Emoções de tristeza marcantes – José Carlos de Almeida
Emoções de tristeza marcantes - José Carlos de Almeida
Jose Carlos de Almeida

Há momentos emocionantes que são inesquecíveis, devido a determinadas situações e às pessoas envolvidas. Todos nós já experimentámos ou vamos ter momentos de muita emoção de tristeza, que ficarão marcados para a nossa vida”.

Sou uma pessoa que se emociona facilmente situações tristes, quer pessoais, quer de terceiros. Houve vezes que não lacrimejei. Mas houve óbitos e factos que me entristeceram imenso e que me fizeram chorar. Menciono alguns deles.

1 – A morte da minha irmã, Bela, a Isabel de Almeida, deixou muito triste! Ela morreu no parto em Benguela. Pereceu com os seus filhos gêmeos. Eu não conseguia conter as minhas lágrimas. Durante muito tempo sonhava regularmente com ela. Evitava namorar mulheres claras, pois pensava nela.

2 – Um dia recebi um telefonema da tia Fefinha para ir almoçar a sua casa, em Miratejo. O almoço estava bom! Eu estava contente pelo convívio. Depois do almoço, a minha anfitriã deu-me a notícia da morte do meu irmão Nelo, o Manuel de Almeida (xará do meu tio Sobrinho). Foram longos momentos choro e soluços, que jamais me esquecerei. O meu irmão tinha sido morto por agentes da Polícia Nacional.

3 – A morte da minha mãe, por atropelamento, foi o facto mais triste da minha vida. Alem disso, deixou-me abalado. Tinha noção de que tinha perdido uma das pessoas mais importantes para mim. A mulher que me teve, que me pôs na escola, que cuidou de mim, que impedia que eu praticasse muitas asneiras. A minha mãe não permitia que eu levasse algo alheio a casa. Quando a minha mãe morreu, estava a estudar em Lisboa. Foi a minha ex-mulher, Avelina dos Santos de Almeida (nome nupcial de então), que me dera a notícia o óbito, Nesse dia, eu estava muito triste e tão solitário. Então, fui à praia para ver o mar e tentar perceber a razão de tanta tristeza. À beira-mar, recebi o telefonema da notícia fúnebre. Chorei baba e ranho. Regressei a Luanda. Quando vi o cadáver da minha minha amada mãe. Fiquei gelado. Nem consegui chorar ou gritar. Só olhava para ela de forma incrédula. Quando regressei a casa dela, onde estavam concentradas as pessoas, ninguém me conseguiu consolar.
Quando o meu irmão Nelo morreu, tinha tinha lugar para eu dormir. A minha mãe, minha protectora, chamou para eu dormir junto dela. Dormi como uma pedra.
A minha mãe é imortal!

4 – A primeira vez que assisti ao filme “Tiranic”, devido às imagens que representavam factos trágicos, chorei imenso. A minha namorada de então, a brasileira Joseane da Macena, que esteva em minha companhia não me conseguiu consolar. Eram uma mar de lágrimas. Até hoje tenho o DVD, mas nunca mais voltei a ver o filme.

5 – Estava em casa sozinho, a assistir ao jogo do Benfica. Nesse dia, assim em directo a queda mortal do jogador Feher. Emocionei-me imenso como os adeptos e os seus companheiros de equipa, entre os quais, o Calado. Contudo, deixo bem claro que sou Sportinguista. Alguém ficou a com a minha camisola com a firma SIC.

6 – A morte trágica da selecção nacional de futebol da Zâmbia emocionou-me imenso. Nesse dia e nos dias subsequentes, imaginava-me a bordo daquele avião.

7 – A morte do Lu, o Lutero Gonçalves Cipriano Lourenço, meu amigo e companheiro de apartamento, situado em Oeiras, na Rua Bernardo Santareno, deixou-me profundamente triste. Regressados definitivamente a Angola, o Lu e eu conversávamos muitas vezes sobre obras públicas, no restaurante Chá de Caxinde. Contava com ele para ser meu assessor em matérias de obras públicas, posto que eu estava muito empenhado na candidatura a Presidente da Câmara Municipal de Luanda. Porém, o MPLA, meu partido, nunca chegou a institucionalizar as autarquias, por receio de repartir o poder local com os partidos da oposição. Perdi um amigo e uma pessoa com quem aprenderá algumas questões sobre construção. Por isso, pela amizade e convivência, chorei imenso.

