Hariana Veras: a nova voz da propaganda de Tshisekedi – Samson Kasujja
Hariana Veras: a nova voz da propaganda de Tshisekedi – Samson Kasujja
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Lembra-se da mulher negra de voz afiada que confrontou o presidente dos EUA, Donald Trump, no Salão Oval, a 4 de Dezembro de 2025, após a assinatura dos Acordos de Washington entre o Ruanda e a República Democrática do Congo (RDC)?

Hariana Veras Victoria perguntou: “Quando é que as tropas ruandesas se vão retirar do território congolês?” O momento foi saudado por alguns como jornalismo destemido — mas, por baixo do valor da bravata, parece ter sido cuidadosamente roteirizado e, possivelmente, comprado.

A formulação da sua pergunta reflectia a linguagem oficial de Kinshasa usada nos media para negar a existência dos rebeldes AFC/M23, ao mesmo tempo que promovia a narrativa de que “é o exército ruandês que luta contra a coligação do exército congolês”. Esta estrutura serve para justificar as falhas militares da RDC.

Este momento — celebrado por alguns como jornalismo destemido — foi apenas o acto de abertura de um papel político cuidadosamente coreografado. Nos meses que se seguiram, os movimentos, escolhas editoriais e alianças de Hariana levantaram sérias questões sobre os seus motivos, independência e integridade — questões que cada vez mais apontam para ganhos financeiros pessoais.

A sua digressão de Janeiro pela RDC e Burundi marcou um ponto de viragem. A ilustração mais clara foi uma entrevista de 47 minutos com o presidente burundês Évariste Ndayishimiye, gravada na Casa Ntare Rushatsi, a sede da Presidência. Embora apresentada como uma troca de alto nível, a substância falava por si. O Ruanda, o leste da RDC e a rebelião AFC/M23 dominaram quase todos os segmentos.

A crescente crise socioeconómica que afecta os burundeses foi totalmente ignorada. Essa omissão foi deliberada.

O cenário era burundês, mas o público-alvo não. A entrevista foi concebida para reforçar a narrativa da RDC, centrada nas tensões de Kinshasa com o Ruanda e na sua guerra contra a AFC/M23, e não no discurso interno do Burundi.

Hariana, jornalista de 42 anos, nascida em Angola, construiu a sua carreira como correspondente baseada em Washington da Televisão Pública de Angola (TPA). Da Casa Branca ao Senado dos EUA, passando pelo Pentágono e o Departamento de Estado, informou sobre instituições americanas para públicos africanos.

Durante anos, foi vista como parte de uma nova geração de jornalistas africanos que lutam por uma representação mais justa do continente.

Antes admirada por defender a dignidade e visibilidade da África, cruzou uma linha — transformando-se de jornalista em instrumento de propaganda no programa de guerra de informação do presidente Félix Tshisekedi contra os rebeldes da AFC/M23, que derrotaram a coligação congolesa e tomaram vastas extensões de território no Kivu do Norte e do Sul, e contra o vizinho Ruanda, acusado por Kinshasa de apoiar a rebelião.

Fundou a organização sem fins lucrativos Get To Know Africa Corporation, inicialmente dedicada à promoção da cultura africana, liderança e oportunidades económicas. Esse espírito desapareceu. Hoje, as suas plataformas amplificam narrativas divisivas e hostis, particularmente contra as comunidades tutsi do Ruanda e do Congo. O dinheiro substituiu a dignidade da África no cerne do seu trabalho.

Hariana teve a distinção de entrevistar mais chefes de Estado africanos do que a maioria dos seus pares, tendo recebido prémios tanto em Angola como nos Estados Unidos. No entanto, 2025 e 2026 evidenciaram uma mudança dramática de postura.

Megafone de um regime genocida

O mais preocupante para estudiosos do genocídio e observadores de direitos humanos é o papel de Hariana em obscurecer uma campanha perigosa e etnicamente carregada contra comunidades tutsi congolesas.

Enquanto amplificava repetidamente alegações oriundas de Kinshasa, nunca viajou para áreas controladas pela AFC/M23 para entrevistar líderes rebeldes ou civis que vivem sob a sua administração. Também não procurou relatos em primeira mão de comunidades presas entre actores armados no leste da RDC.

