História do actual território angolano antes do séc. XV – René Ualya
História do actual território angolano antes do séc. XV - René Ualya
Luanda

A história nos territórios onde actualmente se encontra localizada Angola não começa no Séc. XV, como retrata a historiografia do ocidente.

Os reinos de Angola têm história a partir da sua existência. Ela foi formatada e reescrita pelo colonizador para mostrar a sua superioridade e diminuir o africano, mais tarde arquivada nas bibliotecas europeias onde somos obrigados a pesquisar, durante e após formação, para se perpectuar a neocolonização e preservar a mentira, sempre com a intenção de diminuir o africano como se fez com o continente no mapa mundo.

“O livro do Missionário capuchinho Giovanni Antonio Cavazzi de Montecuccolo (1621 – 1698), Istoria descrizione de tre regni Kongo, Matamba ed Angola, publicado em Bolonha, em 1687 foi muito tempo a fonte de referência sobre a história e a sociedade da África Central no Século XVII” (MONTECUCCOLO, 1687, p. 1).

Na minha dissertação de mestrado, sobre Njinga Mbandi, arquivada na Biblioteca do ISCED de Luanda, desvendo como Cavazzi ofusca a Rainha da Matamba com atributos sobre horrores, enquanto Njinga Mbandi foi uma excelente estratega, administradora, reguladora da justiça, diplomata, guerreira, protectora do seu povo (patriota), cortes e com valores procurados nos palácios de governadores colonos; uma grande mulher.

Ela causava espanto. Cavazzi conheceu e conviveu com Njinga, porém vale relembrar que o Missionário desembarcou em Loanda a 14 de Novembro de 1654 com outros capuchinhos e foi primeiro destacado na Fortaleza portuguesa de Massangano, confluência do Kwanza e do Lucala, onde permaneceu de 19 de Dezembro de 1654 até Maio de 1665 e já encontrou os reinos bem organizados.

É por isso que surgimos com este artigo que tem a ver com a história dos territórios onde hoje está Angola.

Honoré Mbunga, no seu artigo “A Problemática da periodização da história de Angola: O período colonial”, divide a história geral angolana, nas Actas do III Encontro Internacional de História de Angola, em cinco períodos seguintes:

  • 6000 Anos a. C. século I a. C. (Idade pré-histórica);
  • Século I a. C. 1482 (Grandes migrações e formação de estados, reinos e impérios);
  • 1482 – 1915 (Os contactos com a Europa e suas consequências);
  • 1915 – 1975 (A colonização europeia e seus efeitos);
  • 1975 – Hoje (A independência do país e suas realidades). p. 152.

Se quisermos recuar no tempo em direcção ao coração de África, a Núbia e a Etiópia, na era de Isaías, os Núbios dominavam o Egipto e enviavam uma expedição militar à Palestina (Is 18, 1; 20, 3 e 37,9).

Ora, segundo a Bíblia Sagrada, o profeta descreveu os Etíopes – estamos a falar de africanos -,como muito bonitos e o historiador Heródoto, elogiou-os como «os mais altos e mais belos dos homens» (BAUR, 1994, p. 25). Os povos ao Sul do Saara são a continuidade, pois antes do Século XV já tinham suas culturas, crenças e tradições.

Em Tchitundo – Hulo, a cerca de 130 Km da sede do Município do Virei, província do Namibe, Sul de Angola, numa zona coberta por deserto, pudemos encontrar as pinturas rupestres, a exemplo da Fenícia com a escrita hierográfica, desenhadas em grutas remotas entre os vestígios arqueológicos.

O sítio é habitado por pastores da tribo Mucubal. Estas pinturas aproximam-se a formas de animais, tais como tartarugas e peixes e gravuras que ilustram o céu e astros.

Numa reportagem feita pelo Jornal de Angola, a 8 de Dezembro de 2022, p. 39 “Os especialistas estimam que os autores tenham sido os Khoisan ou Cuisses -Tua, povos ancestrais que estavam instalados no Sul de Angola antes da chegada dos bantus, o grupo étnico maioritário no país”.

Estas figuras do Tchitundo – Hulo estão estampadas nas grutas há 2000 anos, isto no tempo das grandes migrações e formação de estados, reinos e impérios, pois este período foi confirmado pelo Sociólogo e membro da Associação dos Naturais e Amigos do Namibe, Ildeberto Madeira ao Jornal de Angola.

Data ainda dos factos que os desenhos pré-históricos nestas grutas são mais de mil, espalhados entre o interior e o mono granítico, que começaram a ser estudados no ano 1950 pelo geólogo português Camarate França.

Quando os portugueses desembarcaram na foz do Rio Zaire em, 1482, já encontraram história dos povos entre os reinos e o Sul de Angola foi o último a ser conquistado por eles, talvez a sobrevivência destes factos históricos.

A tamanha barbaridade contra o assassinato das fontes históricas dos autóctones para que as gerações vindouras, pensassem ser nada, fez que a historiografia começasse a partir do Séc. XV.

O episodio é idêntico ao da Biblioteca de Alexandria, destruída em 48 a. C. por um incêndio durante a guerra civil romana entre Pompeu e Júlio César e da Universidade de Tombuctu no Séc. XII, no Mali, onde já se estudava: Teologia, Retórica, Gramática. Lógica e Astronomia que hoje menos se fala na história do Ocidente. A história para nós deve ser vista e estudada de dentro para fora.

Os homens levados dos reinos de Angola para Salvador da Bahia e Estados Unidos da América, conservam o nosso passado e a reprodução tem sido feita em filmes, novelas e livros de Afrodescendentes.

Por cá, a lavagem foi tanta que quase acreditamos ser o povo sem história que começa no Século da historiografia do Ocidente, pois vislumbra-se extinção de inúmeras fontes históricas.

No Museu do Louvre, em Paris, está guardado o Código de Hammurabi (rei de 1792 a 1750 a. C); que a justiça por ele proclamada faça que o Ocidente renove o seu acervo com a história endógena. Todo o povo tem uma história a partir da existência, logo a história é anterior a do Séc. XV, portanto no Séc. I a. C. os povos que habitavam nos reinos onde está, actualmente, Angola já pintavam e descodificavam símbolos para a sua comunicação.

*Mestre em Ensino de História de Angola pelo ISCED de Luanda

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