“General Foge a Tempo conseguiu tornar-se um nacionalista com consenso nacional” – Costa Vilola
"General Foge a Tempo conseguiu tornar-se um nacionalista com consenso nacional" - Costa Vilola
Costa Vilola

O General Foge a Tempo é uma figura emblemática que surgiu quando o grupo humorístico Os Tuneza, na altura composto por cinco elementos, foi convidado pela ZAP Estúdio para apresentar um programa televisivo de entretenimento.

“Fomos convidados pela ZAP Estúdio para fazer um programa e exigiram-nos que trouxéssemos algo nunca visto em Angola, fora dos padrões daquilo que era habitual”, contou Costa Vilola.

O grupo então decidiu criar uma família e concebeu o programa “No Kubico dos Tuneza”. Na fase de pesquisa para a composição dos personagens Costa Vilola cruzou-se com o mais velho Amadeu Amorim, um antigo combatente que lamentava a desvalorização desta classe que tanto fez pela Independência Nacional e que se confrontava com a falta de interesse da sociedade pelos seus problemas e pela preservação do legado histórico e, ainda, “pela forma errada como se contava a História de Angola”.

Foi assim que, segundo Costa Vilola, surgiu a inspiração para a criação do personagem General Foge a Tempo. O Jornal de Angola procurou entender a composição deste personagem representado por Costa Vilola.

Eis a conversa que manteve com o actor:

Os antigos combatentes, no geral, sentem-se desvalorizados?
Esta franja que muito fez pelo país lamenta muito pela sua desvalorização, tanto pela sociedade como pelos próprios familiares. Os Tuneza, de uma forma humorística, decidiram trazer as dores dos antigos combatentes para despertar a sociedade em geral para os seus valores e contar da melhor forma o seu legado histórico. O nosso interesse sempre foi defendê-los, mostrar a sua valorização e consideração. Por esta razão tornámo-nos interlocutores válidos e decidimos falar por eles. São pessoas que deram muito pelo país e já estavam a ser jogadas à mendicidade. De forma solidária o grupo decidiu apoiá-los, com a criação do personagem General Foge a Tempo, um antigo combatente que ganha somente 23 mil kwanzas, vive mal, a sua vida não melhora e está sempre com umas meias vermelhas furadas, sandálias estragadas, calças velhas, boina e muita história da época em que serviu a Pátria, o que é característico dos antigos combatentes.

Por quê o protesto?
O que se pretendia com o personagem era abraçar a causa e protestar num programa televisivo. Protestar com diplomacia, sem qualquer radicalismo característico das pessoas que decidem defender uma classe. E, graças a Deus, o personagem caiu nas graças do povo e hoje é um grande sucesso.

Como tens feito para montá-lo? Nota-se que ultimamente estudas muito sobre a história do nosso país para conseguir fazer o personagem e ter uma relação próxima com os generais que ainda estão no activo…
É necessária muita pesquisa sim, e graças a Deus os próprios protagonistas, sem distinção, todos eles, aceitaram o personagem, porque ele não foi particularizado. Houve uma época em que a juventude começou a falar muito sobre política, o General Foge a Tempo conseguiu tornar-se um nacionalista com consenso nacional. Todos os mais-velhos generais que andam pelas ruas de Luanda contam sempre alguma coisa que tenham vivido e feito no passado por este país, então, tanto eu como muitos outros jovens hoje temos interesse em estudar mais para falar de política e estamos a procurar beber da fonte oral, dos próprios protagonistas.

Tem algum general específico que te inspira para a montagem tão perfeita do personagem?
Todos eles são fontes de inspiração para o personagem. Durante este tempo que o grupo virou o seu trabalho em prol dos antigos combatentes, temos feito muita pesquisa e descobrimos que todos eles adquirem uma certa característica comum, tornam-se iguais, com o mesmo comportamento, sem descurar o partido político a que pertenciam, vivem muito com o sentimento de serem eles que construíram e fizeram muito pela Pátria. Com o passar do tempo tornam-se homens rabugentos (risos).

Quanto à inspiração, tenho conversado muito com os generais Eusébio, Antas, Ernesto Mulato, o director provincial dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, o kota Domingos, o comissário Aniceto e os generais Nando, Mário e especialmente o general Furtado. São muitos e recebo mensagens a encorajar a continuidade do personagem e histórias que acrescentam.

