Fim do Françafrique e a “segunda independência” da África francófona – Faustino Henrique
Fim do Françafrique e a “segunda independência” da África francófona - Faustino Henrique
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A onda de contestação sem precedentes que algumas potências ocidentais enfrentam em África, traduzida em mudanças político-constitucionais, legais, por via de eleições democráticas, como as sucedidas no Senegal, e ilegais, como as ocorridas no Níger e Mali, apenas para mencionar estes países, acompanhadas do despertar da população para colocar fim às relações económicas desiguais, que configuram espécie de neocolonialismo, auguram o fim de um período e o início de outro.

Trata-se de um fenómeno político, social, cultural e económico por que passam numerosos países africanos, sobretudo ex-colónias francesas que, pelas mais variadas formas, pretendem reconfigurar as relaçõs entre ex-colónias e ex-potências coloniais, conduzido por uma geração herdeira dos movimentos anticoloniais.

Mouhamadou Moustapha Sow, professor de História na Universidade Cheikh Anta Diop, de Dakar, escreve que “os objectivos destes movimentos que fazem da oposição à França a sua identidade, as exigências que colocam, as formas de acção e a memória e as referências linguísticas que mobilizam lembram, em muitos aspectos, os movimentos anticolonialistas e anti- imperialistas do período entre as décadas de 1960 e 1970”.

Quer dizer, parece estar em andamento, em grande parte das ex-colónias francesas em África, uma espécie de reivindicação de uma segunda independência.

E na ressaca do sentimento anti-francês, países como os Estados Unidos acabam por pagar por tabela, sendo inseridos num segmento único das potências ocidentais em oposição à crescente inclinação para países como a Rússia e China, que ganham espaço de actuação em África.

Vale analisar aqui se o actual contexto de repúdio das potências ocidentais se deve unicamente ao legado colonial e à realidade ainda vigente das relações económicas profundamente desiguais, ao despertar de uma geração que não viveu exactamente a era colonial e não está comprometida com um conjunto de factos e números dos laços económicos e comerciais ou simplesmente a atracção que representa o entendimento com a Rússia e a China.

Não há dúvidas de que as duas realidades, legado das relações com as potências ocidentais e a inclinação para com a Rússia e a China, vão prevalecer em África como dois pólos opostos que vão ditar o posicionamento político das elites no continente, numa altura em que a segunda ganha terreno quase na mesma proporção da rejeição da primeira.

À semelhança dos anos 60 do século passado, quando os ventos de independência sopravam pelo continente, em que os países emancipados “se desfaziam”, pelo menos politicamente, das suas ex-metrópoles, e pendiam para o Leste, hoje, as ex-colónias francesas estão a fazer quase o mesmo movimento.

Daí algumas vozes encararem essas manifestações de desmistificação de conceitos como Françafrique e de tudo o que ela envolve, a presença militar, a precedência que as empresas francesas têm em relação às demais de outros países, o Franco CFA, assemelhar-se a uma alegada necessidade de novas independências para tais países.

E a ex-potência que mais contestação sofre, nos últimos anos, é, sem sombra de dúvidas e por razões historicamente óbvias, a França, a julgar pela numerosa legião de ex-colónias em África.

O chamado Françafrique, um conceito que virou modo de a França lidar com as suas ex-colónias e vice-versa, engajou gerações de políticos dos dois lados em mais de 50 anos, reflectindo uma dependência estrutural em todas as áreas da vida de um Estado.

Lembra o político e activista senegalês de esquerda, Diallo Diop, que o conceito de Françafrique, criado pelo economista francês, François Xavier Verschave, pode se “descrever como uma relação doentia e incestuosa que liga o Estado francês aos Estados resultantes das suas ex-colónias”.

Issa N’Diaye, filósofo e ex-ministro da Educação Nacional do Mali (1991 a 1992) e da Cultura e Investigação Científica (1992 a 1993), por sua vez, define Françafrique como “uma espécie de tutela que não diz o seu nome e que consiste em fazer os interesses da França, os interesses das empresas francesas, das multinacionais francesas, prevalecerem sobre os da população”.

Diz o autor que “a França não vai querer se livrar da Françafrique e alguns líderes africanos também. Mas os jovens actuais que estão nas redes sociais, que têm uma grande abertura para o mundo, que vêem o que se passa noutros lugares, aspiram a outros horizontes que não os da Françafrique. Os jovens querem revisitar as relações entre França e África, tenho a impressão de que as elites francesas não compreendem esta necessidade de abertura dos jovens de hoje”.

De facto, as mudanças políticas em muitos países, acompanhadas pela crescente solidificação da opinião pública que parece repudiar a prevalência de um estado de coisas que muitos pretendem ver o seu fim, representam o envio de uma mensagem clara a países como a França e, de uma maneira geral, para as potências ocidentais.

A 29 de Abril, o conselheiro presidencial francês para África, Franck Paris, chefe da “célula africana” no Eliseu, realizou uma reunião com activistas africanos, vindos do continente e da diáspora, para explorar as razões do desencanto, tendo ficado assente que os visados não são os cidadãos franceses como tal, mas sim uma certa política africana da França.

Obviamente, muitos duvidam de que a contrapartida ou alternativa em que se baseia grande parte deste sentimento anti-ocidental, a favor de maior abertura para a cooperação com países como a China e a Rússia, vá ser uma aposta que suplante os valores ocidentais e proporcione efectivamente uma segunda independência para a África francófona. Será?

*Jornalista

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