
A história de Noel Gomes Demba é um retrato da resiliência de quem enfrenta adversidades extremas. Após receber um diagnóstico de epilépsia que exigia tratamento especializado, Noel deixou Luanda, Angola, e seguiu rumo à França com o pouco que tinha, sem qualquer apoio no destino.
A barreira da língua e as dificuldades de adaptação tornaram o cenário ainda mais desafiador, levando-o a uma realidade inesperada: “Nunca imaginei acabar a dormir na rua.”
As noites ao relento, marcadas pelo frio e pelo isolamento, foram um teste à sua determinação. Com o dinheiro obtido a pedir esmolas, Noel conseguiu comprar um bilhete para Lisboa, na esperança de mudar o seu destino. Porém, a capital portuguesa trouxe novos desafios.
Durante três meses, a Gare do Oriente tornou-se a sua casa, partilhada com outros sem-abrigo que, pelo menos, falavam a sua língua. Foi através dessas interações que Noel descobriu a Comunidade Vida e Paz, organização que o ajudou a encontrar um abrigo.
Actualmente, Noel está fora das ruas e tenta reconstruir a sua vida. “A minha vida mudou, já não estou mais na rua. Tenho um lugar onde consigo dormir, deitar a cabeça”, conta, enquanto planeia regularizar a sua documentação para poder trabalhar.
Durante o dia, frequenta o Espaço Aberto ao Diálogo, em Chelas, onde encontra apoio e tranquilidade. “Gosto de ouvir as histórias dos outros ou de estar no meu canto a ler.”
A trajetória de Noel reflecte uma realidade cada vez mais comum: o número crescente de imigrantes em situação de sem-abrigo em Portugal. Segundo Renata Alves, diretora-geral da Comunidade Vida e Paz, o perfil das pessoas nesta condição tem-se diversificado.
“Temos pessoas que vieram à procura de emprego e não o encontraram, pessoas indocumentadas, ou que perderam o trabalho e acabaram por desenvolver toxicodependência e alcoolismo devido ao desespero”, disse.
Em 2023, o país registou 13.128 pessoas sem-abrigo, um aumento de 23% em relação ao ano anterior. Apesar de uma ligeira diminuição em Lisboa em 2024, verifica-se um aumento preocupante em zonas periféricas, segundo dados das associações que trabalham com esta população.
A Comunidade Vida e Paz, que apoia mais de 800 pessoas, continua a alertar para a necessidade de soluções estruturais. Uma carta aberta enviada ao Governo em 2023 destacou a urgência de respostas como habitação, balneários e moradas administrativas para facilitar o acesso a apoios sociais e ao emprego.
No dia 18 de Dezembro, o Governo português anunciou uma nova estratégia nacional para os sem-abrigo para o período 2025-2030, que prevê um aumento das respostas de alojamento, a criação de sistemas de alerta e planos de emprego personalizados.
O Orçamento do Estado para 2025 destina 11 milhões de euros para apoio a esta população, quase o dobro do montante do orçamento anterior.
Apesar das promessas, as associações e as pessoas em situação de sem-abrigo aguardam ações concretas. Para Noel, o que importa agora é manter-se resiliente, com o objectivo de reconstruir a sua vida e voltar a trabalhar.
com/CNN Portugal