Quanto tempo levas a montar as falas e as histórias do general Foge a Tempo?
Aqui está o segredo do sucesso. Por esta razão não gosto de falar sobre o assunto, mas garanto-lhe que não tem sido fácil. Retiro-me por dois dias para estudar e para tal afasto-me de tudo, sem telefone, amigos, família, fico até de madrugada a estudar, pois sou perfeccionista. Procuro a perfeição para manter o personagem com a mesma aceitação e o jejum é a chave. E desde já peço desculpas aos meus amigos pelo isolamento a que me submeto dias antes da actuação.

O personagem hoje deixou de ser uma simples brincadeira e passou a ser uma referência nacional, tenho noção da responsabilidade e por isso tenho de contar apenas a verdade e para tal exige-se muito estudo e pesquisa.

O que te tem rendido o personagem que representa a Defesa Nacional?
A relação com o ministro da Defesa Nacional, Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria estreitou-se, o que tem dado maior visibilidade ao personagem, além da televisão. Hoje em todos os eventos realizados por este Ministério, ligados aos antigos combatentes, o personagem faz parte da delegação, o que me leva a estudar muito mais, pois têm demonstrado confiança na qualidade do trabalho e o personagem não sofre censura, razão que me leva a ter muita responsabilidade com as histórias do país.

Pela expansão do personagem, como fica o grupo?
O personagem é uma propriedade dos Tuneza. Ainda actuamos em grupo. Actualmente, o mais requisitado tem sido o personagem do General, então criámos um acordo interno. O nosso lema é: “Não fazemos arte para nós, mas sim para as pessoas que com ela se identificam”. Hoje o General vem proteger e manter o grupo.

Consta do meu livro [“Eu Mudei, Tu Podes – Do Quase Nada ao Quase Tudo”] uma nota que tenho levado para a vida e tem ajudado bastante o crescimento do grupo: “O ser humano deve usar o seu talento para liderar e não humilhar”. Neste momento de glória, em que a minha carreira tem iluminado a minha vida em vários aspectos, não vou deixar de abarcar os meus, não é porque estou no auge com um personagem que vou abandonar o meu grupo de amigos e de trabalho. Estou a usar este crescimento para solidificar o grupo.

Se o personagem General Foge a Tempo é o mais requisitado no momento, como fica a questão financeira do grupo, visto que só um traz dinheiro?
É verdade que ultimamente tem sido apenas o personagem do General o mais requisitado, as pessoas hoje só querem ver o Foge a Tempo. Sendo membro dosTuneza, continuamos a ser uma equipa. O que ganho com as actuações do personagem é dividido por igual a todos.

Neste momento os holofotes estão virados apenas para mim e tenho esta responsabilidade de ser o exemplo, pois o que uniu os Tuneza é o amor e não o dinheiro, razão pela qual este assunto não tem sido um problema para nós.

Ainda há muitas histórias para o personagem do General? E quanto à sua expansão?
Para a expansão do personagem, estou a aceitar alguns projectos, convites, ideias e sugestões de fãs e do Órgão de Defesa para elevar e alargar o raio de pesquisa e divulgação da história da guerra de Angola com o personagem do General. Não procuro historiadores, tenho o cuidado de conversar com as próprias fontes, que, para mim, são mais fiáveis. Há poucos dias, em conversa com um mais velho, expliquei-lhe que muitos de nós, ao contar a história, colocamos dois sentimentos que não podem ser postos no coração de um historiador, que são “o ódio e a bajulação”. Um historiador tem de trazer a verdade, pois com o ódio oculta-se uma parte da história e impõe-se a vontade do historiador que esconde a outra parte. Enquanto que a bajulação permite o exagero para atrair a atenção e ocultar a verdade, pois uma história deve ser contada com justiça.

Quais são os projectos que o grupo tem por realizar?
Continuamos com muitos espectáculos do grupo e pretendemos fazer o enquadramento de algumas pessoas. No início de Maio do ano em curso, o grupo vai para Portugal e ficará por lá mais de um mês, a fazer o programa “Tropa dos Tuneza”. Vai levar vários humoristas do país e para tal contamos com o patrocínio da Disney. O grupo voltou a assinar o contrato com a Disney, sendo o único de artistas angolanos com contrato com a Disney.

O programa vai permitir, de igual modo, que várias figuras públicas angolanas também façam parte do programa. Para este ano, o grupo conta com uma agenda ampla de espectáculos e vai fazer uma digressão pelo país, a começar na província de Benguela e vai até ao Namibe.

