neto vai mudar o paradigma actual do país e constituir-se no principal ‘cartão postal’ de Angola.
Esta instituição terá o potencial de converter Angola num dos ‘hub’ (placa giratória para o efeito) mais modernos de África. A TAAG está preparada para ser o principal ‘veículo’ e para trazer múltiplas conexões com os países de África, em particular, e do mundo, em geral.
O novo aeroporto tem uma importante relevância na estratégia de crescimento da TAAG, bem como elevará os níveis de receitas para o Produto Interno Bruto (PIB) do país. Pensando nisso, abrimos a rota Luanda/Madrid, que já está a funcionar como programado. Os números dessa rota indicam que mais de 80 por cento dos passageiros são de conexão para os múltiplos destinos da Europa e do resto do mundo.
No quadro do exercício programado para 2023, que projectos podem ser destacados?
Este ano, não queremos pôr-nos em grandes aventuras. 2023 afigura-se como ano da consolidação, depois da grande expansão e do crescimento explosivo de 2022.
Todavia, temos muitos desafios pela frente, sobretudo económicos, tais como a situação da inflação, que afecta severamente a capacidade financeira dos nossos clientes e passageiros.
Para este ano, a TAAG prevê a inauguração da sua sede, antes do último trimestre. Ainda este ano, vai lançar o novo website, mais moderno, atractivo, interactivo e multilinguístico.
Este website estará a nível de outras companhias mundiais, dará mais visibilidade internacional à TAAG, vai facilitar muito as operações e evitar deslocações às lojas e chamadas ao ‘call center’. Será uma página que dará solução local a muitas situações reais.
A transportadora, para poder crescer, não deve ser uma companhia só para os angolanos ou para os africanos, mas internacional de facto, com mais de cinco idiomas. Para este ano, também está programada a troca dos uniformes do pessoal de bordo, assim como a reestruturação do serviço ‘catering’.
Para quando uma TAAG auto-sustentável?
(…) Não tenho uma ‘bola de cristal’. A auto-suficiência depende de muitos factores. No nosso plano de gestão, temos a TAAG não só como uma companhia auto-sustentável, mas também como um bom negócio.
Neste sentido, a companhia precisa de fazer mais parceiros de nível mundial, daí que Angola necessita de converter o novo Aeroporto de Internacional de Luanda numa grande porta de passagem para o mundo.
Para a auto-sustentabilidade, não basta somente o trabalho da TAAG passar pelo novo aeroporto e pelo sistema de aviação civil angolano, que deverá estar sincronizado com o mapa do mundo.