Garganta funda do SIC sob pressão – Jorge Eurico
Garganta funda do SIC sob pressão - Jorge Eurico
SIC angola

A verdade em Angola não liberta. Condena. É crime. Quem diz a verdade é julgado e condenado. O cidadão-eleitor e contribuinte tem medo do SIC. Inspira desconfiança. A solução passa pelo seu desmantelamento e refundação. Caso contrário, o SIC tornar-se-á o canteiro onde o crime organizado floresce em Angola.

Gelson Quintas (Man Genas) era traficante de droga. Um boy bandido. Depois tornou-se informador do SIC. Um Garganta Funda. A vida corria-lhe de feição como delator. Até dar para o torto. Até querem cortar-lhe a garganta funda.

De colaborador do SIC passou a perseguido. Botou a boca no trombone. Denunciou a marosca praticada por agentes do SIC mancomunados com dirigentes no tráfico de droga. Pagou caro.

Foi perseguido. Ameaçado. Silenciado. Atentaram várias vezes contra a sua vida. No fim, o Sistema vingou-se com a pena máxima da verdade: três anos e seis meses de prisão efectiva.

Hoje, a história repete-se. O mesmo padrão: Colaboração. Corrupção e perseguição. O mesmo guião. Outro protagonista. Afonso Mendes tem 37 anos. Foi delator de confiança do SIC, sem vínculo formal, desde 2023. Recentemente, escreveu uma carta de oito páginas ao chefe do SINSE a pedir socorro.

O documento é uma bomba. Relata perseguições. Espancamentos. Ameaças de morte. Diz ser alvo de oficiais do Serviço de Investigação Criminal. Pede protecção urgente.

Afonso Mendes foi recrutado como “pessoal de confiança” pelo comissário Rufino Gunza. Trabalhou sem salário, sem contrato, sem protecção. Um informador útil. Um delator. Outro Garganta Funda descartável.

Diz ter fornecido informações que levaram a detenções e apreensões: droga, diamantes, dinheiro falso. Mas o resultado final nunca batia certo. O dinheiro desaparecia. A droga encolhia. A verdade sumia.

Mendes viveu meses nas instalações do SIC, em Cacuaco. Depois, na casa do director, em Benfica. Ali, diz ter assistido a subornos pagos para entrar e subir de posto. Quem pagava, subia. Quem denunciava, caía.

Em Maio do ano em curso, foi preso e espancado. Cinco dias de cárcere privado. Sem comida. Sem culpa. Sem defesa. Um oficial apontou-lhe a arma à cabeça: “Essa é a merda que vou enfiar-te na cabeça.”

Agora, Mendes está sob pressão. Vive escondido. Vive a olhar por cima do ombro. Sem casa. Sem família. Sem paz. Suplicou ao chefe do SINSE que o salve. “Por essa pátria, com fé e esperança”, escreveu.

Num País onde a verdade é crime, o delator é o condenado. Afonso Mendes é o retrato cru de uma Angola sem bússola. O Executivo persegue quem o serviu. Em Angola, o medo impera. O silêncio treme. O Ministério do Interior não respondeu. O SIC também não. Silêncio total. E em Angola, o silêncio é a forma mais elegante de confirmar tudo.

A carta de Afonso Mendes é mais do que uma denúncia. É um espelho. Mostra um Estado que se alimenta da sua própria podridão. Mostra uma polícia que prende quem ajuda e protege quem paga.

Quando o cidadão teme e desconfia do SIC, a solução não é apenas mudar rostos: É desmantelar e refundar o serviço. Quando um cidadão foge da polícia e se refugia nos serviços de inteligência, o Estado já se encontra em colapso. Não é só corrupção. É decadência moral.

Em países sérios, haveria investigação. Audições. Comissão Parlamentar de Inquérito. Em Angola, há silêncio. Silêncio e medo

*Jornalista

Nota: O título é da inteira responsabilidade da direção deste jornal.

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