Histórias de homens que criam filhos sozinhos
Histórias de homens que criam filhos sozinhos
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Numa sociedade de matriz conservadora como a angolana, há uma tendência natural para se destacar, às vezes de forma quase absoluta, a figura da mãe na educação e cuidado dos filhos, deixando-se de parte o instinto protector e o acompanhamento do pai.

Tal realidade, porém, é sempre contrastada com casos pontuais de pais dignos de reverência que se notabilizam como verdadeiras “mães” na protecção solitária dos filhos depois de uma relação mal sucedida ou interrompida.

Ou seja, casos de famílias monoparentais típicas, em que os pais, por razões várias, são deixados sozinhos a cuidar e prestar todo o acompanhamento necessário dos filhos.

No mês dedicado mundialmente à família, com Angola a realizar a 26.ª sessão do seu Conselho Nacional da Família, a Angop procurou ouvir a gesta desses homens que quebram a rotina para assumir o papel de mãe, embora com todas as suas limitações naturais.

Faria Bumba, de 61 anos de idade, Manuel Nascimento (54) e o quadragenário Leonardo Satombela (nome fictício) são três exemplos desse “desvio” à norma, encontrados na cidade de Menongue, capital da província do Cubango.

Têm todos em comum o facto de serem pais e “mães” ao mesmo tempo, embora por causas distintas, pois o primeiro como viúvo e os dois outros separados das companheiras.

O sexagenário é viúvo, há nove anos, e os outros dois, com um e cinco filhos, respectivamente, teriam sido supostamente “abandonados” pelas suas antigas parceiras depois de desavenças conjugais constantes.

Como eles haverá certamente várias outras histórias desses “pais-mães” que, por diversas razões, acabaram por arcar sós com o fardo do sustento material e imaterial dos filhos, com bastante competência, dedicação, amor e determinação de tudo fazer pelo seu bem-estar.

Papel “muito difícil”

Faria Bumba admite ser “muito difícil” o pai assumir o duplo papel, sobretudo quando os filhos são menores como foi o seu caso, depois de perder a esposa, em Dezembro de 2015, deixando-lhe seis filhos.

Conta que a companheira partiu, quando lutava para o seu sétimo parto, deixando para trás quatro rapazes e duas raparigas, para além de outras duas sobrinhas, também menores, que na altura residiam sob tutela do casal.

Na altura dos factos, explica, a família solicitou a divisão dos filhos, mas o pai, de forma peremptória e com a disciplina aprendida enquanto quadro da Polícia Nacional, (PN) negou e decidiu fazer uma readaptação ao seu estilo de vida para cuidar dos seus filhos, como órfãos de mãe.

Actualmente, Faria Bumba tem três meninas já formadas ao nível de licenciatura e casadas, que já lhe deram igualmente três netos, o que o antigo efectivo da PN considera um “grande ganho e bênção divina”.

Sobre os desafios e momentos mais amargos, lamenta que, depois da morte da esposa, passou por momentos de muita tristeza, agravada pelo facto de as crianças ficarem doentes sem causa aparente e de forma simultânea.

Mas, com a ajuda directa e indirecta de colegas, familiares e amigos conseguiu superar a situação.

Preferiu, por isso, mudar-se da cidade de Luanda, para a então província do Cuando Cubango, de forma a livrar-se das memórias e da saudade que o corroíam na hora de entrar na casa comum, onde a presença imaginária da sua falecida esposa parecia real em cada canto da residência.

“Era muito difícil. Imagine estar habituado a ser recebido por alguém, mas, à dada altura, chega à casa e já não está lá, com a preocupação da alimentação, das compras no mercado e olhando para as crianças pequenas”, realça, justificando a sua transferência, consumada em 2016.

Em virtude das suas ocupações profissionais, explica, teve de adoptar uma dinâmica de deixar o filho mais novo com os colegas e depois colocá-lo numa creche afecta à Igreja Católica que já dominava a situação.

Bumba diz que, durante todo este percurso, não teve apoio institucional, mas apenas moral da parte da família, de colegas e de amigos, e que, mesmo assim, nunca pensou em desistir, pois o seu lema foi sempre “lutar até conseguir e nunca desistir”.

