
Ouvimos há alguns dias muita gente, incluindo académicos, congratular se com a implementação de uma coisa à que estão a chamar de Faculdade da Oralidade, a ser construida no Reino do Bailundo, província do Huambo. O que não ficou claro é saber se aquilo é uma iniciativa cultural ou académica.
Para além de qualquer debate, seria essencial esclarecer se se trata de uma iniciativa cultural ou académica. Afinal, o contexto define não só os propósitos como também a abordagem e as entidades competentes envolvidas. Sem esse detalhe, qualquer análise ou julgamento pode cair no vazio.
Se é uma iniciativa cultural, podiam ter inventado qualquer outro, menos o nome “Faculdade da Oralidade”. Insistindo em tal nome, então deveria ser entendido no seu sentido figurado, como uma forma de valorizar e institucionalizar práticas e tradições ligadas à oralidade.
No entanto, devia ter se o cuidado de esclarecer o público que não se trata de uma instituição académica formal e sim de um projecto cultural que pretende destacar a importância da transmissão oral de conhecimentos, narrativas e histórias.
Como disse, a escolha deste nome é passível de gerar confusão, especialmente em contextos em que “faculdade” está directamente associado a instituições de ensino superior.
Para evitar mal-entendidos, seria mais prudente adoptar uma outra denominação qualquer que deixasse clara a natureza cultural do projecto, como “Centro Cultural da Oralidade” ou “Academia de Tradições Orais”, por exemplo. Dessa forma, a iniciativa continuaria a cumprir o seu papel sem provocar equívocos.
Concordemos que a oralidade é uma herança cultural africana de valor inestimável, mas é fundamental abordá-la com pragmatismo, especialmente ao integrá-la no contexto académico.
Sendo uma iniciativa académica, há aqui alguns equívocos que é preciso esclarecer:
1. Reconhecer o impacto do colonialismo sem ficarmos presos ao passado – É verdade que o colonialismo deixou marcas profundas na cultura africana, mas também é crucial que olhemos para o futuro.
Não se trata de regressar ao passado como um exercício nostálgico, mas de construir uma identidade africana moderna que integre o melhor do legado oral com as exigências do mundo contemporâneo.
2. Crítica ao nome “Faculdade da Oralidade” – A escolha de um nome como “Faculdade da Oralidade” é, no mínimo, problemática, para não dizer que é resultado da nossa burrice exacerbada e analfabetismo científico!
A academia baseia-se em princípios como a documentação, a escrita e a transmissão estruturada de conhecimento. Associar a oralidade directamente ao conceito de “faculdade” pode parecer contraditório e até forçado.
O uso do termo “faculdade” implica uma formalidade que historicamente está vinculada ao registo escrito, algo que a oralidade, por sua natureza, não prioriza.
3. Escrita como base da academia – A essência da universidade é a preservação e expansão do conhecimento por meio da documentação escrita, que garante a sua perpetuação e universalidade.
A oralidade tem um valor cultural inestimável, mas, no contexto académico, é fundamental que seja documentada, analisada e criticada dentro de um quadro metodológico claro.
Uma abordagem mais adequada poderia ser a criação de um centro de estudos ou instituto de preservação da oralidade africana, que trabalhasse na transição da tradição oral para formatos documentados e digitais.
4. Universidades não são apenas edifícios – As universidades não se criam apenas com decretos ou com a construção de edifícios. A sua essência está em responder a necessidades específicas da comunidade e em contar com um corpo docente qualificado e currículos robustos.
Iniciar um projecto desse porte sem os elementos básicos é “colocar a carroça à frente dos bois”.
5. A relevância do currículo e dos professores – Para que uma iniciativa como esta seja bem-sucedida, é fundamental desenvolver currículos que sejam relevantes, alinhando-se às necessidades contemporâneas sem negligenciar os valores e saberes tradicionais.
De acordo com as recomendações das Ciências Pedagógicas, esses currículos devem promover o pensamento crítico, a interdisciplinaridade e a contextualização prática, garantindo que o processo de ensino-aprendizagem seja significativo e transformador.
Paralelamente, é imprescindível investir na formação especializada dos professores, capacitando-os com metodologias pedagógicas modernas, domínio das tecnologias educacionais e estratégias para integrar conhecimentos tradicionais e competências académicas actuais. Sem esses alicerces pedagógicos sólidos, o projecto corre o risco de carecer de credibilidade e eficácia, comprometendo os seus objectivos antes mesmo de começar.
Concluindo, embora a intenção seja louvável, a execução precisa ser repensada. É necessário garantir que o projecto respeite os princípios académicos, que seja viável e que tenha impacto real na preservação e valorização da oralidade africana.
Iniciativas mal planeadas podem acabar por desvalorizar aquilo que se pretende enaltecer, e esse seria um resultado contraproducente para a cultura africana.
*Docente universitário