Eleições parlamentares europeias: A luta continua – João Melo
Eleições parlamentares europeias: A luta continua - João Melo
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Os resultados eleitorais do último domingo para o Parlamento europeu foram apresentados pelos líderes e pela imprensa mainstream, desde que começaram a ser conhecidos, como uma vitória da extrema direita, lançando o pânico no Velho Continente e fora dele. Neste artigo, vou tentar matizar essa leitura, socorrendo-me de outras fontes, além da grande mídia ocidental.

O crescimento das principais formações fascistas foi real, sobretudo na Itália, França e Alemanha. No primeiro país, os Conservadores e Reformistas da Europa (ECR), da primeira ministra Giorgia Meloni, cresceram 5,8%, tendo agora 73 dos 720 assentos do parlamento, o que corresponde a um pouco mais de 10%; no segundo, a fação Identidade e Democracia (ID), liderada por Marine Le Pen, cresceu 18,3%, ficando com uma bancada de 58 eurodeputados; no terceiro, a Alternativa para a Alemanha (AfD) passou de 11 para 15 deputados.

Em contrapartida, porém, nos países nórdicos, a extrema direita revelou um surpreendente desgaste, em particular se considerar que ela integra algumas coalizões governamentais daquela parte da Europa. Assim, na Suécia, os neofascistas, auto-intitulados abusivamente “Democratas”, baixaram para 14,3% dos votos (há dois anos, nas legislativas, tiveram 20,6%), enquanto na Finlândia o partido de ultra-direita (“Os Verdadeiros Finlandeses”), que têm 22,5% dos assentos no parlamento nacional, ficaram reduzidos a 7,6% no parlamento europeu. A esses resultados, podem juntar-se também os de Portugal, onde o Chega apenas elegeu dois eurodeputados, o mesmo número que a Iniciativa Liberal.

O facto é que, no conjunto, os resultados do último domingo não confirmam a suposta “vitória” da extrema direita. Assim, o centro-direita continua o maior grupo parlamentar europeu, com 185 cadeiras (subiu nove em relação a 2019); os social-democratas (de que fazem parte alguns partidos designados “socialistas”, como o português) continuam a ser o segundo maior grupo, com 137 (perderam dois assentos); e a esquerda, que perdeu apenas um deputado, agora tem 36 lugares (esse número pode subir para 42, quando os seis deputados da recém-criada e progressista Iniciativa Sarah Wagenknecht, da Alemanha, tomarem posse e, previsivelmente, integrarem o bloco de esquerda do parlamento europeu).

O que as análises dominantes dos últimos resultados das eleições parlamentares na Europa não têm realçado é o tamanho e o real significado da derrota dos partidos governistas nos dois países que constituem o eixo da União Europeia: Alemanha e França. Essa omissão não é inocente.

Os números são contundentes: na Alemanha, por exemplo, os Verdes, da ministra das Relações Exteriores, Annalena Baerbock, conhecida pelas suas posições belicistas, perderam 27,8% dos votos, enquanto na França o bloco parlamentar Renovação, de Emmanuel Macron, perdeu 22,5%.

O brasileiro António Martins, coluna do site “Outras Palavras“, atribui esse descalabro dos partidos governistas nos dois estados mais importantes da União Europeia à sua adesão às políticas neoliberais de austeridade e, em particular, à sua cega participação na guerra da Ucrânia, alinhando-se à estratégia do complexo EUA/OTAN, ao invés de a terem impedido.

Escreveu ele: – “Como nos anos 1920 e 30, o avanço do neofascismo deve-se ao fiasco desastroso dos governos que adotaram, nos últimos anos, políticas ultraliberais. Destacam-se os da França e Alemanha, eixo permanente da União Europeia. Ao embarcarem de armas e bagagens na guerra dos EUA contra a Rússia, eles debilitaram suas economias, agravaram a crise social e ampliaram o descrédito na democracia”.

Só para dar dois exemplos referentes aos mencionados países, a adesão incondicional de Macron, em França, à cruzada para liquidar Putin, levou-o, entre outras consequências, a realizar sérios cortes nos gastos sociais (como a reforma da Previdência, aprovada “na marra”, diriam os brasileiros), a fim de ampliar o orçamento militar; na Alemanha, que abdicou do gás russo, base fundamental da indústria do país, esta perdeu a sua competitividade, tendo o país entrado em recessão e os rendimentos dos trabalhadores diminuído.

Os resultados eleitorais falam por si: os governos que mergulharam de cabeça na política belicista de Washington e ignoraram a crise social foram os mais penalizados.

Os números mostram, entretanto, que não houve uma relação direta entre essa penalização e o avanço da extrema direita, pois, em países como a Alemanha e a Itália, por exemplo, o voto de descontentamento foi parcialmente canalizado para partidos progressistas e de esquerda.

A formação de uma Frente Popular em França, anunciada na última segunda-feira, 10, é outro sinal de que, apesar das enormes dificuldades, a luta continua.

*Jornalista e escritor

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