Em defesa dos cornos angolanos – Sousa Jamba
Em defesa dos cornos angolanos - Sousa Jamba
homemchora

Nos últimos dois dias, em Angola, parece ter-se acendido uma zanga coletiva contra os maridos traídos. Um homem conhecido, ferido no orgulho, terá apontado o dedo ao amigo que se deitou com a sua mulher; e, desde então, o país expõe-no ao riso, como se a humilhação fosse espetáculo e não ferida, como se o insulto substituísse a justiça.

Nas praças digitais, improvisou-se um anfiteatro: cada um escolhe o seu lugar, afia o sarcasmo, atira palavras ao homem que já caiu.

O que surpreende é isto: a nossa sociedade nem sempre tem piedade do que um homem traído atravessa. Chama-lhe nomes, reduz-lhe a vida a uma alcunha, como se a palavra resolvesse o que aconteceu. Esquece que, por baixo da caricatura, corre um processo psicológico lento e corrosivo, feito de noites brancas e de pensamentos que regressam, obstinados, ao mesmo ponto.

A dor não difere da que uma mulher sente quando é enganada; por vezes, torna-se ainda mais funda, porque se mistura com a educação do orgulho, com a vergonha pública, com a velha exigência de que o homem suporte sem tremer.

E há, ainda, o que raramente se diz em voz alta, por pudor e por medo do ridículo: para um homem de sangue vivo, poucas imagens são tão debilitantes como a da própria mulher a entregar a outro a intimidade que, até ontem, parecia ter fronteiras.

A mente insiste nessa cena com crueldade metódica. Há homens que choram em silêncio, com o rosto enterrado na almofada, não por fraqueza, mas por exaustão. Comparam-se: o seu corpo, a sua presença, a sua maneira de amar, com a sombra do outro.

Perguntam-se, em segredo, o que ela viu, o que ela sentiu, o que ela procurou; e a pergunta, quando não encontra resposta, transforma-se num veneno paciente.

Só que nem todos os homens têm, para se defender, uma armadura de ideias. Nem todos leram autores que ensinam a olhar a tragédia humana com distância e a desmontar o instinto com lucidez. Muitos não conseguem. E, por não conseguirem, alimentam remorsos, fantasias, perseguições interiores. A vergonha cresce, não por aquilo que são, mas por aquilo que imaginam.

Também se pensa pouco no outro ator desta pequena peça. O homem que se deita com uma mulher casada raramente entra ali por grandeza; entra, muitas vezes, por vertigem. Procura o brilho do risco, a adrenalina da fronteira, o prazer de competir com alguém que, na cabeça dele, é maior.

A excitação não é só a mulher; é o marido. É o companheiro. É o nome, o estatuto, a sombra do poder que ele carrega no pensamento, como quem leva um troféu invisível no bolso.

É por isso que esta história seduz certos anónimos, homens diminutos na própria vida, que precisam de um atalho para se sentirem alguém. Dormir com a mulher de um homem conhecido, respeitado ou forte dá-lhes, por instantes, a ilusão de grandeza. É um triunfo de empréstimo.

Na prática, têm o corpo e o impulso; falta-lhes a obra, o caráter, a vida construída. E essa falta, que não confessam, empurra-os para uma competição secreta, como se uma intimidade roubada pudesse compensar todo o resto.

Repare-se, aliás, num detalhe revelador: quando esses homens recontam a história (e recontam-na quase sempre, com regularidade compulsiva), não se demoram nos gestos da sedução, nem no encanto da mulher, nem no corpo, nem na conversa.

Há, além disso, uma assimetria que denuncia o verdadeiro motor da vaidade: é raro ouvir um homem gabar-se, em voz alta, de ter dormido com a mulher do jardineiro, ou com a esposa de alguém socialmente muito abaixo dele. A bravata nasce, quase sempre, quando o alvo tem nome, lugar, peso.

Dizem, antes: «Dormi com a namorada do guitarrista de tal banda»; e o nome do guitarrista, do empresário, do político, volta a ser chamado, uma e outra vez, como se fosse ele o verdadeiro protagonista.

