
Uma semana após a greve dos taxistas, que paralisou várias cidades e expôs fragilidades estruturais da sociedade angolana, é possível fazer uma análise mais fria: não se tratou apenas de um protesto laboral.
Foi a manifestação visível de um descontentamento profundo, catalisado pela crise social, agravada por políticas públicas que, ao longo dos anos, marginalizaram a juventude, negligenciaram a educação e esvaziaram o conteúdo social do Estado. A greve visou também o poder instituído, como reflexo de frustração acumulada e falta de respostas políticas eficazes.
Em Luanda, onde mais de três milhões de deslocações diárias dependem dos “azuis e brancos”, a paralisação provocou um verdadeiro colapso urbano: trabalhadores sem transporte, aulas e exames cancelados, comércio infor- mal paralisado e episódios de vandalismo, pilhagens e violência.
Embora iniciada por taxistas, a greve foi rapidamente apropriada por jovens desempregados e desiludidos. A maioria não tem formação, empre- go ou perspectivas. Representam a maioria da população e enfrentam taxas de desemprego alarmantes e um ensino inacessível ou disfuncional.
O gatilho imediato foi o aumento dos combustíveis — com o gasóleo agora nos 400 kwanzas e com novas subidas em vista — sem medidas compensatórias eficazes, como subsídios selectivos ou cartões de combustível para os taxistas, por exemplo.
O sistema de transportes públicos é ineficiente, e o prometido metro de superfície permanece no papel e nos discursos, uma miragem. Luanda, com mais de 8 milhões de habitantes, não pode continuar a depender quase exclusivamente de táxis para a mobilidade da sua população.
As consequências económicas da greve foram significativas. Estima-se que os prejuízos ultrapassem os 500 milhões de dólares, com fortes perdas no comércio informal, na logística, na indústria transformadora, na restauração e no turismo urbano.
O impacto reputacional também foi severo, colocando Angola na rota da instabilidade e, eventualmente, dificultando o investimento externo.
Nos dias anteriores, recorde-se, houve protestos contra o aumento das propinas — expondo a fragilidade do ensino público e o peso insustentável do privado, mesmo para os mais pobres. A mercantilização da educação compromete o futuro de milhões.
Lições e caminhos possíveis:
1 – Emprego juvenil como prioridade absoluta – É urgente criar empregos em larga escala, sobretudo nos sectores da construção, agro-indústria e economia digital.
2 – Educação como pilar estratégico – As escolas e universidades devem transformar-se em centros de inovação e empreendedorismo.
3 – Revisão da política de combustíveis – Introduzir subsídios dirigidos e previsíveis para operadores licenciados e sectores-chave como a agricultura e a indústria.
4 – Investimento sério na mobilidade urbana – Reforçar a rede de autocarros e explorar o potencial da linha férrea como transporte de massas.
5 – Combate estruturado à pobreza – Alargar o programa Kwenda às zonas urbanas vulneráveis e criar mecanismos eficazes de regulação da cesta básica.
6 – Cultura de diálogo e inclusão – A liderança deve promover consensos, abrir espaço ao diálogo e envolver os principais actores sociais na resolução conjunta dos problemas.
A greve não foi um episódio isolado, mas o reflexo de uma realidade que se deteriora. A juventude não pode continuar sem rumo. O Estado tem de se aproximar dela, e a economia precisa de responder com mais rapidez aos seus anseios. Não foi apenas uma greve: foi o som de um país a pedir mudanças reais para o bolso e o estomago.
Independentemente de quem a instrumentalizou, foi grave. E o mais importante, não se deve repetir. Mas a grande questão permanece: não se trata de evitar, prevenir ou reprimir, trata-se de fazer, agir e governar… ainda melhor.
*Jornalista