Homenagem à enfermeira Alcirene Carmelita Humba – Sousa Jamba
Homenagem à enfermeira Alcirene Carmelita Humba - Sousa Jamba
Sousa Jamba

A notícia do falecimento de Alcirene Carmelita Humba, jovem enfermeira nascida em 1993, no Huambo, abateu-me profundamente na manhã de quinta-feira. Tive a honra de conhecer Alcirene por volta de 2017, quando exercia a sua nobre profissão no Centro Médico Aldeia Camela Amões, um projecto idealizado e mantido pelo saudoso Segunda Amões.

Alcirene nutria grande apreço por sua vocação e era uma mulher de fé inabalável, devota da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Descobri mais tarde que conhecia grande parte do repertório da Igreja Evangélica, levando-me a crer que lá teria nascido.

Sua natural timidez dissipava-se por completo ao cuidar de alguém em sofrimento, movida por um ímpeto altruísta que sempre me comoveu.

Com incansável dedicação, muitas vezes abdicava do sono para atender aqueles que buscavam alívio no Centro Médico Camela. Sua beleza singular também não passava despercebida, atraindo olhares e sorrisos. Alguns até procuravam o centro médico sem qualquer queixa, apenas para sentir o toque do seu estetoscópio — como se a sua presença fosse um bálsamo para a alma.

Alcirene era, sem dúvida, uma alma ímpar. Sua graça e beleza evocavam a memória da tia Anita Sekessa, mãe do meu grande amigo Luís Candeias e amiga dileta de minha mãe.

Nos idos anos 70, tia Anita exercia enfermagem no Bom Pastor, sempre solícita em servir a comunidade, trajando um imaculado vestido branco que simbolizava a sua devoção. Alcirene encarnava essa mesma abnegação. Cheguei a chamá-la de tia Anita, tamanha a semelhança.

Jovens como ela não buscavam fortuna no centro médico, pois poderiam prosperar em outras actividades. Estavam ali por um chamamento maior, imbuídos de um espírito de serviço que os levava a enfrentar situações extremas, mas sempre dispostos a oferecer o melhor de si.

Alcirene, apesar da timidez e da discrição, era uma profissional exemplar e meticulosa. Carregava consigo uma leve claudicação, resultado de um trágico acidente que vitimou sua irmã. Contudo, essa dor não a impedia de ser a primeira a estender a mão aos enfermos, demonstrando uma empatia que transcendia as palavras.

O Centro Médico Camela, equipado com ambulância e laboratório pelo visionário Segunda Amões, recebia ocasionalmente a visita de médicos egípcios da Igreja Copta do Egipto, que ofereciam seus préstimos no tratamento de diversas enfermidades.

Colaborávamos com a tradução e a organização, num ambiente permeado por um profundo senso de solidariedade. Jovens como Alcirene estavam na vanguarda desse movimento, dedicando-se ao próximo com desprendimento, enchendo-me de orgulho por ser angolano.

Alcirene tinha uma filha, Jizela, que, acompanhada de outras crianças da Camela, frequentava a minha casa para assistir a desenhos animados. Meu fogão a gás, raramente utilizado, era palco de animados encontros, onde Alcirene e suas colegas preparavam bolos e partilhavam histórias, especialmente quando minhas sobrinhas de Luanda estavam de visita à Aldeia Camela. Chegamos até mesmo a visitar Katchilengue, a aldeia onde nasci, numa memorável jornada colectiva.

Em certa ocasião, fui convidado para um aniversário e descobri que Alcirene, órfã de seus entes queridos, residia com a irmã num quintal murado na Calomanda, um bairro modesto do Huambo. A impecável higiene do local impressionou-me sobremaneira, levando-me a registar em fotografias a cozinha, o banheiro e os quartos que dividiam.

A despeito da simplicidade do bairro, o interior do quintal era um oásis de organização e beleza, adornado com flores e impecavelmente cuidado, assemelhando-se a um refinado hotel. A paixão e o zelo com que mantinham o lar eram evidentes.

O portão do quintal, por medida de segurança, era trancado ao anoitecer, isolando-as dos perigos da rua. Tive o prazer de conhecer a irmã de Alcirene, uma professora alegre e extrovertida, com um sem-número de histórias sobre os seus alunos, e também o irmão, que residia no Kwanza Sul.

A união e o senso de organização dessa família permitiam-lhes manter um elevado padrão de vida, mesmo com recursos limitados.

Alcirene, apesar da tristeza que a acompanhava e da discrição sobre a sua vida pessoal, era uma jovem de riso fácil e espírito jovial, encontrando alegria nas pequenas coisas do cotidiano. Sua resiliência e bom humor evocavam a memória de minha mãe e da tia Anita, representando a essência do antigo Huambo.

Alcirene, por vezes insegura e consciente de supostas limitações, era uma pessoa de valor inestimável, ainda que não se desse conta disso. A grandeza de uma nação, a sua própria essência e bondade, são mantidas por valores positivos personificados nos seus cidadãos — estes indivíduos carregam a tocha da boa vontade e da dedicação sem procurar louvor, reconhecimento ou destaque.

São como as figuras bíblicas que dão com uma mão sem que a outra saiba. Estas pessoas são o sal da terra; e a jovem que perdemos era precisamente uma delas.

Ao final de sua jornada, Alcirene havia ascendido ao topo, assumindo a direcção do Centro Médico, um testemunho de suas notáveis habilidades organizacionais e imensa dedicação. A família que perdeu tão brilhante filha, carrega agora uma profunda tristeza que compartilho.

É doloroso pensar que perdemos alguém que tanto poderia ter contribuído para o crescimento do nosso país. Que seu espírito altruísta e sua dedicação ao próximo continuem a iluminar o caminho de todos nós, onde quer que ela esteja!

*Jornalista e escritor

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