Sempre acompanhado do filho mais novo, Faria Bumba mostra-se optimista e acredita num futuro mais risonho dos seus filhos, apesar de ter alguns que, embora já em idade de trabalhar, ainda lutam para sair do desemprego.

Hoje, reformado como superintendente da Polícia Nacional, considera-se “um pai de coração inteiro”, pois abdicou de muita coisa para se dedicar, de forma exclusiva, à saúde, à alimentação, à educação e ao lazer dos filhos.

Aos demais pais aconselha que tenham coragem e continuem a acreditar, acrescentando que a condição de viuvez ou de abandono exige a fé e compreensão de que a vida deve seguir e não acabar pela perda de um dos cônjuges.

“Isso é próprio. Os casados devem ter em mente que não existem nascimentos e mortes combinadas. Cada um tem o seu dia de chegada e de partida, quer pela morte ou desavenças, mas deve-se manter firme na dedicação aos filhos”, sublinhou.

Desafio a estigmas e preconceitos

O cidadão nacional Manuel Nascimento, de 54 anos, é outro destacado “pai-mãe” de Menongue que, de repente, se viu abandonado pela parceira com a filha comum que, na altura, tinha apenas dois meses.

O seu “grande coração” e instinto paternal ajudaram-no a desafiar todos os estigmas e preconceitos de uma cultura patriarcal, tendo assegurado o mínimo para a sobrevivência da menor, que hoje conta com um ano e três meses de idade, com um estilo de vida totalmente grudado ao pai.

Jardineiro de profissão, Manuel Nascimento é conhecido pelo seu “vício” de carregar sempre a criança às costas em todos os lugares por onde passa.

Sobre a sua separação com a mãe da bebé, conta que tudo começou com os primeiros sinais da gravidez, quando foram surgindo complicações no relacionamento, até que, depois do nascimento, a mãe abandonou a menina.

Para buscar consolo, dirigiu-se ao Serviço de Investigação Criminal (SIC), ao Instituto Nacional da Criança (INAC), ao Gabinete Provincial da Acção Social e à Administração Municipal de Menongue, que prontamente intervieram com assistência em alimentação, medicamentos e produtos de higiene, bem como o devido amparo para o pai e a filha.

O novo pai-mãe diz que, desde então tem encontrado, no seu dia-a-dia, boa receptividade por parte do INAC e do Hospital Pediátrico na assistência sanitária e bastante solidariedade de pessoas singulares e da Administração Municipal do Menongue que apoiam na alimentação.

O seu projecto é ver um futuro da filha que conte com a participação da família materna, pelo que tomou a iniciativa de confiar a criança a uma irmã da mãe com a qual passa algumas vezes o fim-de-semana para favorecer a sua aproximação e evitar que cresça com a mente conturbada.

No entanto, Manuel Nascimento lamenta que a mãe da criança e sua “ex” não está neste alinhamento.

Na sua visão, ser pai não é só gerar uma criança, mas assumir a responsabilidade de acompanhá-la, cuidá-la e dar-lhe a melhor educação e ensinar os caminhos do bem e do mal, oferecendo-lhe carinho e acompanhando o seu próprio desenvolvimento.

Aos outros pais em situação similar aconselha o dever de comunicar sempre às autoridades administrativas em busca de subsídios sobre o caminho a seguir até que a criança cresça e atinja a idade adulta.

Por seu turno, Leonardo Satombela, também cidadão nacional na casa dos 40 anos, teve quase que a mesma sorte, com a diferença de que foi abandonado pela esposa com um número maior de filhos menores, num total de cinco, com idades compreendidas entre oito e 17 anos.

Lacónico e visivelmente constrangido pela situação que já decorre há mais de seis meses, o jovem, que preferiu não gravar a entrevista, afirmou que tem sido um exercício difícil tomar conta das necessidades quotidianas de saúde, educação, alimentação e lazer das crianças.

O desempenho das ocupações profissionais colide com as responsabilidades paternais, diz Leonardo Satombela que confidenciou que preferia a reconciliação e ver de volta a mulher a cuidar do lar, mas que encontra entraves.

Conta que o obstáculo está no facto de, por um lado, a família da esposa estar a desfavor do relacionamento, que deixou tristes memórias de brigas constantes e, por outro, a mulher já ter assumido uma outra relação amorosa.