8 – Um dia desses, recebi a notícia da suposta morte do meu colega da primária, meu amigo e meu compadre, Pedrada, o Pedro José Salvador. A emoção foi imediata. Chorei tanto pensando nele. O Pedrada é uma das pessoas que me conhece bem e que sabe de muito de mim, pois conviemos imenso. O Lu, Pedrada e eu éramos grandes amigos, pois convivemos imenso. Felizmente, o meu amigo e colega de carreira da Ginguba não tinha morrido. Foi um mal-entendido. Foi júbilo para mim.
Um vez escrevi-lhe uma cartão de felicitação por ter completado mais um ano de vida. Entre outras vezes, disse-lhe “Amo-te, Pedro!”.

9 – O falecimento da tia Conceição Escórcio Pacavira deixou-me profundamente triste. Ela gostava de mim e gostava muitíssimo dela. Às vezes, ia à Terra Nova visitá-la. Era agradável estar em companhia dela. Na sala ou no quintal, recebia-me com satisfação. Era um encanto de pessoa! No funeral, eu estava muito calmo, pensando no convívio com ela. Quando ouvi o Carlos Pacavira lamentar a morte da sua mãe, as lágrimas escorriam-me pelo rosto e o meu lenço de bolso ficou molhado.

10 – A morte do meu avó, Faustino André, o óbito da minha tia Maria do Céu, sua esposa; e o falecimento da minha tia Isabel Manuel Silva deixaram-me muito triste. O primeiro era o patriarca da família. Ele resolvia os problemas da família. Era o unificador. Era o centro da resolução de muito problema. A sua casa também era centro de convívio. Lembro-me de que, quando parti para Portugal, reuni os meus irmãos e primos em casa dele, na Precol, na Rua Arco-íris. Com a morte do meu avó, a tia Isabel tinha se tornado a Mamã-Grande. A concentração passara a ser em sua casa, no Projecto Nandó. Era ela quem nos contava as histórias da família. Quando eles morreram a minha família materna perdeu um grande elo. Infelizmente, até hoje, não temos um substituto ou substituta.

11 – Um dia, o meu amigo Diógenes Capamba convidou-me para ir à discoteca “Camama Tropical”. Estávamos apenas os dois. A dada altura, disse-me que ia à casa de banho. Fiquei durante muito tempo, à mesa, à espera dele. Depois de um tempo considerável, fui vê-lo na naquela compartimento, mas ele lá não estava. Fiquei agitado. Chamei dois empregados de mesa para que ajudassem a encontrá-lo. Não tivemos sucesso. Nessa altura, não consegui conter as lágrimas. Pensei que tinha sido raptado, uma vez que era (e é) funcionário bancário. Viajei em pensamentos hipotéticos. Depois, insisti na procura dele e o encontrei ao telefone, num canto discreto do exterior da discoteca. Estava a fugir ao barulho do som musical. E ele ficou a olhar para mim com incredulidade.

12 – A primeira e única vez que fui a Cabinda, foi a bordo de uma avioneta fretada pelo compositor do “Angola Avante”. Estava em companhia do Rui Mingas, António Luvualu de Carvalho e de um senhor cujo nome já não me recordo. Saímos do aeroporto à Unidade Lusíada dê Cabinda. Durante o trajecto, fui vendo a cidade. A imagem da cidade e os imóveis deixaram-me boquiaberto pela negativa. Nesse dia, lacrimejei imenso. O António Luvualu não me conseguiu consolar. A província de Cabinda não chegava ao nível da Vila Alice, em termo urbanístico e de construção de imóveis. Fiquei completamente desagradado com o que vira. Por isso, o almoço na casa do Kota parecia não ter sabor. Durante a viagem de regresso a Luanda, pensava: “Como é possível uma província ruca em petróleo e madeira estar tão subdesenvolvida?!”.

13 – Da mesma forma que sou de poucas falas, não sou de muitas andanças. sobretudo ir a locais distantes. Um dia, já há alguns anos, convidaram-me para um almoço no Zango e jogar xadrez em casa do anfitrião. Quando cheguei ao confins do Zango, numa urbanização social, sem passeio, asfalto e iluminação, fiquei muito triste. Falei mal dos governantes angolanos. Já tinha passado pela tendas. Num dado momento, saí e caminhei para ver o bairro. Quando regressei a casa do convívio e, depois de algumas conversas, emocionei-me. O Diógenes Capamba ficou a olhar para mim cheio de pena. Nesse dia, apanhei uma tarei no xadrez. Até perdi com o.anfitriã, que era o mais fraco entre os jogadores. Do dia em que fui ao Zango, pensei na música de Santocas. Gostava que ele tivesse tido a coragem de fazer uma nova versão da sua música “Bairro Indígena”.

*Escritor

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