Este silêncio persiste apesar dos alertas de estudiosos do genocídio sobre a escalada do discurso de ódio por parte de oficiais governamentais e militares, bem como assassinatos selectivos de tutsis congoleses — frequentemente atribuídos às milícias Wazalendo, mobilizadas por Tshisekedi em 2022, e às FDLR, um grupo genocida apoiado por Kinshasa, formado por perpetradores do genocídio de 1994 contra os tutsis no Ruanda. Durante a sua permanência na RDC, Hariana ignorou completamente esses alertas.

Na sequência da sua visita oficial à RDC, em Novembro de 2022, a então Conselheira Especial da ONU para a Prevenção do Genocídio, Alice Wairimu Nderitu, expressou publicamente grande preocupação com a deterioração da situação no leste da RDC. Enfatizou que a violência estava intimamente ligada à crise dos refugiados após 1994, quando os genocidários fugiram do Ruanda e se reorganizaram no leste da RDC, dando origem a grupos como as FDLR.

“Os abusos actualmente ocorridos no leste da RDC, incluindo a perseguição de civis [tutsis congoleses] devido à sua etnia ou presumida filiação com grupos em conflito, devem cessar”, alertou Nderitu.

Hariana comporta-se como se essas avaliações nunca tivessem existido

A partir de 28 de Abril de 2025, a sua conta na rede X passou a focar-se quase exclusivamente na RDC. A maioria das publicações elogiava Tshisekedi ou ecoava campanhas lançadas pelo seu porta-voz, Patrick Muyaya, incluindo #CongolaisTelema, #ToutPourLaPatrie e #BendeleEkweyaTe.

Em 12 de Dezembro de 2025, republicou conteúdos da Xtrafrica, uma plataforma de disseminação de desinformação sobre o Ruanda e a AFC/M23. A Xtrafrica é patrocinada por Kinshasa e administrada por Jean-Luc Habyarimana, filho do ex-presidente ruandês Juvénal Habyarimana, com o objectivo de branquear o legado genocida da família, demonizar o actual governo do Ruanda e elogiar Tshisekedi e aliados como Évariste Ndayishimiye, do Burundi.

Desde o início de Janeiro, Hariana tem feito viagens entre Kinshasa e Gitega, recolhendo alegações de ambos os regimes contra o Ruanda e a AFC/M23. A sua entrevista com Ndayishimiye foi exibida pela primeira vez na RTNC, emissora nacional da RDC, a 17 de Janeiro — três dias antes de surgir nas suas próprias plataformas, e de forma notável, não na emissora nacional do Burundi, a RTNB.

Esta sequência foi deliberada. A mensagem foi construída para a agenda de Kinshasa, não para os burundeses nem para o público geral da região dos Grandes Lagos.

Igualmente revelador é o que ela não cobre

Não há comentários consistentes sobre a guerra no Sudão; debates sobre o reconhecimento da Somalilândia por Israel; tensões no Sudão do Sul entre o presidente Salva Kiir e o líder da oposição Riek Machar; eleições no Uganda, Guiné ou República Centro-Africana; a vaga de golpes e insurgências na África Ocidental; ou mesmo controvérsias em torno da final da CAN entre Senegal e Marrocos. O seu foco é singular: promover a narrativa de Tshisekedi sobre o leste da RDC.

Porquê esta fixação? Tshisekedi demonstrou talento para recrutar vozes maleáveis. Fontes dentro da presidência congolesa afirmam que Hariana recebeu cerca de 4.000 dólares norte-americanos antes da sua pergunta confrontacional a Trump no Salão Oval — uma alegação que nunca negou.

Observadores recordam que ela parecia ansiosa por fazer uma segunda pergunta, alegadamente enviada por Patrick Muyaya, mas foi interrompida quando Trump encerrou abruptamente a sessão, declarando: “Muito obrigado a todos!”. A sua ansiedade visível denunciava a pressão de uma tarefa atribuída.

Hariana juntou-se a um círculo já conhecido de figuras — incluindo o franco-camaronês Carlos Onana, o norte-americano Jason Stearns e os comentadores congoleses Stanis Bujakera e Daniel Micombero — que se apresentam como analistas internacionais neutros, enquanto promovem narrativas favoráveis a Tshisekedi, alegadamente após terem sido colocados na sua folha de pagamentos.

*In The Great Lakes Eye

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