Com 21 anos de carreira, o que o grupo ainda tem para apresentar?
Garanto-lhe que os Tuneza vão continuar a ser aquilo que sempre foram e muito mais. Nestes 21 anos de carreira, o grupo ganhou muitas formas, ou seja, mutações. Somos um grupo de mutantes (risos) que está constantemente a transformar-se e a reinventar-se. Não trabalhamos para nós e sim para as pessoas, somos aquilo que as pessoas desejarem, um grupo de humoristas que actua em assuntos sociais com leveza, empatia e carisma. Vamos continuar a trabalhar e a trazer trabalhos com qualidade.

Ser humorista é exactamente o que querias fazer?
O humor nasceu em mim e depois passou a ser a coisa que eu sempre quis fazer. Cresci no Sambizanga com o mais velho Bangão (em memória), Quintino da Banda Movimento, Cisco (em memória), que era primo do Quintino, também circulava muito pela minha rua, que tinha um largo, digamos, de malucos. O próprio Quintino, em cinco minutos de conversa com ele, saberás logo que ele é mais humorista do que um guitarrista (risos). Carinhosamente o trato por Kota Maluco. Ele sempre transmitiu para mim uma boa energia. Além da convivência numa banda de loucos, venho de uma família com uma veia humorística muito forte. Os mais velhos, que sempre viram muito talento em mim, sempre me tratavam por Chalado. Hoje sou o humorista que sou porque alguém distinguiu em mim esta capacidade.

Um grupo, uma família para a vida Como é que surgiu o grupo Tuneza?
Surgiu da junção de cinco jovens que pretendiam mudar o estilo de vida, que era muito pobre, e transformar vidas de outras pessoas. O Gilmário acabava de fugir do Sambizanga, após ver a sua casa assaltada por marginais que tinham a intenção de tirar a vida do pai dele, e recorreu à Ilha de Luanda. Costa Vilola acabava de fugir para o mesmo local, com a intenção de se desligar do mundo do crime. Por decisão familiar foi afastado do local onde cresceu e era conhecido e amado por todos. Para tal contou com a ajuda do senhor Gamboa, seu patrão na altura, que viu que o seu funcionário vivia em péssimas condições, numa casa “colada” a uma latrina que cheirava muito mal, no bairro Sambizanga. O seu patrão de então apresentou-lhe a proposta de mudar-se para a Ilha de Luanda, para uma residência com melhores condições de habitabilidade.

Na altura, o Costa trabalhava como pedreiro de obras e o seu trabalho era ficar defronte à ARDEP [antiga geladaria na Vila Clotilde, muito frequentada, nos anos 80 e 90, por jovens estudantes], a ver quem procurasse por pedreiros para fazer obras. Dado o seu grande talento, o partido político FNLA ofereceu-lhe um curso de teatro totalmente pago. Nesta senda, apresentados por uma amiga em comum, conheceu o Orlando, um artista também com grandes habilidades. O Orlando já pertencia ao colectivo de artes Tuneza. Esta amiga, vendo a habilidade dos dois, decidiu juntá-los e informou que o Costa acabava de terminar uma formação que lhe agregava maior engajamento e vivia na Ilha, local próximo à cidade, o que lhe facilitaria a transição para os ensaios. Orlando, por sua vez, levou Costa ao grupo de amigos e assim foi formado o quinteto “Os Tuneza”. A denominação é uma homenagem ao grupo que juntou cinco amigos.

O Tigre era trabalhador de uma empresa de construção civil no Zango. Costa era pedreiro e o Tigre supervisor, foram os primeiros a construir casas no Zango. Dada a dificuldade de acesso, na altura, para sair da zona do Palanca ao Zango, tanto pela via como pelo congestionamento, o Tigre sempre chegava atrasado e havia necessidade de colocar outra pessoa no seu lugar, pois então o grupo era composto apenas por quatro elementos. O Cezalti, nesta altura, já andava com o grupo mas não fazia parte do mesmo. Com os atrasos do Tigre, o Cezalti fazia a cobertura do amigo e a sua actuação era tão brilhante que lhe garantiu ser o quinto elemento a entrar no grupo.

A intenção de colocar um quinto elemento era alavancar o grupo, sair da zona de conforto e promover a arte, mas o quinto membro veio dar uma finalidade diferenciada daquilo que era somente para palcos teatrais.