Ainda assim, o dia-a-dia deste homem tem sido de um esforço permanente para conciliar a nova experiência de ser pai solteiro e, ao mesmo tempo, “mãe” provedora.

Auxílio institucional

O Gabinete Provincial da Acção Social, Família e Igualdade de Género (GASFIG) na província do Cubango, tem vindo a ajudar essas famílias, com assistência e acompanhamento psicológico, médico e alimentar.

Em muitos casos, o GASFIG tem estabelecido pontes de diálogo com familiares próximos dos casais desavindos para perceber as causas do abandono, estabelecer todos os mecanismos de conciliação e voltar a congregar o casal.

Segundo a chefe do Departamento da Família e Promoção da Mulher do GASFIG, Maria de Fátima Kambinda, em alguns casos esta instituição cede um espaço preparado para conferir maior segurança e dignidade aos familiares nessas situações.

“Antigamente falávamos apenas de abandono à paternidade, mas agora nota-se que a sociedade regista casos de fuga à maternidade. Pedimos às famílias que haja diálogo, aconselhamento das mães que têm bebés recém-nascidos para que não possam abandonar, porque abandonar um bebé é abandonar o futuro à sua sorte, num acto que destrói a sociedade”, sublinhou.

Condenou veementemente tal atitude e fez saber que, de Janeiro a Abril deste ano, foram registadas 57 denúncias das quais sete homens apresentaram queixa contra as parceiras por abandono do esposo e dos filhos.

Explicou que por desentendimento e, muitas vezes, por razões fúteis, as mães abandonam os lares e deixam toda a responsabilidade aos pais.

Como forma de solução, para estes casos, explicou que as mães são chamadas para o aconselhamento familiar sobre como cuidar dos filhos e, no caso de mães com problemas mentais, faz-se recurso aos psicólogos para a devida avaliação e procedimentos subsequentes.

Visão do psicólogo

Sobre a problemática das famílias monoparentais e os desafios que enfrentam, o psicólogo clínico Nelson Mateus Dembo defende uma revisão da legislação e políticas públicas que garantam protecção e suporte adequado a essas pessoas, visando melhorar o seu bem-estar.

Como ponto de partida, o especialista elege o reconhecimento constitucional da família como o núcleo fundamental da sociedade e o dever atribuído ao Estado e à sociedade de assegurar a sua protecção, promovendo a sua estabilidade e bem-estar psicossomático.

Explica que as famílias monoparentais enfrentam desafios estruturais e sociais que exigem atenção especial, pois que existem desigualdades estruturais que afectam esses núcleos, estigmas sociais que reforçam exclusões e desafios da protecção integral para crianças e responsáveis, entre outros

Para o docente universitário, a perda de um parceiro e a reconfiguração dos laços familiares, após divórcio ou separação, geram sempre novas dinâmicas e desafios para a criança sobre quem o abandono parental causa impactos psicológicos profundos.

Por isso, o psicólogo entende que, apesar de a lei angolana reconhecer a importância da família e estabelecer princípios fundamentais para a sua protecção, ainda há lacunas na legislação que dificultam a garantia de direitos para as famílias monoparentais.

Citou em especial o respeitante à protecção social, ao acesso à justiça e a políticas públicas eficazes, realçando que ainda persistem desafios na implementação da Lei n.º 25/12, de 22 de Agosto, que trata da protecção e desenvolvimento integral da criança.

Segundo o especialista, algumas das principais lacunas incluem a falta de regulamentação específica para famílias monoparentais, já que a legislação não diferencia claramente os direitos e deveres dos responsáveis únicos.

A dificuldade na obtenção de pensão alimentícia é outra lacuna apontada pelo especialista, diante de obstáculos burocráticos e judiciais para garantir o sustento dos filhos e inexistência de subsídios específicos para mães e pais solteiros sem capacidade económica.

Defende igualmente o reforço do diálogo sobre a estruturação das famílias com foco na educação, na preservação dos valores éticos, morais e culturais, devendo.

O Estado cria políticas públicas voltadas para a família que garantam uma protecção especial para as crianças.

Considera que valorizar e promover a importância da família é fundamental para a construção e reconstrução de uma sociedade mais saudável e equilibrada.

A desestruturação das famílias é um mal que têm comprometido o bem-estar e desenvolvimento dos seus membros, especialmente crianças e adolescentes, concluiu.

in Angop

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