Família Jaffer: os donos da “Suave”
Família Jaffer: os donos da "Suave"
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Os irmãos indianos, Sameer Amin Hussein Jaffer e Khalid Jaffer dividem, em partes iguais, o capital da SICIE, empresa por detrás da marca Suave. Fundada em 1997, a sociedade cresceu da produção de artigos básicos de higiene para um negócio industrial com dezenas de pontos de venda, várias marcas e uma facturação de 41 mil milhões de kwanzas em 2021.

Por detrás da marca Suave, presente no quotidiano de muitos consumidores angolanos, está uma história empresarial com quase três décadas e protagonizada pela família Jaffer.

A SICIE – Sociedade Industrial e Comercial, Importação e Exportação, Lda., nasceu em Janeiro de 1997, em Luanda, com um objecto social que abrangia o fabrico e a comercialização de produtos plásticos, artigos de panificação e outros bens.

Com o passar dos anos, a empresa foi mudando de rumo, apostando na indústria de higiene e limpeza e construindo uma operação que hoje tem expressão nacional.

A estrutura accionista actualmente documentada coloca Sameer Amin Hussein Jaffer e Khalid Jaffer no centro da propriedade da sociedade. Cada um detém uma quota de 50 milhões de kwanzas, correspondente a metade do capital social, fixado em 100 milhões de kwanzas.

A configuração resulta de alterações registadas a 27 de Janeiro de 2023, quando Khalid Jaffer adquiriu a participação anteriormente pertencente a Amin Mohamed Jaffer, passando a deter uma quota igual à de Sameer.

A história da sociedade, porém, começa com uma composição familiar mais alargada. No contrato original figuravam Amin Mohamed Jaffer, Cherif Ahmed Ould Bah, Shamshir Jaffer e Anil Jaffer.

As sucessivas cessões de quotas, alterações ao pacto social e mudanças na gerência foram redesenhando a estrutura da empresa, com a entrada de novos membros da família e a concentração progressiva das participações.

Em 2010, o registo documentou inclusivamente transmissões de quotas a favor de herdeiros de Anil Hussein Jaffer. Anos mais tarde, a propriedade acabaria por ficar repartida entre Sameer e Khalid.

É Sameer Amin Hussein Jaffer quem surge publicamente mais associado à condução executiva da marca. Em entrevista concedida à publicação internacional The Business Year, em Maio de 2022, apresentou-se como director executivo da Suave e falou sobre o percurso da empresa, a sua estratégia industrial e as perspectivas de crescimento.

Nascido em Toronto, no Canadá, e criado naquele país, estudou na Carleton University, em Ottawa, antes de regressar a Angola para integrar o negócio familiar.

O seu percurso ilustra a passagem de uma geração para outra na condução da empresa, num processo em que a gestão e a expansão industrial passaram a ocupar um lugar central.

A aposta na produção ganhou forma num período em que a actividade industrial em Angola enfrentava dificuldades estruturais, desde as limitações no fornecimento de energia às fragilidades das infra-estruturas.

A empresa começou a desenvolver a sua capacidade produtiva em 1997, mas foi sobretudo depois do fim da guerra, em 2002, que encontrou condições para ampliar a actividade.

O negócio, inicialmente associado a artigos básicos, como papel higiénico e guardanapos, foi alargando o catálogo. Em 2007, a Suave desenvolveu linhas de fraldas para bebés e pensos higiénicos e, em 2015, avançou para fraldas destinadas a adultos.

A diversificação transformou-se numa das marcas da estratégia empresarial. Para além dos produtos de higiene pessoal, a SICIE passou a trabalhar em artigos de limpeza doméstica e profissional, detergentes e outras soluções de consumo.

A empresa apresenta actualmente, além da Suave, as marcas Brilux e LavaPro, procurando responder a diferentes segmentos do mercado.

Na entrevista de 2022, Sameer Jaffer referiu que o portefólio ultrapassava as 175 referências e que a empresa contava com cerca de 40 pontos de venda.

Na mesma ocasião, estimou em aproximadamente 70% a sua quota no mercado informal de produtos de higiene, número que deve ser entendido como uma declaração do gestor naquele período, não como uma medição independente ou actualizada do mercado.

Expansão

A expansão da rede comercial acompanhou o crescimento industrial. Os registos da sociedade documentam a abertura de estabelecimentos em várias regiões do país, entre as quais Benguela, Huambo, Malanje, Uíge, Huíla, Cabinda, Zaire, Moxico, Namibe e Lunda Norte.

Em 2022, a empresa referia cerca de 40 pontos de venda, enquanto a página institucional da Suave apresenta 56 resultados na sua rede de lojas.

Os dois indicadores, embora reveladores da dimensão da distribuição, não são directamente equivalentes ao número de filiais juridicamente registadas, nem permitem, isoladamente, determinar a dimensão actual da operação.

A expansão não se limitou à distribuição. Khalid Jaffer, identificado publicamente como administrador-geral da empresa, esteve associado a uma das apostas industriais anunciadas em 2022: a construção de uma fábrica de detergentes em Viana, num investimento previsto de 17 milhões de dólares.

O projecto deveria reforçar a capacidade produtiva e criar cerca de 350 postos de trabalho. A iniciativa representava mais um passo na diversificação do negócio, ao procurar reduzir a dependência de categorias tradicionais e ampliar a oferta no segmento de limpeza.

Os números financeiros conhecidos ajudam a perceber a dimensão que a empresa atingiu. Segundo o jornal Expansão, a Suave facturou 41 mil milhões de kwanzas em 2021, recuperando da quebra registada no ano anterior, durante o período mais afectado pelas restrições associadas à pandemia da Covid-19.

Na altura, as fraldas descartáveis destacavam-se como o principal produto em termos de produção e vendas. A actividade chegava também a mercados vizinhos, nomeadamente à República Democrática do Congo e à República do Congo, embora parte desse escoamento fosse assegurada por comerciantes e retalhistas que compravam produtos nas lojas da empresa junto às fronteiras.

Em declarações então publicadas, Sameer Jaffer reconheceu que a empresa não realizava directamente essas exportações, circunstância que limitava o controlo sobre o destino dos produtos e a capacidade de captar maior valor na comercialização internacional.

A própria sociedade continua a adaptar formalmente o seu campo de actividade. Em Maio de 2026, uma alteração ao pacto social alargou o objecto da SICIE à transformação, fabrico e comercialização de papel higiénico, fraldas, pensos higiénicos, produtos de higiene e limpeza, bem como ao fornecimento e distribuição de medicamentos, produtos farmacêuticos e equipamentos hospitalares, mantendo ainda o comércio geral, a importação e a exportação.

A certidão comercial foi transcrita em Março de 2026, na sequência da extinção da Conservatória do Registo Comercial de Luanda, preservando o histórico da sociedade e das suas alterações.

Quase 30 anos depois da constituição da SICIE, a família Jaffer mantém-se, assim, no centro de um negócio que cresceu à volta de bens essenciais, conquistou espaço na distribuição nacional e procurou alargar a sua presença industrial.

Sameer e Khalid representam hoje, no registo, duas metades de uma mesma empresa. A dimensão que a Suave alcançou faz da sua história não apenas um percurso de crescimento familiar, mas também um retrato das oportunidades, das exigências e dos desafios de construir uma marca industrial num mercado como o angolano.

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