Entre o sacrifício e o suicídio – Mário Ndala
Entre o sacrifício e o suicídio - Mário Ndala
Suicidio

Há na natureza humana uma inclinação para o sacrifício, uma disposição quase poética de nos doarmos em prol de outro ser. Esta nobreza intrínseca torna-se um farol em tempos de tempestade, orientando acções e decisões, muitas vezes sem questionamentos. Porém, nessa generosidade, surge uma linha ténue, quase imperceptível, que separa o sacrifício genuíno do suicídio emocional.

Quando esse sacrifício é dedicado a alguém que não reconhece o seu valor, deixa de ser um acto de amor, transformando-se numa sentença de auto-desvalorização.

O sacrifício, na sua essência, carrega a ideia de renúncia por um bem maior, uma entrega que alimenta e fortalece. Mas, quando essa entrega se direcciona a uma pessoa errada, deixa de ser um investimento para se tornar uma perda.

A pessoa errada é aquela que, independentemente do quanto receba, jamais vê o valor do que lhe é dado. Absorve, consome, mas não reflecte, nem retribui. Aos poucos, o sacrifício dilui-se num vazio, e o que era para ser uma ligação transforma-se num abismo.

Este abismo, contudo, não é criado apenas pela falta de reconhecimento do outro, mas também pela persistência em ignorar os próprios limites. O sacrifício torna-se suicídio quando se opta por descurar os sinais de que o amor-próprio está a ser sacrificado no altar de uma causa perdida. É um suicídio emocional, um lento desvanecer da própria essência, onde cada acto de doação não representa um passo em direcção ao outro, mas um afastamento de si mesmo.

A verdadeira tragédia desse sacrifício mal direccionado é que ele é frequentemente enaltecido como virtude. A sociedade louva a abnegação, muitas vezes sem questionar a saúde ou a reciprocidade dessa entrega.

Mas há uma diferença abismal entre ser generoso e auto-lesivo. A generosidade é uma via de mão dupla, onde dar e receber se equilibram numa dança harmoniosa. A auto-lesão, por outro lado, é um caminho solitário, cujo único destino é o esgotamento.

Reconhecer a pessoa errada para o nosso sacrifício exige uma clareza brutal e uma coragem ainda maior. É necessário ter a audácia de admitir que o amor, por mais puro que seja, nem sempre é suficiente para mudar alguém ou para tornar uma relação saudável.

O verdadeiro sacrifício, aquele que realmente vale a pena, é aquele feito por alguém que compreenda e valorize a renúncia, alguém que, em retorno, está disposto a sacrificar-se também.

No final de contas, o maior sacrifício que podemos fazer é por nós mesmos: escolher-nos em meio ao caos, amar-nos o suficiente para reconhecer quando a entrega se torna um suicídio emocional. Esse é o sacrifício supremo, o acto de salvarmo-nos das chamas de um amor que consome mais do que aquece. E, talvez, na escolha de preservar-nos, encontremos o verdadeiro significado do sacrifício: um acto de amor profundo, não apenas pelos outros, mas, primordialmente, por nós mesmos.

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