Qual é o sentimento que tem por cada um dos seus amigos e colegas?
Aos meus amigos, o sentimento é de amor e gratidão, porque foi graças a eles, com muito esforço, talento e irmandade, que eu sou o que sou. Sou visto como um grande talentoso e artista de múltiplas funções, mas é como se diz, o corpo só anda se as duas pernas estiverem boas. Estas duas pernas dependem das mãos e estas dependem das condições do membro central do corpo e se este estiver com saúde. Somos irmãos, minha vida mudou desde que me juntei a eles e a vida deles mudou desde que se juntaram a mim. A nossa relação sempre foi um jogo de reciprocidade profunda.

Orlando é um maluco excêntrico, um grande camarada e tenho com ele uma história muito linda. Pagou todas as despesas da minha primeira filha, desde o seu nascimento, cuidou das coisas todas, como fraldas, medicamentos, porque eu não tinha emprego. O Tigre sempre foi aquele amigo preocupado em não ter mais do que os outros e sempre que ele tivesse alguma coisa avisava os amigos, tanto é que o terreno onde construí a minha primeira casa foi graças ao Tigre, que conheceu o senhor que vendia os terrenos, comprou e avisou os demais.

O Cezalty tem o dom da previsão, prevê quase tudo, só que não sabe transmitir o que vai acontecer lá pr’a frente (risos), ele é muito quente. O Gilmar, apesar de já não estar no grupo, ainda o temos como uma grande referência, representava o nosso orgulho, coragem e força, era ele que encorajava a todos a avançar e a não recuar. Lembro que num momento difícil da minha vida, ele chegou até mim quando queria chorar e disse “se chorares perante os teus inimigos ou pessoas que te fazem mal, vou te dar um soco da cara, mas não por ódio”, ele sentia que o amigo dele não podia ser humilhado e que se eu chorasse seria uma humilhação para mim, aí sim, tive que me recompor (risos).

Vi a minha filha a ser arrancada de mim à força, quando a reencontrei, cinco anos depois, a miúda estava muito maltratada, com feridas por todo corpo e sem roupas em condições. O Gilmário, por sua vez, visto que eu sofria muito com a situação, recebeu a miúda, escondeu-a e tomou a decisão de não devolver a criança, sendo que eu morria de medo da família da mãe da menina. Brutamente ele se impôs e ameaçou-me que entraríamos em socos se eu devolvesse a criança. O Gilmar ajudou-me a tratar da pequena, que em pouco tempo recuperou o bom aspecto físico e hoje lhe sou muito grato.

Temos todos uma história bonita de partilha de vida, eles representam muito para mim. Hoje estou satisfeito por atingir o nível em que estou e tenho dito que “se Deus me dar mais do que tenho hoje, vou agradecer, mas se não me dar, também não vou lamentar”.

Dentro dos seus projectos pessoais, Costa Vilola sonha em empreender. Já deu alguns passos, visto que o seu maior objectivo é ajudar mais pessoas. Segundo ele, sabe cozinhar, mas o que faz na cozinha a família não come, por esta razão partilha tudo que cozinha com os seus animais de estimação, pois cria vários cães em casa.

Admite não ser especialista em fazer o pitéu que encanta todos os angolanos, que é o funje, pois sai sempre com muitas bolas, mas tem-se saído bem nos últimos tempos com os grelhados. Não é apreciador de desporto mas gosta de ver o 1º de Agosto e sofre quando este entra em fase de desgraça. Bom apreciador de leitura, é apaixonado pelas pessoas e pelo seu país, Angola.

Nasceu no dia 24 de Abril de 1980 e foi-lhe atribuído pelos pais o nome Daniel Vilola Francisco. No universo das artes cénicas é conhecido por Costa Vilola. É um filho muito querido do bairro Sambizanga.O pai nasceu no Libolo, Cuanza-Sul, e a mãe no Cuanza-Norte. Costa é o sétimo filho de uma família de nove irmãos.

Questionado sobre quantos filhos tem, o humorista respondeu que não faz filhos, somente filhas, que são três, com diferença de cinco anos, “tal como o ciclo das eleições gerais no país”. As filhas são a Inês, 20 anos, a Angélica 15, e a Ângela, 10. Vive maritalmente, mas diz que se sente casado com a sua amada Elisabete Vidal.

in Jornal de Angola

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