O que se ouve, no fundo, não é a conquista de uma mulher; é a aproximação de um homem. A mulher aparece como adereço, intermediário físico, instrumento de ligação entre o anónimo e a figura que ele admira. A relação, afinal, faz-se com o outro homem. A mulher completa a ponte; não é o destino.

Do mesmo modo que o admirador obcecado não ama a canção, mas o cantor e a aura que o cerca, também este homem procura, através da mulher, tocar o homem maior, entrar na sua órbita, agarrar-se a ele por dentro, estabelecer uma intimidade clandestina, ainda que impura.

É um desejo oblíquo, que não se reconhece como tal, mas que se denuncia no fascínio pela potência, pelo nome, pela presença, pela autoridade.

Por isso, quando são chamados a confessar, alguns fazem-no com uma disponibilidade estranha, quase exibicionista. Dizem «sim» e acrescentam pormenores. Descrevem, tijolo a tijolo, a cena inteira; não tanto para ferir a mulher, mas para se colocarem diante do marido, como quem pede reconhecimento.

E há, no olhar de certos confessores, uma admiração funda, quase uma fixação: «Fui eu, sim; toquei no que era teu», como se esse ato lhes desse, por instantes, um lugar no campo gravitacional do homem que veneram e temem.

A mulher, nesse quadro, torna-se secundária: instrumento, corredor, passe de entrada. E, por isso mesmo, esses homens não hesitam em trair a própria cúmplice. Testemunham contra ela com facilidade, alinham com o marido, reforçam a narrativa do poder, porque é ali que está o verdadeiro objeto do seu apetite: a proximidade do homem forte, a sensação de que, ao ferirem o seu território, também se inscrevem na sua história.

Talvez este seja o ponto mais duro de aceitar: muitas mulheres não imaginam esta geometria secreta. Pensam que a rivalidade é apenas entre homens, que a cobiça é apenas pelo corpo, que o impulso é apenas sexual.

Não veem que, em certos casos, o ato é menos sobre prazer e mais sobre hierarquia; menos sobre amor e mais sobre a fome de significar alguma coisa, nem que seja pela porta errada.

Convém, porém, dizer também o que se esconde com frequência neste quadro: a mulher não é sempre vítima passiva de sedução, nem instrumento inconsciente de jogos masculinos. Há mulheres que traem por desespero; outras, por tédio; outras, por vingança fria; outras, por curiosidade.

Há as que procuram no amante aquilo que o marido deixou de lhes dar (atenção, desejo, conversa, riso); e há as que procuram apenas o contrário do que têm, como quem muda de cenário para respirar.

Nem todas são manipuladas: algumas escolhem de olhos abertos, sabendo o peso do que fazem, aceitando o risco. E há, também, as que mentem a si próprias, construindo justificações enquanto atravessam a porta, transformando o impulso em necessidade e a necessidade em direito. A moral aqui não é simples; seria desonesto reduzi-la.

Há ainda um detalhe que quase ninguém tem coragem de encarar, porque estraga a novela e devolve a coisa ao que ela é: fragilidade. Muitas traições não são romances; são curativos mal aplicados.

A mulher que trai e o homem com quem ela trai são, muitas vezes, duas feridas a roçarem-se no escuro. Não há projeto, não há casa, não há futuro; há uma urgência, há o desejo de anestesiar um buraco interior.

Por isso, quando chega o momento da confissão, denunciam-se com facilidade: não eram aliados, eram muletas; e muletas, quando deixam de servir, atiram-se fora.

E o que acontece ao homem traído, depois do escândalo? Alguns recuperam. Refazem a vida, recompõem a dignidade, aprendem a rir do que antes os queimava. Outros não recuperam nunca. Continuam a funcionar por fora, cumprem horários, mantêm conversas; por dentro, porém, tudo se desarrumou e já não volta ao lugar.

Há os que se tornam vigilantes obsessivos, interrogando cada gesto, cada atraso, cada silêncio; há os que se afastam de tudo, erguendo muralhas para não voltar a sentir; e há os que ficam suspensos, como quem vive num quarto que já não reconhece.

A cura, quando chega, não chega depressa: vem aos bocados, com recaídas, com um silêncio que ninguém aplaude, porque o mundo prefere o escândalo à reparação.

*Jornalista e escritor

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido