
Recentemente, durante o palco solene da diplomacia mundial, a Assembleia Geral das Nações Unidas, ouvimos do Chefe de Estado angolano uma declaração que, para quem vive a realidade do país, soa não como um relato de esforço, mas como uma negação da verdade. E a verdade, é um valor imperativo que precisa ser reposto.
Mentir na tribuna das Nações Unidas é equiparado ao servo de Deus que sobe ao púlpito e falta com a verdade. Em ambos os casos, há um profundo desrespeito ao lugar sagrado da palavra, à um espaço onde a confiança pública é depositada e onde a verdade deve ser um princípio inegociável.
No púlpito, a mentira afasta os fiéis, corrompe a mensagem e escandaliza a comunidade. Na ONU, ela pode gerar desinformação, alimentar conflitos, perpectuar injustiças e obscurecer o caminho da paz.
Afirmar, diante do mundo, que o governo tem feito um “trabalho diário” para garantir água potável, alimentação, saúde e educação às famílias angolanas é, no mínimo, um exercício de ficção política.
Trata-se de uma das maiores inverdades ditas perante a comunidade internacional. É uma tentativa de maquilhar, com palavras bonitas, uma realidade que grita nos rostos e corpos de milhões de angolanos abandonados à própria sorte.
Seria desejável que espaços como a Assembleia Geral das Nações Unidas não fossem apenas vitrines de discursos cuidadosamente ensaiados, mas verdadeiros campos de debate político, onde o contraditório tivesse espaço e onde a realidade dos povos fosse, de facto, representada.
Mas, infelizmente, o que se ouve nesses palcos, na maioria das vezes, são discursos que insultam a inteligência dos povos que os líderes formalmente representam.
Que esforço diário é esse, Excelência, quando a fome mata e empurra milhares de famílias aos contentores de lixo? Quando, nas ruas de Luanda e não só, vemos crianças a revirar sacos de lixo em busca de algo que possa enganar seus estômagos vazios?
Aliás, a fome, esse flagelo diário que destrói vidas em silêncio, foi relativizada pelo próprio Chefe de Estado, como se se tratasse de uma questão secundária ou quase irrelevante. Mas a fome não é retórica, não é uma invenção. A fome é real e mata.
Que esforços são esses que se têm feito no sector da saúde, quando os próprios governantes fogem do sistema nacional de saúde que dizem estar a cuidar?
Nem mesmo a simples dor de cabeça se tratam nas nossas unidades hospitalares. Então, a nossa qualidade é hipotética, não merece a vossa confiança, ou só serve para os pobres?
E na educação? Que trabalho diário é esse quando mais de 4 milhões de crianças continuam fora do sistema de ensino? Quando salas de aula improvisadas, sem carteiras, sem professores qualificados e sem material didático, são chamadas de “escolas”? Isso não é progresso, é abandono institucionalizado.
Ouvem, conversem com o líder do MEA ( Francisco Teixeira), ele tem os melhores dados sobre o sector.
Quanto à água potável, talvez basta lembrar que nem mesmo na capital do país essa é uma realidade garantida. Em Luanda, muitos bairros vivem há décadas com abastecimento irregular ou inexistente.
Fala-se de investimento, de projetos, de promessas. Se no coração do país não tem, imaginem no interior? Eu, a título de exemplo, trabalho numa zona, comuna de Mabaia – Kimaria, a água que se bebe, nem aos vossos cães se vocês dariam.
Seria bom se os palcos internacionais deixem de ser apenas para a diplomacia da aparência e passem a ser espaço da verdade concreta, da política com propósito e da voz dos que não têm voz.
E que a próxima vez que um Chefe de Estado subir à tribuna das Nações Unidas, leve consigo não um discurso pronto, mas um compromisso verdadeiro com o povo que o elegeu, ou, ao menos, com a verdade.
Pois, a retórica pode ser bonita, mas não sacia a fome, não cura a doença, não ensina a criança e não mata a sede.
Nos respeitem, por favor.